Uma Epígrafe



"...Quanto à poesia, parece condenada a dizer apenas aqueles resíduos de paisagem, de memória e de sonho que a indústria cultural ainda não conseguiu manipular para vender."...[Alfredo Bosi, in O Ser e o Tempo da Poesia, p. 133]

sexta-feira, novembro 02, 2007

A propósito do curta Cemitério da Memória

O homem da câmera
ou
não sorria, você não está sendo filmado
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Marcos Pimentel, autor do documentário Cemitério da Memória, dedica o seu trabalho ao cineasta russo Dziga Vertov. Assistam ao curta, clicando no link da barra lateral. Em seguida, leiam o texto abaixo e descubram as semelhanças entre os dois:
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DZIGA VERTOV
Denis Arkadievitch Kaufman
(Polônia - 1896 - União Soviética - 1954)


Muito jovem ainda, Vertov começa a escrever poemas e estuda música durante quatro anos. Com 19 anos, começa a estudar medicina, na mesma época em que cria o "laboratório do ouvido", onde registra e monta ruídos de todo o tipo, com um velho fonógrafo Pathéphone.
É também nesse período que muda seu nome para DZIGA - palavra ucraniana que significa roda que gira sem cessar e VERTOV - do russo vertet que significa rodar, girar. Também se declara futurista, muito influenciado por Maiakovski.

Após o discurso em que Lenin considera o cinema como o principal meio de divulgação da nova ordem social que se instala na União Soviética, Vertov se põe à disposição do Kino Komittet de Moscou (1918), tornando-se redator e montador do primeiro cine-jornal de atualidades do Estado Soviético - o KINONEDELIA (Cinema Semana).
Em 1922 cria, com sua mulher Svilova e seu irmão Mijail, o "Conselho dos Três", denominando-se kinoks - um composto das palavras russas kino (cine) e oko (olho). Começam a trabalhar no Kinopravda (Cinema verdade) e produzem 23 números dessas atualidades cinematográficas.
Em 1923, o grupo publica seu primeiro manifesto teórico com o título "A revolução dos kinoks"
Desse momento em diante Vertov desenvolve uma febril atividade, tanto prática, de realizações de documentários, quanto teóricas. Todos os seus experimentos com as imagens colhidas do real, são objeto de textos-manifestos, em que ele declara seus princípios das relações entre olho/câmera/realidade/montagem. Todos os seus experimentos cinematográficos baseiam-se no exercício exaustivo de construção da expressão, através da articulação desses quatro elementos.
Podemos resumir suas principais construções teóricas em três noções diferentes e complementares:
1. a montagem de registros (visuais e sonoros)
2. o cine - olho (kino-glaz)- um meio de registrar a vida, o movimento, os sons e organizá-los através da montagem.
3. a vida de improviso - rodada sem nenhum tipo de direção documental.

DZIGA VERTOV (fragmento de manifesto):

"Eu sou um cine-olho. Eu sou um construtor. Eu te coloquei num espaço extraordinário que não existia até este momento. Nesse espaço tem doze paredes que eu registrei em diversas partes do mundo. Justapondo a visão dessas paredes e alguns detalhes, consegui dispô-las numa ordem que te agrada e edifiquei, da forma adequada, sobre os intervalos, uma cine-frase que é, justamente, esse espaço. Eu, cine-olho, crio um homem muito mais perfeito que aquele que criou Adão, crio milhares de homens diferentes segundo desenhos distintos e esquemas pré-estabelecidos. Eu sou o cine-olho. Tomo os braços de um, mais fortes e hábeis, tomo as pernas de outro, melhor construídas e mais velozes, a cabeça de um terceiro, mais bonita e expressiva e, pela montagem, crio um homem novo, um homem perfeito."

Filmografia:

1918 - Kinonedelia -série
1919 - O aniversário da Revolução
1920 - A batalha de Tsaritsin
1922/25 - Kinopravda - série1926 - A sexta parte do mundo
1927/28 - O décimo primeiro ano
1929 - O homem da câmera
1934 - Três cânticos para Lenin (1)
1937 - Canção de ninar
1938 - Três heroinas
1941/44 - filmes reportagens rodados num refúgio na Ásia Central
1947 - O juramento dos jovens
1947/53 - noticiário de atualidades "Novidades do dia" - série

(1) Três cânticos para Lênin - toma como tema três canções populares inspiradas por Lênin. Mostra diversos aspectos da União Soviética, das regiões européias e asiáticas. É o filme em que Vertov pode por em prática com mais perfeição todas as teorias produzidas desde os anos 20, sobretudo acerca da montagem de imagens e sons. Vertov usa da melhor maneira, neste filme, materiais de arquivo, principalmente aqueles que registram as imagens e a voz de Lenin.

* Biofilmografia desenvolvida pela Profa. Dra. Marília Franco para a a disciplina DOCUMENTÁRIO (CTR 0662) ministrada na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo.** As biofilmografias podem ser constantemente atualizadas pelos visitantes com indicações de pesquisa, publicações, sites e textos publicados sobre o autor enfocado.

Fonte:
http://www.mnemocine.com.br/aruanda/vertov.htm

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