Uma Epígrafe



"...Quanto à poesia, parece condenada a dizer apenas aqueles resíduos de paisagem, de memória e de sonho que a indústria cultural ainda não conseguiu manipular para vender."...[Alfredo Bosi, in O Ser e o Tempo da Poesia, p. 133]

quinta-feira, janeiro 23, 2014

CARNAVAL DO RECIFE - a Dança, a Música, a Língua (1)


Título: "Último pano do Cortejo Triunfal: Folias, Danças e Folgazões". 
Tapeçarias de D. João de Castro. Lisboa: Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses/Museu Nacional de Arte Antiga, 1995. Agradecimentos à Dra. Ana Balmori, que primeiramente estudou os motivos musicais dessa fonte e que possibilitou a sua consideração nas sessões de Lagos e Coimbra.

 
O modo português de festejar está bem descrito em antiga crônica de João de Barros, ao tratar da espetacular partida da frota de Pedro Álvares Cabral, em 1500:

"A qual despedida, geralmente a todos, foi de grande contemplação, porque a maior parte do povo de Lisboa, por ser dia de festa e mais tão celebrada por El-rei, cobria aquelas praias e campos de Belém, e muitos em bateis, que rodeavam as naus, levando uns, trazendo outros, assim serviam todos com suas librés e bandeiras de cores diversas, que não parecia mar, mas um campo de flores, com a frol daquela mancebia juvenil que embarcava. E o que mais levantava o espírito destas coisas, eram as trombetas, atabaques, sestros, tambores, flautas, pandeiros, e até gaitas, cuja ventura foi andar em os campos no apascentar dos gados, naquele dia tomaram posse de ir sobre as águas salgadas do mar, nesta e outras armadas, que depois a seguiram, porque, para viagem de tanto tempo, tudo os homens buscavam para tirar a tristeza do mar."
(João de Barros, apud HOMO LUDENS NA ÉPOCA DAS DESCOBERTAS, Profa. Dra. Maria Augusta Alves Barbosa, Conferência em Coimbra, 1995)

Sem embargo da violenta cobiça que motivava as “grandes navegações”, as novas colônias conquistadas logo iriam conhecer o lado festeiro desse povo, que, para afugentar o tédio daquelas longas viagens, portavam instrumentos musicais, do mesmo modo pelo qual, nos dias atuais, trazemos, por exemplo, um DVD portátil, em nossas viagens cotidianas. Foi assim que esses navegantes nos trouxeram sua dança e sua música, em folguedos que até hoje costumam alegrar os nossos tristes tropiques.
Prova de que esses instrumentos pastoris cruzaram o Atlântico está na Carta de Pero Vaz de Caminha, pela qual se descreve a D. Manuel, o "descobrimento" do Brasil. Relata o famoso escrivão que, depois da missa de Páscoa, tendo em vista os costumeiros folguedos da época, um gracioso marinheiro executa saltos reais ao som de uma gaita e participa das danças dos aborígenes. Esse encontro musical, segundo Caminha, foi motivo de muita alegria:

"(...) passou-se então além do rio Diogo Dias, que veio de Sacavém e que é homem gracioso e de prazer; e levou consigo hum gaiteiro nosso com uma gaita e meteu-se com eles a dançar tomando-os pelas mãos e eles folgavam e riam e andavam com ele muito bem ao som da gaita. Depois de dançarem fez-lhes ali andando no chão muitas voltas ligeiras e salto real de que se espantavam e riam e folgavam muito."
(Carta de Pero Vaz de Caminha a El-Rei Dom Manuel)

Diogo Dias, pois, era o nome de nosso primeiro brincante. Na nova terra, desde a primeira páscoa, já se dançava a nossa ciranda-de-praia. Nos dias de hoje, quem viajar pelo Brasil encontrará, de norte a sul, essa herança musical e coreográfica dos lusos: haja marujada, folia de reis, pastoris, serenatas e... o entrudo...
Ah, o entrudo! Esse milenar folguedo é o que mais me encanta. Mormente, na merencória folia dos seresteiros de pau e corda, os chamados blocos carnavalescos líricos.
Esses harmoniosos blocos líricos, bastiões do carnaval do Recife, evocam e preservam não só o modo português de festejar, seus folguedos e danças de celebração, mas guardam as profundas nuanças líricas, entranhadas na alma dessa Língua que também veio com as caravelas.

Revisitando, (como sempre faço, nesses dias que antecedem a folia), as composições de antigos blocos recifenses, reencontro essas canções dolentes, perpassadas de uma triste alegria, de uma saudade calcada em algo não-vivido, e que, além disso, primam por letras vazadas em bom vernáculo, de onde vem o puro olor, o cheiro bom, o aroma dessa última flor neolatina, em poesias pejadas do lirismo e da ternura da velha e boa língua-mátria.

Sobre isso, vale a pena citar Gilberto de Mello Kujawski, in "Fernando Pessoa, O Outro", quando afirma que "o dizer português é sempre vizinho da efusão lírica, pronto a vibrar em toda a escala de íntimas lamentações e exultações, de secretos cuidados e enternecimentos próprios às fundas confidências."

Todavia, não é só esse aspecto que deve ser revisitado nos blocos líricos.
Atentem bem para a semelhança desses brincantes recifenses com as danças pastoris, com os cortejos órficos das festas quase-pagãs que aconteciam nas afastadas vilas campesinas da Luzitânia, e até mesmo nos átrios engalanados, nos velhos paços da corte portuguesa, essas danças profanas que estão implícitas na citação de João de Barros, transcrita acima. O Recife é uma cidade profundamente ibérica. E nossas danças, músicas e folguedos guardam a semelhança daqueles costumes lusos.

Regressemos, agora, a esse longínquo pretérito, acompanhando as palavras de um dançar dionisíaco, que nos chegaram através do léxico arcaico de outro cronista-narrador: Fernão Lopes.
Deitem os vossos olhos sobre esses vetustos vocábulos que abaixo vos apresento; soprem-lhes os fonemas e deixem emergir do inconsciente os albores do efusivo lirismo dessa Língua Portuguesa, em essa prosódia, “alongada e ondulante; com ondulações que se perdem ao longe" e, decerto, encontrarão as origens avoengas dos cortejos musicais de nossos blocos carnavalíricos:

Viinha elRei em batees Dalmada pera Lixboa, e saiam-no a reçeber os cidadãaos e todollos dos mesteres com danças e trebelhos, segumdo estomçe husavom; e el saia dos batees, e metiasse na dança com elles, e assi hia ataa o paaço. Paraae mentes se foi boom sabor: jazia elRei em Lixboa huuma noite na cama, e non lhe viinha sono pera dormir e fez levamtar os moços e quamtos dormiam no paaço, e mandou chamar Joham Mateus, e Lourenço Pallos que trouvesem as trombas de prata, e fez açemder tochas, e meteosse pela villa em damça com os outros; as gentes que dormiam, sahiam aas janelas, veer que festa era aquella, ou porque se fazia; e quando virom daquella guisa elRei tomarom prazer de o ver assi ledo; e amdou elRei assi gram parte da noite, e tornousse ao paaço em damça; e pedio vinho e fruita, e lançouse a dormir. (Crónica de D. Pedro I, Barcelos - 1932, pp 42-43, apud FERNANDO PESSOA, O Outro, G. M. Kujawski, pp. 25,26)





Evoé, Flores do Capibaribe!
Carnaval chegou!






















Eurico
blogador e folião. **********************************************************************
Ilustração e algumas citações:
http://www.academia.brasil-europa.eu/Materiais-abe-73.htm

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Frevo de Saudade - Aldemar Paiva - (Coral do Bloco da Saudade)

Obs.:
Como é difícil encontrar a genuína música pernambucana na internet!
Carecemos pintar nossa aldeia, se quisermos ser universais, como aconselhava Leon Tolstoi.

Achei mais uma:
Último Regresso - Getúlio Cavalcanti - (Coral do Bloco da Saudade)



E mais essa:
Sabe lá o que é isso, de João Santiago.
(Hino dos Batutas de São José e dos casais enamorados)

sexta-feira, janeiro 17, 2014

VIRA-LATAS DO CARNAVAL - Marcelo D2 abre o carnaval do Recife


Ir à Lisboa, sem ouvir um bom fado? Visitar os hermanos em Buenos Aires, sem ouvir e ver dançar o velho tango argentino? Madri, sem as touradas? (essas eu até dispensaria...) Quem atravessaria o oceano pra ouvir o que já se escuta todo dia por aqui? Quem vai ver o que é que a Bahia tem, abrindo mão de ouvir os timbales, os afoxés e até o axé music. Claro que ninguém vai a Salvador buscando ouvir o techno-brega do norte, nem o carimbó, do Pará, ou o reggae do Maranhão! Para ouvir Pinduca iremos mesmo pro Norte, ora essa! 
Pois é... 
Mas, no Recife, uns burrocratas da prefeitura, querem mudar o curso das coisas e dizem que o frevo está ultrapassado, que os blocos líricos são saudosistas e outras asneiras do tipo. Ninguém aguenta mais isso! Senhores, o fado em Portugal vem de tempos imemoriais, ai mouraria... E é pensando em ouvir um fado, seja da Amália Rodrigues ou da Mariza, que o turista vai a Lisboa. Digam aos fadistas que eles estão ultrapassados... Ora bolas! Senhores gestores, na velha Olinda, o que lota as ruas, as hospedarias, os hotéis e as casas de aluguel é o frevo da Ceroulas, o "pampampampam - pam pam pam" das pequenas orquestras de rua, os eternos bonecos gigantes, que sempre estão lá, ladeira acima, ladeira abaixo, e jamais irão deixar de estar. 
Burros ou com escusos interesses, os gestores do carnaval recifense? Nada contra Marcelo D2, mas por que não Silvério Pessoa, Gerlane Lops, Almir Rouche e outros bons artistas da terra? Entra Prefeito e sai Prefeito e isso não muda! Até quando vamos reclamar desse descalabro! Queremos no Recife, a cultura do recifense, como há o samba no Rio, e o Boi Bumbá, no Amazonas. O que é que há, senhores gestores. Complexo de vira-latas? Apesar de vocês, amanhã há de ser outro dia... 

sábado, dezembro 14, 2013

A ARANHA (poemeto chinês)

 

A aranha urde a teia
porque vive
A aranha urde a teia pra viver
Urdir a teia é ser aranha
e o ser da aranha é o tecer...



Eurico
04/04/1994
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segunda-feira, dezembro 02, 2013

CARTAS A UM JOVEM POETA

(Primeira carta)
Rainer Maria Rilke

 Paris, 17 de fevereiro de 1903

 Prezadíssimo Senhor,

 Sua carta alcançou-me apenas há poucos dias. Quero agradecer-lhe a grande e amável confiança. Pouco mais posso fazer. Não posso entrar em considerações acerca da feição de seus versos, pois sou alheio a toda e qualquer intenção crítica. Não há nada menos apropriado para tocar numa obra de arte do que palavras de crítica, que sempre resultam em mal-entendidos mais ou menos felizes. As coisas estão longe de ser todas tão tangíveis e dizívies quanto se nos pretenderia fazer crer; a maior parte dos acontecimentos é inexprimível e ocorre num espaço em que nenhuma palavra nunca pisou. Menos suscetíveis de expressão do que qualquer outra coisa são as obras de arte, — seres misteriosos cuja vida perdura, ao lado da nossa, efêmera. Depois de feito este reparo, dir-lhe-ei ainda que seus versos não possuem feição própria, somente acenos discretos e velados de personalidade. É o que sinto com a maior clareza no último poema Minha alma. Aí, algo de peculiar procura expressão e forma. No belo poema A Leopardi talvez uma espécie de parentesco com esse grande solitário esteja apontando. No entanto, as poesias nada têm ainda de próprio e de independente, nem mesmo a última, nem mesmo a dirigida a Leopardi. Sua amável carta que as acompanha não deixou de me explicar certa insuficiência que senti ao ler seus versos sem que a pudesse definir explicitamente. Pergunta se os seus versos são bons. Pergunta-o a mim, depois de o ter perguntado a outras pessoas. Manda-os a periódicos, compara-os com outras poesias e inquieta-se quando suas tentativas são recusadas por um ou outro redator. Pois bem — usando da licença que me deu de aconselhá-lo — peço-lhe que deixe tudo isso. O senhor está olhando para fora, e é justamente o que menos deveria fazer neste momento. Ninguém o pode aconselhar ou ajudar, — ninguém. Não há senão um caminho. Procure entrar em si mesmo. Investigue o motivo que o manda escrever; examine se estende suas raízes pelos recantos mais profundos de sua alma; confesse a si mesmo: morreria, se lhe fosse vedado escrever? Isto acima de tudo: pergunte a si mesmo na hora mais tranqüila de sua noite: "Sou mesmo forçado a escrever?” Escave dentro de si uma resposta profunda. Se for afirmativa, se puder contestar àquela pergunta severa por um forte e simples "sou", então construa a sua vida de acordo com esta necessidade. Sua vida, até em sua hora mais indiferente e anódina, deverá tornar-se o sinal e o testemunho de tal pressão. Aproxime-se então da natureza. Depois procure, como se fosse o primeiro homem, dizer o que vê, vive, ama e perde. Não escreva poesias de amor. Evite de início as formas usais e demasiado comuns: são essas as mais difíceis, pois precisa-se de uma força grande e amadurecida para se produzir algo de pessoal num domínio em que sobram tradições boas, algumas brilhantes. Eis por que deve fugir dos motivos gerais para aqueles que a sua própria existência cotidiana lhe oferece; relate suas mágoas e seus desejos, seus pensamentos passageiros, sua fé em qualquer beleza — relate tudo isto com íntima e humilde sinceridade. Utilize, para se exprimir, as coisas do seu ambiente, as imagens dos seus sonhos e os objetos de sua lembrança. Se a própria existência cotidiana lhe parecer pobre, não a acuse. Acuse a si mesmo, diga consigo que não é bastante poeta para extrair as suas riquezas. Para o criador, com efeito, não há pobreza nem lugar mesquinho e indiferente. Mesmo que se encontrasse numa prisão, cujas paredes impedissem todos os ruídos do mundo de chegar aos seus ouvidos, não lhe ficaria sempre sua infância, esta esplêndida e régia riqueza, esse tesouro de recordações? Volte a atenção para ela. Procure soerguer as sensações submersas deste longínquo passado: sua personalidade há de reforçar-se, sua solidão há de alargar-se e transformar-se numa habitação entre o lusco e fusco diante do qual o ruído dos outros passa longe, sem nela penetrar. Se depois desta volta para dentro, deste ensimesmar-se, brotarem versos, não mais pensará em perguntar seja a quem for se são bons. Nem tão pouco tentará interessar as revistas por esses seus trabalhos, pois há de ver neles sua querida propriedade natural, um pedaço e uma voz de sua vida. Uma obra de arte é boa quando nasceu por necessidade. Neste caráter de origem está o seu critério, — o único existente. Também, meu prezado Senhor, não lhe posso dar outro conselho fora deste: entrar em si e examinar as profundidades de onde jorra sua vida; na fonte desta é que encontrará resposta à questão de saber se deve criar. Aceite-a tal como se lhe apresentar à primeira vista sem procurar interpretá-la. Talvez venha significar que o Senhor é chamado a ser um artista. Nesse caso aceite o destino e carregue-o com seu peso e a sua grandeza, sem nunca se preocupar com recompensa que possa vir de fora. O criador, com efeito, deve ser um mundo para si mesmo e encontrar tudo em si e nessa natureza a que se aliou. Mas talvez se dê o caso de, após essa decida em si mesmo e em seu âmago solitário, ter o Senhor de renunciar a se tornar poeta. (Basta como já disse, sentir que se poderia viver sem escrever para não mais se ter o direito de fazê-lo). Mesmo assim, o exame de sua consciência que lhe peço não terá sido inútil. Sua vida, a partir desse momento, há de encontrar caminhos próprios. Que sejam bons, ricos e largos é o que lhe desejo, muito mais do que lhe posso exprimir. Que mais lhe devo dizer? Parece-me que tudo foi acentuado segundo convinha. Afinal de contas, queria apenas sugerir-lhe que se deixasse chegar com discrição e gravidade ao termo de sua evolução. Nada a poderia perturbar mais do que olhar para fora e aguardar de fora respostas a perguntas a que talvez somente seu sentimento mais íntimo possa responder na hora mais silenciosa. Foi com alegria que encontrei em sua carta o nome do professor Horacek; guardo por este amável sábio uma grande estima e uma gratidão que desafia os anos. Fale-lhe, por favor, neste meu sentimento. É bondade dele lembrar-se ainda de mim; e eu sei apreciá-la. Restituo-lhe ao mesmo tempo os versos que me veio confiar amigavelmente. Agradeço-lhe mais uma vez a grandeza e a cordialidade de sua confiança. Procurei por meio desta resposta sincera, feita o melhor que pude, tornar-me um pouco mais digno dela do que realmente sou, em minha qualidade de estranho.
Com todo o devotamento e toda a simpatia,
Rainer Maria Rilke

 Rainer Maria Rilke nasceu em Praga no dia 4 de dezembro de 1875. Depois de viver uma infância solitária e cheia de conflitos emocionais, estudou nas universidades de Praga, Munique e Berlim. Suas primeiras obras publicadas foram poemas de amor, intitulados Vida e canções (1894). Em 1897, Rilke conheceu Lou Andreas-Salomé, a filha de um general russo, e dois anos depois viajava com ela para seu país natal. Inspirado pelas dimensões e pela beleza da paisagem como também pela profundidade espiritual das pessoas que conheceu, Rilke passou a acreditar que Deus estava presente em todas as coisas. Estes sentimentos encontraram expressão poética em Histórias do bom Deus (1900). Depois de 1900, Rilke eliminou de sua poesia o lirismo vago que em parte lhe haviam inspirado os simbolistas franceses, e, em seu lugar, adotou um estilo preciso e concreto, que podemos perceber em O livro das horas (1905), que consta de três partes: O livro da vida monástica, O livro da peregrinação e O livro da pobreza e da morte. Esta obra o consolidou como um grande poeta por sua variedade e riqueza de metáforas, e por suas reflexões um pouco místicas sobre as coisas. Em Paris, em 1902, Rilke conheceu o escultor Auguste Rodin e foi seu secretário de 1905 a 1906. Rodin ensinou o poeta a contemplar a obra de arte como uma atividade religiosa e a fazer versos tão consistentes e completos como se fossem esculturas. Os poemas deste período apareceram em Novos poemas (2 volumes, 1907-1908). Até o início da I Guerra Mundial, o autor viveu em Paris de onde realizou viagens pela Europa e pelo norte da África. De 1910 a 1912 viveu no castelo de Duíno, próximo a Trieste (agora na Itália), e ali escreveu os poemas que formam A vida de Maria (1913). Logo após iniciou a primeira redação das Elegias de Duíno (1923), obra esta em que já se percebe uma certa aproximação dos conceitos filosóficos existenciais de Soren Kierkegaard. Em sua obra em prosa mais importante, Os cadernos de Malte Laurids Brigge (1910), novela iniciada em Roma no ano de 1904, empregou imagens corrosivas para transmitir as reações que a vida em Paris provocava em um jovem escritor muito parecido com ele mesmo. Residiu em Munique durante quase toda a I Guerra Mundial e em 1919 mudou-se para Sierra (Suíça), onde se estabeleceu para o resto de sua vida, salvo algumas visitas ocasionais a Paris e Veneza, concluindo as Elegias de Duíno e escreveu Sonetos a Orfeu (1923). Estas obra são consideradas as mais importantes de sua produção poética. As Elegias representam a morte como uma transformação da vida e uma realidade interior que, junto com a vida, foram uma coisa única. A maioria dos sonetos cantam a vida e a morte como uma experiência cósmica. Rilke morreu no dia 29 de dezembro de 1926 em Valmont (Suíça). Sua obra, com seu hermetismo, solidão e ociosidade, chegou a um profundo existencialismo e influenciou os escritores dos anos cinqüenta tanto na Europa como na América. Texto extraído do livro "Cartas a um jovem poeta", tradução de Paulo Rónai, Editora Globo – Rio de Janeiro, 1995.

domingo, dezembro 01, 2013

MERCADO DE SÃO JOSÉ



(um itinerário impressionista, com Debussy)


Flores, flores, flores!
Buquês de flores,
Róseas, lácteas,
rubras, violáceas.
Baldes com flores,
ramalhetes empilhados,
laços de fita e as mãos hábeis
da florista, embalando uma corbeille.

Rua Estreita do Rosário,
Direita e do Livramento,
apinhadas de feirantes.
Mais em frente,
eis o Mercado
do bairro de São José,
com sua armação de ferro,
trazida pelos ingleses,
e a multidão de barracas,
nesses becos labirínticos,
barracas, gente, barracas,
panelas dependuradas, pencas delas!
Cachos brilhantes de garfos, de colheres,
caçarolas, frigideiras, caldeirões.
Um leão vermelho e azul
ruge, com o dorso colado
na bacia de alumínio.
Pingentes, penduricalhos,
que quase nos batem à testa:
grelhas de pão, abridores
de lata, tábuas de carne,
pilões de bater cominho.
Caminho entre os tabuleiros,
quiosques de calças jeans,
chinelos, brim, alpercatas,
sombrinhas, chapéus, coleiras
cordas, correntes pra cães,
ferragens, fumo de rolo;
De repente, explode um mundo
de cores em degradê
amarelo, nos meus olhos:
melões, cajás, mexericas,
cajus, bananas, pitombas.
O marrom dos sapotis;
Umbus e verdes caquis,
até pêra encontro aqui.
O vermelhão das maçãs.
Às vezes, até romãs.
E o branco das tapiocas
da preta velha sentada,
sob o arco do mercado.
É essa a loja! Encontrei!
BANHOS-OFERENDAS-ERVAS,
Um bazar religioso.
Estatuetas dos santos,
dos caboclos, dos eguns.
Seres de um mundo impalpável.
Empório de elementais,
farmacopéia esotérica,
de uma medicina mágica:

Tem semicúpio aromático?
Semi-o-quê?
Tem não, dotô!
Banho-de-ervas, dá no mesmo.
Ah, isso eu tenho!

Sinhá Nana crê nessas coisas.
Não descreio totalmente.
Como não crer, se nas ruas
desse Recife volátil
cruzam comigo ciganas,
yabás-malabaristas,
balconistas-iorubás,
pretos-velhos-motoristas,
garçonetes-pomba-gira,
donas-de-casa-bantus.

Salve a sincrética fé:
malungo, nagô, malê,
rastafari, quilombolas.
filhos do Congo e d’Angola.

Vendedores de sapatos?
Camelôs?
É muito pouco!

Nós somos é a realeza.
Reis e rainhas da coorte
de um imenso maracatu.
Canta a nação Pernambuco,
por trás de pentes ,agulhas
retrós-de-linha, bonés.


Alarga-se esse cenário.
Tem fendas o imaginário,
no lado escuro da mente
Sinhá Nana crê, piamente,
na mente. A força da mente
que fez um dia um carrasco
de cor negra, homem de brios,
negar-se ao enforcamento
do heróico Frei Joaquim
do Amor Divino Caneca.
Havia uma força telúrica
na mente daquele algoz.
Um gesto, um rápido gesto
de mão e ele passaria
anônimo. Nem estaria
nesses versos. E só seria
um carrasco, apenas isso.
Mas esse negro era o povo.
E tinha os medos do povo.
Fez a vontade do povo,
(quem se atreve a matar padre,
a não ser a ditadura?)
o algoz, e mesmo sem nome,
ficou na história do povo,
Povo mascate que vende,
nas ruas, quinquilharias.
Que canta com pandeirinhos
ciganos, no pastoril;
Que dança as danças de África
e o toque dos caboclinhos.
Sinhá Nana, é dama do paaço
na sexta-feira encantada.
Os garis são da embaixada
da Irmandade de Homens Pretos.
Pipoqueiros são ogãs,
e vêm tocar no Rosário.
E eu, sustentando o pálio,
sou serviçal da cabeça
daquela preta agachada,
sob o arco do mercado.
De dia, ela faz tapiocas,
de noite é a bela rainha
de um Recife imaginário.

Eis nossa mãe!
Bença, mãe!


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Para ouvir Mouvement, de Debussy, enquanto lê, clique:
                                       

Com os meus agradecimentos a Rejane, regente de realejos
e guardiã de pérolas, do blog REJANEANDO,   pelos links de Debussy.


Fonte da imagem:


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segunda-feira, novembro 25, 2013

SALMO SERTÂNICO ( de cabras e de nuvens)


SAGRADO
E. B. Brito



















Cruzo esses mundos sertânicos
que me habitam o âmago,
a escalar pedras e montes,
pisando a vegetação rasteira e outras palavras miúdas...

Nas costas, um matulão de incertezas,
de inquirições agnósticas,
perguntas tantas vezes repetidas,
sob o Sol desses desertos...

Carrego a minha Dúvida,
mas não, meu ateísmo.

Saibam todos que Deus, nessas léguas perdidas,
é uma necessidade vital.
É como o ar fresco e úmido, que leva as cabras
sempre mais alto, nesses montes desertos.
Deus está nas nuvens mais densas
e umedece o nariz dos caprinos...
Nesses sertões,
busca-se Deus, com olhos de cabra sedenta.
Os olhos dos viajores bramam por Deus.
Assim são os olhos da alma.
Alma?
Sim, isso, que nos faz ter gana de viver.
Isso, em que flui, instintiva, a lei natural da sobrevivência.
Esse vapor d'água,
que brilha nos olhos dos rebanhos assustados;

Essa nuvem cor de chumbo sobre a caatinga, está prenhe de Deus,
O mesmo Deus de Baruch Spinoza, encobre os céus dos sertões.
O Deus que de repente desabará, pluvial, sobre essa Dúvida
e encharcará a chã sequiosa dessa caminhada.

Deus, nessas léguas sertânicas, é essa necessidade radical,
no âmago estremecido da vida.

Subo este monte, carregando a minha sede,
e alço meus olhos aos céus cinzentos.

Sopra, invisível, um vento umedecido.
Sinto o sagrado em minhas narinas...


Eurico, sertânico
(bramando, "como o cervo, pelas correntes das águas...")

Com humilde dedicatória a Elomar, imenso criador de cabras, palavras e canções.

Fonte da imagem:
Cabras sertanejas

Poemeto para Allana



Olhas sem medo, pequenina,
pra essa porta do futuro,
por mais que o tempo esteja escuro
Olhas sem medo...

Sou adulto e o medo me domina,
pois não pude evitar os teus apuros;
e se me olhares, assim, menina,
verás que choro e te procuro...

De Eurico
(um tio preocupado)
***
para Dayse e Allana
(duas meninas perdidas)
*********
A foto é de Paulinha Barros
feita durante o Baile do Menino Deus,
Recife Antigo - Dez/2008
Que o Menino Santo proteja as minhas meninas,
lá pelas bandas de Olinda!

domingo, outubro 20, 2013

VÁRZEATOWN

Oficina de Francisco Brennand
Várzea-Recife-PE


Várzeabeat.
 Várzeacult.
 Várzeatown.
Várzea hippie.
 Várzea nerd.
Várzea geek.
Várzea soundcloud.
Várzea Krishna.
Várzea Cristo.
Várzea atéia.
Várzea à-toa.
Várzea transcendental.
Várzea yuppie.
Várzea rap.
Várzea hip hop.
Várzea reggae.
Várzea trash;
Várzea heavy metal
Várzea choro.
 Várzea samba.
Várzea blues e jazz.
Várzea lírica.
Várzea sub/urbana.
Várzea rural.
Várzea afoxé.
Várzea côco.
Várzea ciranda.
Várzea maracatu rural.
Várzea candomblé.
Várzea gospel.
Várzea umbanda.
Várzea pop.
Várzea engenho.
 Várzea usina. 
Várzea tropical. 
Várzea movie. 
Várzea groovie. 
Várzea underground.
Várzea gente em movimento. 
 Várzea cult/rural.
Várzea volks. 
Várzea umwelt. 
Várzea fusca. 
Várzea popular.
Várzea tudo. 
Várzea totens. 
Várzea total.


Lula Eurico
20/10/2013

sexta-feira, outubro 11, 2013

Pequena Fauna Poética



-->

Quando eu-menino ouvia
os lobos da ventania
soprando ovelhas nas nuvens.
Meu coração disparava
(me dava um medo esquisito,
seria isso um meu mito?)
e eu me abraçava, eu-menino,
a um vira-latas mofino,
que nem eu era, também,
franzino e desamparado.
E eu lhe dizia ao ouvido:
(não tenha medo, Bandit,
mamãe foi ali, na feira,
papai já vem do trabalho).

*
Quando eu estava inquieto
me acalmavam lebristas
que nadavam em garrafas
translúcidas, ornamentais.
Ornamentais, os meus saltos
de pontes imaginárias,
a mergulhar nesse rio,
heraclitiano rio,
que não parava, e não pára...

*
Por esse tempo ainda
me andava a alma contrita
com as sensações de meu corpo:
um tio meu criava porcos
e eu os via javalis;
Minha avó bordava rendas.
Trago os bilros dentro em mim,
e costuro pelo avesso
isso que ledes aqui.
Meu avô me dava livros:
Lobato, Andersen, Grimm.
Onde os trago?
E eu lá sei!

*
Mas emoções são perigos:
um dia quase me mato,
(se não fosse a borboleta,
a cochilar no casulo,
que me chamou a atenção...)
quase que, pássaro, pulo,
em queda livre e ligeira
do alto da pitombeira.
Mas não sabia voar.
Dançar? Dançar eu sabia,
essa dança ligeirinha
(umbigadas/rock and roll)
dos bodes nas cabritinhas,
bicho-do-mato que sou.

*
Vou lhes contar um segredo
há muito tempo guardado:
as emoções são crianças,
aprendem fácil a brincar
e gestam lendas e mitos
(que lhes sopram anjos bonitos)
de lobos, nuvens, cabritos.
Esses ditos viram escritos
que gente velha e sisuda
vai seu mistério estudar...

Se isso é poesia?
E eu sei lá!
*


Eurico

poema sem data

*A imagem é um esboço em papel de seda
para um óleo sobre tela de autoria
de meu saudoso avô Luiz Eurico de Melo

segunda-feira, setembro 30, 2013

TAMBORES


CRONOS
Emanuel Brito






















Dançar nas ruas
E celebrar as horas,
A par da própria fragilidade.
Dançar,
Afrontando, airosamente, o Inelutável.

Às ruas com os tambores!
Bumbar!
Um golpe vigoroso a Cronos;
Outro, mais abafado, ao nexo.
Dançar com alegria, em fado incerto.

Assim, dançar nas ruas, impunemente,
Sem nenhuma inocência ou temor.
Acaso estaríamos protegidos da fugacidade,
Dentro de nossas cascas,
Com as nossas cabeças cobertas por véus?

Às ruas com os tambores!
Bumbar!
Um golpe vigoroso a Cronos;
Outro, mais abafado, ao nexo.
Dancemos, com alegria, ao fado incerto.




Fonte da imagem:






Ainda sob o efeito salutar das alfaias, dos pandeiros e de todos os sons da cultura varzeana, que, nesses últimos dias, envolvida com as festas da paróquia, enchem as nossas noites de alegria!