Uma Epígrafe



"...Quanto à poesia, parece condenada a dizer apenas aqueles resíduos de paisagem, de memória e de sonho que a indústria cultural ainda não conseguiu manipular para vender."...[Alfredo Bosi, in O Ser e o Tempo da Poesia, p. 133]

segunda-feira, março 03, 2008

Fingere

Quando eu mais menino,
Debruçava-me sobre os versos,
Os olhos marejados, a alma aflita.
Cresci.
Não choro mais, por conta de artifícios;
Os mesmos artifícios com que construo os versos.
E ando a aconselhar aos meus parcos ledores
(que, nesses tempos loucos, nem mais se lê poesia...)
Para não chorarem por conta de meus versos.
As dores que invento nem são dores.
São coisas fictícias, a alma é de papel,
Saudades fabricadas, ais que eu nunca disse.
O que me importa mesmo é o jogo,
O ofício de iludir,
o mero roçar das falanges na caneta, vício adquirido desde cedo;
e o arrastar da mão na página em branco.

Não há pesares, insisto.
Não há dores.
São todas falsas penas,
mágoas fingidas.
Tudo medido, premeditado:
Cada palavra, cada vírgula,
cada gemido, pré-fabricado em moldes de gesso.
Todo sentir aqui é artifício, é falso.
O que persigo (e, nisso, eu sou sincero)
É essa beleza plástica, essa harmonia,
Esse ritmo interior das elegias
em que um poeta engendra as dores
que ainda deixam úmidos os meus olhos de menino...
Eurico
30/10/1997
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