Uma Epígrafe



"...Quanto à poesia, parece condenada a dizer apenas aqueles resíduos de paisagem, de memória e de sonho que a indústria cultural ainda não conseguiu manipular para vender."...[Alfredo Bosi, in O Ser e o Tempo da Poesia, p. 133]

quinta-feira, abril 14, 2011

Hino ao Vazio


























Se algum dia, ao guiares por uma avenida,
Peixes inesperados
pairarem por sobre tua cabeça
Se os edifícios, de repente, se tornarem bambuzais...
E sons de cristais liquefeitos
surgirem como estranhos algoritmos
Invadindo-te o labirinto...

Se, de súbito, sentires um frêmito
Em teu córtex cerebral
Se pequeninos filamentos piscarem em tuas órbitas
Se uma subitânea Andrômeda arremeter contra a Terra
Se sob teus pés sumir o chão...

Creias, já não és mais teu.

Canta, pois, ave fugaz,
Que estarás livre de ti.
Canta e dança como quem ouve Debussy.
Desliza por um tobogã de brumas.
Salta com os carneirinhos nas nuvens de algodão.
Já não és mais teu!

Todas as tuas posses
Teu cadastro de pessoa física
Teu veículo-passeio
Tua pertença e teu nome
Tudo que te fazia ser teu
Toda essa simbologia que te dava nexo
Nesse dia, já não será mais.
Já não serás.

Folga, pois, ave liberta,
Trinta raios rodeiam a roda
Mas só o vazio do eixo a faz rodar.
Rejubila-te!
Tu serás um vaso vazio.

Os entraves e os entreveros;
As avenças e as desavenças;
Tudo sumirá.
As coisas todas derreterão sob uma luz quântica.
Tudo avançará sereno para o nada.

Esvaziado serás livre.

E eterno.



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Reedição de poema antigo,
com especial dedicatória à amiga Rejane Martins

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Deixo para meditação dos leitores o Poema XI, do “Tao te King”,
tradução de Emmanuel Carneiro Leão:


Trinta raios rodeiam um eixo
mas é onde o raio não raia
que roda a roda.
Vaza-se a vasa e se faz o vaso.
Mas é o vazio
que perfaz a vasilha.
Casam-se as paredes e se encaixam portas
mas é onde não há nada
que se está em casa.
Falam-se palavras
e se apalavram falas,
mas é no silêncio
que mora a linguagem.
É o Ser que faz a utilidade.
Mas é o Nada que dá sentido.


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Encontrei no
Entre Textos a seguinte glosa do Rogel Samuel:

"Os raios seguram e convergem na roda, mas não a são. No vazio do vaso é onde encontramos a água, posta em vasilha. A roda roda no vazio dos seus raios, o vaso envasa no vazio de seu bojo, entre as paredes há o espaço de nossa casa, as palavras se costuram na linha do discurso, em continuidade: mas a linguagem não tem som, tem sentido, e o que é expresso se encontra no seu conteúdo – no vazio do vaso da fala, na poesia da linguagem, o seu silêncio."



Fonte Poema XI e da Glosa:

http://www.45graus.com.br/entre-textosp.php?id=24672

Fonte da imagem:
http://www.skyscrapercity.com/showthread.php?t=465768







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