Uma Epígrafe



"...Quanto à poesia, parece condenada a dizer apenas aqueles resíduos de paisagem, de memória e de sonho que a indústria cultural ainda não conseguiu manipular para vender."...[Alfredo Bosi, in O Ser e o Tempo da Poesia, p. 133]

quarta-feira, outubro 06, 2010

LIRISMO POLÍTICO (um pouco de ar puro)





Aos amigos virtuais ou não:

Cansei de eleições, mas não de política. Por isso aí vai mais uma charada lírica. Decifrem-na. É tão lugar-comum, que muitos olhos já não a percebem. Mas, lembrem-se: olhos de criança, por favor. rsrsrs


Capítulo XXI



E foi então que apareceu a raposa :

- Bom dia, disse a raposa.

- Bom dia, respondeu polidamente o príncipezinho, que se voltou, mas não viu nada.

- Eu estou aqui, disse a voz, debaixo da macieira...

- Quem és tu ? Perguntou o príncipezinho. Tu és bem bonita...

- Sou uma raposa, disse a raposa.

- Vem brincar comigo, propôs o príncipezinho. Estou tão triste...

- Eu não posso brincar contigo, disse a raposa. Não me cativaram ainda.

- Ah! Desculpa, disse o príncipezinho.

Após uma reflexão, acrescentou :

- Que quer dizer « cativar »?

- Tu não és daqui, disse a raposa. Que procuras ?

- Procuro os homens, disse o príncipezinho. Que quer dizer « cativar »?

- Os homens, disse a raposa, têm fuzis e caçam. É bem incômodo ! Criam galinhas também. É a única coisa interessante que eles fazem. Tu procuras galinhas ?

- Não, disse o príncipezinho. Eu procuro amigos. Que quer dizer « cativar »?

- É uma coisa muito esquecida, disse a raposa. Significa « criar laços... »

- Criar laços ?.

- Exatamente, disse a raposa. Tu não és ainda para mim senão um garoto inteiramente igual a cem mil outros garotos. E eu não tenho necessidade de ti. E tu não tens também necessidade de mim. Não passo a teus olhos de uma raposa igual a cem mil outras raposas. Mas, se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro. Serás para mim único no mundo. E eu serei para ti única no mundo...

- Começo a compreender, disse o príncipezinho. Existe uma flor... Eu creio que ela me cativou...



- É possível, disse a raposa. Vê-se tanta coisa na Terra...

- Oh! Não foi na Terra, disse o príncipezinho.

A raposa pareceu intrigada :

- Num outro planeta ?

- Sim.



- Há caçadores nesse planeta ?

- Não.

- Que bom ! E galinhas ?

- Também não.

- Nada é perfeito, suspirou a raposa.

Mas a raposa voltou à sua idéia.

- Minha vida é monótona. Eu caço as galinhas e os homens me caçam. Todas as galinhas se parecem e todos os homens se parecem também. E por isso eu me aborreço um pouco. Mas se tu me cativas, minha vida será como que cheia de sol. Conhecerei um barulho de passos que será diferente dos outros. Os outros passos me fazem entrar debaixo da terra. O teu me chamará para fora da toca, como se fosse música. E depois, olha! Vês, lá longe, os campos de trigo? Eu não como pão. O trigo para mim é inútil. Os campos de trigo não me lembram coisa alguma. E isso é triste! Mas tu tens cabelos cor de ouro. Então será maravilhoso quando me tiveres cativado. O trigo, que é dourado, fará lembrar-me de ti. E eu amarei o barulho do vento no trigo...

A raposa calou-se e considerou por muito tempo o príncipe :

- Por favor... Cativa-me! Disse ela.

- Bem quisera, disse o príncipezinho, mas eu não tenho muito tempo. Tenho amigos a descobrir e muitas coisas a conhecer.

- A gente só conhece bem as coisas que cativou, disse a raposa. Os homens não têm mais tempo de conhecer coisa alguma. Compram tudo prontinho nas lojas. Mas como não existem lojas de amigos, os homens não têm mais amigos. Se tu queres um amigo, cativa-me !

- Que é preciso fazer? Perguntou o príncipezinho.

- É preciso ser paciente, respondeu a raposa. Tu te sentarás primeiro um pouco longe de mim, assim, na relva. Eu te olharei com o canto do olho e tu não dirás nada. A linguagem é uma fonte de mal entendidos. Mas, cada dia, te sentará mais perto...

No dia seguinte o príncipezinho voltou.

- Teria sido melhor voltares à mesma hora, disse a raposa. Se tu vens, por exemplo, às quatro da tarde, desde as três eu começarei a ser feliz. Quanto mais a hora for chegando, mais eu me sentirei feliz. Às quatro horas, então, estarei inquieta a agitada: descobrirei o preço da felicidade! Mas se tu vens a qualquer momento, nunca saberei a hora de preparar o coração... É preciso ritos.

- Que é um rito ? Perguntou o príncipezinho.

- É uma coisa muito esquecida também, disse a raposa. É o que faz com que um dia seja diferente dos outros dias; uma hora, das outras horas. Os meus caçadores, por exemplo, possuem um rito. Dançam na quinta-feira com as moças da aldeia. A quinta-feira então é o dia maravilhoso! Vou passear até a vinha. Se os caçadores dançassem qualquer dia, os dias seriam todos iguais, e eu não teria férias !

Assim o príncipezinho cativou a raposa. Mas, quando chegou à hora da partida, a raposa disse :

- Ah ! Eu vou chorar.

- A culpa é tua, disse o príncipezinho, eu não te queria fazer mal; mas tu quiseste que eu te cativasse...

- Quis, disse a raposa.

- Mas tu vais chorar! Disse o príncipezinho.

- Vou, disse a raposa.



- Então, não sais lucrando nada !

- Eu lucro, disse a raposa, por causa da cor do trigo.

Depois ela acrescentou :

- Vai rever as rosas. Tu compreenderás que a tua é a única no mundo. Tu voltarás para me dizer adeus, e eu te farei presente de um segredo.

Foi o príncipezinho rever as rosas :

- Vós não sois absolutamente iguais a minha rosa, vós não sois nada ainda. Ninguém ainda vos cativou, nem cativastes a ninguém. Sois como era a minha raposa. Era uma raposa igual a cem mil outras. Mas eu fiz dela um amigo. Ela é agora única no mundo.

E as rosas estavam desapontadas.

- Sois belas, mas vazias, disse ele ainda: Não se pode morrer por vós. Minha rosa, sem dúvida um transeunte qualquer pensaria que se parece convosco. Ela sozinha é, porém mais importante que vós todas, pois foi a ela que eu reguei. Foi a ela que pus sob a redoma. Foi a ela que abriguei com o para vento. Foi dela que eu matei as larvas (exceto duas ou três por causa das borboletas). Foi a ela que eu escutei queixar-se ou gabar-se, ou mesmo calar-se algumas vezes. É a minha rosa.

E voltou, então, à raposa :

- Adeus, disse ele...

- Adeus, disse a raposa. Eis o meu segredo. É muito simples: só se vê bem com o coração. O essencial é invisível para os olhos.

O essencial é invisível para os olhos, repetiu o príncipezinho, a fim de se lembrar.

- Foi o tempo que perdeste com a tua rosa que fez tua rosa tão importante.

- Foi o tempo que eu perdi com a minha rosa... Repetiu o príncipezinho, a fim de se lembrar.

- Os homens esqueceram essa verdade, disse a raposa. Mas tu não a deves esquecer. Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas. Tu és responsável pela rosa...

- Eu sou responsável pela minha rosa... Repetiu o príncipezinho, a fim de se lembrar


MORAL:
Raposas, crianças e rosas vermelhas de todo o mundo, uni-vos!



FONTE DO TXT.:
O PEQUENO PRINCIPE ON LINE

13 comentários:

Anônimo disse...

Neste contexto, são dizeres que apontam para a responsabilidade social e política. Somos responsáveis por nossas escolhas, afinal nos foi dado o lívre-arbítrio.
Além disso, também fala o texto da necessidade do diálogo.
Gostei bastante da proposta de subjetividade.

lula eurico disse...

Pois é, Marcio,
o contexto é fundamental. Esse era o livro das misses, na década de 1970. A intenção foi essa que vc percebeu.
Há uma política nas coisas cotidianas, nas relações mais triviais.
Mas somos compelidos a pensar apenas nas grandes questões.
Estou cansado das grandes questões nacionais.
Cada lugar tem a sua própria questão nacional.
Modernidade, dizia Miguel Arraes, é abrir um poço no meio da seca.
E eu arremedo, pós-modernidade é cuidar para que esse poço tenha água potável.
Cuidar da água, como o Principezinho cuidava da sua rosa. Com o imperativo da paixão.
É isso, Marcio, amigo.
Isso é política.

Abç cordial.

Anônimo disse...

Gostei tb meu amigo!
Bjs.

lula eurico disse...

Abç, Fátima.
Muito obrigado, amiga.

Max Coutinho disse...

Oi Eurico :D!

Reconheci logo a imagem: li o Principezinho 3 vezes e ainda irei lê-lo mais vezes ainda. Saint-Exupéry sabia do que estava a falar: perscrutou a alma humana de forma tão singela e no entanto tão complexa, que se torna impossível não gostar da obra. Analisou bem a ética (e a falta dela). Amo o livro.

Eu adoro e vivo para a política, mas francamente também eu estou fatigada dos políticos (estão muito sem ética, e esquecem que a política existe para servir o povo e não ser servido por este).

Um abraço, meu irmão!

Paula Barros disse...

Pois, pois, amigo!

"Todas as galinhas se parecem e todos os homens se parecem também"

E me pergunto, como fazer escolhas, num mundo onde todos os políticos se parecem também? Onde o verde de hoje, será o vermelho de amanhã, que será amarelo...que os interesses pessoais são superiores ao coletivo...que a permanência no poder, que a negociação de cargos, que o salário altíssimo e os negócios por fora prevalecem no lugar da ética.

abraço!

Fábio disse...

Escolhas ..poxa a cada dia fica mais complicado.. legal teu espaço hein.. eu tb tenho um blog o Ecos, qdo e c der faz uma visitinha la www.ecosdotelecoteco.blogspot.com . Grande abraço

Luis Eustáquio Soares disse...

salve, eurico, que a biodiversidade unindo-se, num além e aquém das lutas de classes, de vez que passa a ser uma luta dos fluxos de vida contra a concentração do excedente vital-letal...salve que a biodiverdande bidiversificando é a únca entrada e saída de nossas bioalegrias.

poeta, como tinha dito a você antes, nunca vi marina como alternativa, ou ecoalternativa,pela opção dela, objetiva, de militar no partido verde, que de verde não tem mais nada, tão cacificado que está, inclusive por biopiratarias, a serviço da extrema direita. também não vinha marina se posicionando realmente a favor de uma sociedade ecossocialista, sem contar que só foi promovida pelos meios de comunicação para garantir um segundo turno pro fascismo neoliberal representado pelo psdb. a extrema direita sabe manipular os dados a seu favor. o risco do retnor do psdb ao poder é sim a pior tragédia ecológica que pode acontecer ao povo brasileiro, latinoamericano; aos povos do sul do planeta, pelo simpes fato de que o psdb está a serviso da rapinagem bélica americana, neoliberal. agora é militar pra evitar esse poluído e nefasto mal.
saudações
de la mancha

lula eurico disse...

Luís,
Não militemos em partidos, nem em pessoas, mas em idéias. Pessoas e partidos são falíveis. Pessoas podem fazer alianças espúrias. E isso gera o desencanto.
Mas militando nas idéias verdes, em ideais ecossolidários, não corremos riscos.
Quem diria que os sindicalistas de São Bernardo iriam estar no poder ao lado do PR e do PMDB?
Mas são a alternativa do momento, né?
Pois é.
Em sendo assim, e pelos avanços sociais conseguidos vamos com eles.
Mas sem demonizar os adversários.
Não vejo tanta diferença entre as candidaturas que ficaram pro segundo turno e o PV. As alianças deles são nefastas.

Não ponho minha mão no fogo por nenhum dos dois lados. Nunca vi tão neo-liberal qto a política pública de PPP's e UPAs.
Mas voto 13.
Não te preocupa, Mestre.

Anônimo disse...

Eu, tenho comigo a crença, de que pessoas podem se unir e transformar mundos!

Canto da Boca disse...

Lindo! Lindo! Sempre lindo! Por mais que o leia e releia, ele será sempre novo para mim, ainda que o tenha lido em seu original, em espanhol e em português. A escolha não poderia ser mais pertinente, caro Eurico!

Só podemos agora vermelhar!

Abração fraterno!!

carmen silvia presotto disse...

Eurico, que boa reflexão!... e parodiando a ti e ao que nos diz o Principezinho, sigamos tecendo diálogos e responsáveis por nossas palavras, um cativeiro rico a caminho da verdadeira liberdade.

Um beijo amigo!

Anônimo disse...

Feito a Walkyria, eu tenho comigo a crença, de que pessoas podem transformar mundos!