Uma Epígrafe



"...Quanto à poesia, parece condenada a dizer apenas aqueles resíduos de paisagem, de memória e de sonho que a indústria cultural ainda não conseguiu manipular para vender."...[Alfredo Bosi, in O Ser e o Tempo da Poesia, p. 133]

quarta-feira, maio 23, 2007

Ouvir galáxias? Perdi o senso!


Não gosto dele, do Olavo. Não é nada contra a forma fixa e metrificada dos versos parnasianos. O problema é outro: ele foi o a autor da lei que tornou obrigatório o serviço militar no Brasil. Servi no 14º RI e não gostei. rsrsrs
Mas, como bom Esferista, farei como o mestre Dom Eugenio Paxelly, o pai do Esferismo, nos orientava, e buscarei ver o lado bom desse poeta/deputado. Aliás, depois que o Belchior musicou o "ora (direis) ouvir estrelas! Certo perdeste o senso!" que tantas vezes ouvi, nas recorrentes e malfadadas ocasiões das perdas amorosas juvenis, fui levado a ler os sonetos que abaixo transcrevo, pirateado da net. Cito a fonte, é claro!
E vamos ao Olavo!

P.S.: a favor do Olavo temos os bons poemas neo-parnasianos do Bandeira e do Vinicius, embora eu prefira, questão de gosto, o Drummond e o João Cabral.



VIA-LÁCTEA
Olavo Bilac

(fragmento)



XIII

“Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!” E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto...

E conversamos toda a noite, enquanto
A via-láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.

Direis agora: “Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?”

E eu vos direi:”Amai para entende-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas”.




XXVII

Ontem – néscio que fui! - maliciosa
Disse uma estrela, a rir, na imensa altura:
“Amigo! uma de nós, a mais formosa
De todas nós, a mais formosa e pura,

Faz anos amanhã... Vamos! procura
A rima de ouro mais brilhante, a rosa
De cor mais viva e de maior frescura!”
E eu murmurei comigo: “Mentirosa!”

E segui. Pois tão cego fui por elas,
Que, enfim, curado pelos seus enganos,
Já não creio em nenhuma das estrelas...

E – mal de mim! – eis-me, a teus pés, em pranto...
Olha: se nada fiz para os teus anos,
Culpa as tuas irmãs que enganam tanto!


XXXV

Pouco me pesa que mofeis sorrindo
Destes versos puríssimos e santos:
Porque, nisto de amor e íntimos prantos,
Dos louvores do público prescindo.

Homens de bronze! um haverá, de tantos,
(Talvez um só) que, esta paixão sentindo,
Aqui demore o olhar, vendo e medindo
O alcance e o sentimento destes cantos.

Será esse o meu público. E, decerto,
Esse dirá: “Pode viver tranqüilo
Quem assim ama, sendo assim amado!”

E, trêmulo, de lágrimas coberto,
Há de estimar quem lhe contou aquilo
Que nunca ouviu com tanto ardor contado.


Fonte:
BILAC, Olavo. Antologia : Poesias. São Paulo : Martin Claret, 2002. p. 37-55 : Via-Láctea. (Coleção a obra-prima de cada autor).

Texto proveniente de:
A Biblioteca Virtual do Estudante Brasileiro
A Escola do Futuro da Universidade de São Paulo
Permitido o uso apenas para fins educacionais.

Texto-base digitalizado por:
Anamaria Grunfeld Villaça Koch – São Paulo/SP

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Eurico
23 de maio de 2007
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