Uma Epígrafe



"...Quanto à poesia, parece condenada a dizer apenas aqueles resíduos de paisagem, de memória e de sonho que a indústria cultural ainda não conseguiu manipular para vender."...[Alfredo Bosi, in O Ser e o Tempo da Poesia, p. 133]

sábado, novembro 26, 2011

LIVRO DO DESASSOSSEGO (excerto)



Releio lúcido, demoradamente, trecho a trecho, tudo quanto tenho escrito. E acho que tudo é nulo e mais valera que eu o não houvesse feito. As coisas conseguidas, sejam impérios ou frases, têm, porque se conseguiram, aquela pior parte das coisas reais, que é o sabermos que são perecíveis. Não é isto, porém, que sinto e me dói no que fiz, nestes lentos momentos em que o releio. O que me dói é que não valeu a pena fazê-lo, e que o tempo que perdi no que fiz o não ganhei senão na ilusão, agora desfeita, de ter valido a pena fazê-lo.
Tudo quanto buscamos, buscamo-lo por uma ambição, mas essa ambição ou não se atinge, e somos pobres, ou julgamos que a atingimos, e somos loucos ricos.
O que me dói é que o melhor é mau, e que outro, se o houvesse, e que eu sonho, o haveria feito melhor. Tudo quanto fazemos, na arte ou na vida, é a cópia imperfeita do que pensámos em fazer. Desdiz não só da perfeição externa, senão da perfeição interna; falha não só à regra do que deveria ser, senão à regra do que julgávamos que poderia ser. Somos ocos não só por dentro, senão também por fora, párias da antecipação e da promessa.
Com que vigor da alma sozinha fiz página sobre página reclusa, vivendo sílaba a sílaba a magia falsa, não do que escrevia, mas do que supunha que escrevia! Com que encantamento de bruxedo irónico me julguei poeta da minha prosa, no momento alado em que ela me nascia, mais rápida que os movimentos da pena, como um desforço falaz aos insultos da vida! E afinal, hoje, relendo, vejo rebentar meus bonecos, sair-lhes a palha pelos rasgos, despejarem-se sem ter sido...

Bernardo Soares


s.d.
Livro do Desassossego por Bernardo Soares. Vol.II. Fernando Pessoa. (Recolha e transcrição dos textos de Maria Aliete Galhoz e Teresa Sobral Cunha. Prefácio e Organização de Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1982.
- 321.
"Fase confessional", segundo António Quadros (org.) in Livro do Desassossego, por Bernardo Soares, Vol II. Fernando Pessoa. Mem Martins: Europa-América, 1986.

Fonte do texto:
http://arquivopessoa.net/textos/1689

Ao fundo ouve-se algo como "O Deserto" - Mariza (in: Fado Curvo)

domingo, novembro 13, 2011

d'AS COUSAS (e d'Os Motes)




se há poesia
em buscar vozes ao dicionário?
se há beleza em formar cores na paleta?
se na pedra já habita a forma inata?
Quem sabe...
Mas todas essas cousas
mesmo as que em desuso emergem
as mais obsoletas
querem um lugar ao sol
e mostram suas faces ávidas
essas cousas assim despercebidas
esse vaso vazio
essa cousa pressentida
essa idéia de vida
o poeta escava fundo e também lavra
essa palavra...




Eurico
Poema dedicado a alguém que me questionou sobre certas palavras
arcaicas em meus poemas.
Não são palavras, são cousas vivas, evidentes e presentes. Antigo é o sentido que se lhes dava.  rsrsrs

sexta-feira, outubro 21, 2011

Tijolinho (in memoriam)




















I
Desci a ponte apressado,
perdi o bonde das cinco.
Volto pávido pra casa.
Mas não perdi a esperança.

II
Sei que os gatunos já espreitam
na Estreita do Rosário,
Os bêbados
Os operários
que jogam com palitinhos.
Aqui se dorme cedinho.

III
Conheci um motorneiro
cujo nome, Tijolinho,
sempre me cai na cabeça.
Meu pai, dizia: não desça,
antes de Tejipió.
Primeira vez, eu, no bonde,
andei só.

IV
O bonde aberto do lado.
Eu fora, dependurado,
com o guarda-chuva na mão.
Eu, de volta.
Eu, cansado.
Eu, eus, múltiplo, multiplicado.
Mil rostos,
mil e um pecados.

V
Eu, do Recife,
eu do umbigo mundo.
Eu, tão ambíguo, no mundo.
Vrrrummm! no bonde, um giramundos!

VI
Fui consultar u'a vidente.
Queria ver meu passado.
Meus trilhos. A ubiquidade;
Eu, tríbio.
Eu, sem idade.

VII
Num bonde andei.
Mas brincava sobre uma placa flutuante.
Um bonde é antes brincante,
f(l)ui, passageiro,
Eu passei...



Viagem poética, criada a partir de uma viagem real,
que fez o meu pai, Elias Eurico de Melo.
Meu velho, 86 aninhos, me conta seus causos d'infância,
nesses dias frios de 2010 em que, juntos, cuidamos
dos nossos corpos (e almas), alquebrados, mas serenos.


Fonte da Imagem:
Bonde de Tejipió
http://www.skyscrapercity.com/showthread.php?t=1112501


Nota do blogueiro:
A reedição dessa postagem é em memória
do Sr.Elias Eurico de Melo  (31/08/1924 - 17/10/2011),
meu querido paizinho, que nos deixou saudosos.
Ao fundo, Taiguara - O Velho e o Novo:


Deixa o velho em paz
Com as suas histórias de um tempo bom
Quanto bem lhe faz
Murmurar memórias num mesmo tom


A sua cantiga, revive a vida
Que já se esvai
Uma velha amiga, outra velha intriga
E um dia a mais


Vão nascendo as rugas
Morrendo as fugas a as ilusões
Tateando as pregas
Se deixa entregue às recordações


Em seu dorso farto
Carrega o fardo de caracol
Mas espera atento
Que o céu cinzento lhe traga o sol


Ele sabe o mundo
O saber profundo de quem se vai
O que não faria
Pudesse um dia voltar atrás


Range o velho barco
Lamento amargo do que não fez
E o futuro espelha
Esse mesmo velho que são vocês


quarta-feira, outubro 12, 2011

QUE AS CRIANÇAS CANTEM LIVRES!


Crianças de Gaza olham por buracos em muro.















O tempo passa e atravessa as avenidas

E o fruto cresce, pesa e enverga o velho pé
E o vento forte quebra as telhas e vidraças
E o livro sábio deixa em branco o que não é


Pode não ser essa mulher o que te falta
Pode não ser esse calor o que faz mal
Pode não ser essa gravata o que sufoca
Ou essa falta de dinheiro o que é fatal


Vê como um fogo brando funde um ferro duro
Vê como o asfalto é teu jardim se você crê
Que há um sol nascente avermelhando o céu escuro
Chamando os homens pro seu tempo de viver


E que as crianças cantem livres sobre os muros
E ensinem sonho ao que não soube amar sem dor
E que o passado abra os presentes pro futuro
Que não dormiu e preparou o amanhecer...




Tinha eu 16 anos, quando ouvi essa canção pela primeira vez.
Estávamos em plena ditadura. Taiguara, sem perder a ternura,
já me ensinava que o lirismo pode ser contestador. Ouçam:


Taiguara ao piano - 1973

terça-feira, setembro 27, 2011

TRICICLOS

Cilium Velocipede by Jessica Ward





















O que dizer do brilho
dessas coisas em cinemascope?

Que a vida é apenas movie?
Que agitam-se os seres
aquecidos?

(O Sol também me a/tinge,
mas, uso cremes medicinais)

Entretanto, Ísis avança,
em physis, viçosa e indene.

Quase criança,
Ísis,
flor entreaberta sobre um velocípede.

Uns dizem disso:
É a primavera.

Eu quase digo:
respira e espera...



Fonte da imagem:
http://www.jessicawardart.com/2010/06/25/cilium-velocipede/

domingo, setembro 25, 2011

BICICLOS



















Se Ísis ressurge sempre
nesse equinócio e acende
o Sol, deslizando em patinetes,
de um azul ciano, celeste,
por que fica essa escória
escura sob os ciprestes?
Por que, em vez de orvalho, chorume,
e em vez de flores, estrume?

No pátio, as sucateadas palavras
gastas e o eterno
retorno da pátina
que invade parques e praças;
Mas, Ísis surge com graça,
deslizando em patinetes,
e vem mascando chicletes,
os seus cabelos ao vento...

Respiro fundo: é setembro.
Quem há de parar o tempo?




Fonte da imagem:
Niño em patinetes

sábado, setembro 24, 2011

CICLOS

























Tudo fenece no pátio de manobras.

O zinco ferruginoso dos autos abandonados
denuncia um mundo perecível;
Deu em nada o fundo eterno dos gregos
e o ser espinozano ainda persevera em ser.

Mas o orvalho
molha o asfalto
e escorre,
escuro e impune,
pela linha d’água.

Ainda resiste a physis,
em circ’los,
em ciclos.

Todos os raios giram sobre o eixo vazio.

Ísis ressurge,
montando sua bicicleta bela e azul.



Fonte da imagem:
Moça e bicicleta

domingo, setembro 18, 2011

O ARQUIVISTA





















O arquivista cofia os bigodes
na incerteza se pode,
na certeza que não pode
forjar aquilo que acode
ao seu instinto de ordem.
E sente na alma, fria,
a estranha melancolia
do anseio da simetria
que faz do caos harmonia.

O arquivista avalia
e seus bigodes cofia:
será a ordem doentia
e a métrica antipoesia?

Em ordem, Olavo escandia
e, pasmem, estrelas ouvia
naquela monotonia
ritmada, mas vazia,
mais parnaso que poesia.

E o arquivista debalde
procura a normalidade
que em seu cérebro havia;
como o herói de Cervantes,
surtado, avista gigantes
entre as estantes esguias...
(Que bela patologia!)



Fonte da imagem:
http://storage.mais.uol.com.br/357613.jpg?ver=1

segunda-feira, setembro 05, 2011

BRASA E MEL (renova-se a physis)

















A criança vê fundo e antes,
um mundo feito em relações desconcertantes.
Faz a eternidade,
agarra o instante,
consegue ver até, olhos ausentes,
o modo sutil,
em que do sono da brasa, latente,
brota o mel...

A criança é mãe do sonho,
sabe os secretos sentidos,
tem a ciência da fauna
e a presciência da flora.
Conhece o segredo antigo
que da pequena semente
faz surgir o baobá.

Os gregos chamavam physis
e os romanos, natura;
e a criança, sem dar nomes,
brinca com as coisas futuras;
desmonta o reino dos homens,
governa o reino do céu,
paira com Deus sobre as águas,
toma banho de chapéu.

A criança doma o medo,
rasga o finíssimo véu
sobre o sentido da Vida:
Só ela sabe o segredo,
o indizível segredo,
com que a brasa gera o mel.





**********************


Eurico
(de uma conversa no ateliê

do Eugênio Paxelly)
**********************


A foto é da minha sobrinha
Allana.

sexta-feira, setembro 02, 2011

FLOR DO NADA (ou, physis pra Mirze)


As coisas todas brotam de outras coisas...

As rosas,
surgem das rosas
Idéias
nascem de idéias.
Azaléias, flores simples,
surgem dentro de azaléias.
Tudo isso que nós vemos
vem à luz como aletéia,
desde que em seu ventre haja
um fundo idêntico a si mesmo...

Mas, um verso, flor de nada,
emerge espontaneamente,
disso oco e sem sentido
que existe dentro da gente.
Sua forma, (isso que lemos,
esse agora, esse presente),
é o fundo igual que aflora,
é o ser passando a ente.




Fonte da imagem:
http://bloguidonoleari.blogspot.com/2009_01_01_archive.html