Uma Epígrafe



"...Quanto à poesia, parece condenada a dizer apenas aqueles resíduos de paisagem, de memória e de sonho que a indústria cultural ainda não conseguiu manipular para vender."...[Alfredo Bosi, in O Ser e o Tempo da Poesia, p. 133]

terça-feira, junho 14, 2011

NATUREZA-MORTA (as acerolas)





















“sois, apenas, como neblina que
aparece por instante e logo se dissipa...”
(Epístola a Tiago 4:14)





Pernoitaram sobre a mesa, aquelas bolotas vermelhas, deixadas em uma vasilha de ágata. Algum sortilégio noturno, algum miasma, perpassou-lhes as polpas carnudas, e eis que amanheceram assim, bolorentas e maceradas. Aquele viço apetecível, aquela aparência rubra e suculenta se esvaiu. Um sopro letal deve haver na noite, no sereno. Algo imperceptível, que necessita das horas silenciosas da madrugada, para atingir o cerne vital das frutas, das flores... de tudo...

Contemplá-las, ao desjejum, nessa manhã introspectiva, traz à alma um estranho pesar. Há pouco, no lavabo, o espelho deixava entrever os inúmeros fios brancos que em mim despontam, que desapontam. Sinto-me frágil infrutescência, pênsil e pingente, feito fruto maduro. Atravessei, sem perceber, as noites frias desses últimos cinqüenta anos. Alguma substância elemental me vai atingindo o âmago da vida. Uma informação incrustada em minhas moléculas diz, em código: és finito.

Agora os sonhos ainda estão por sonhar, e as gavetas estão prenhes de projetos. O vento, vindo da Sé, balança as frondosas mangueiras do Horto Del Rey. Levanta a poeira na estrada que vai dar ao Sítio das Quintas. Os dolbermans do casarão ao lado apóiam-se na muralha, e espiam os garotos que jogam bola. Aqui, parece que o tempo não passou e as crianças ainda brincam na rua. Bola de pé, bola de meia, bola de gude.
Os galos já descansam de suas saudações ao dia de hoje. Já há mangas maduras caídas ao chão. E as pessoas já vão passando, apressadas em cumprir os seus deveres, os seus desígnios...
Olinda acorda aqueles que dormiram e encontra os notívagos que buscam a manhã. Os ateliês da Cidade Alta abrem as janelas e deixam que a brisa lhes sopre a tinta fresca das telas. À mesa, o artista solitário fita as acerolas murchas no vaso. Seus pensamentos vacilam como as asas de uma mariposa fatigada, depois de lutar a noite toda tentando desprender-se das teias de uma aranha. Mais do que as idéias, vacilante está o seu corpo franzino. Suas juntas rangem como velhas cancelas. Pronuncia algumas palavras ao acaso. Saem de sua boca pássaros flácidos, que esvoaçam a custo, rente ao chão.
Encanecido. Um ser cansado e encanecido exala o cheiro fúngico dos velhos alfarrábios...
Sedentário. Só e sedentário. Desistiu das coisas mais comezinhas – desistiu da ação.
Hoje quedou-se a meditar diante da terrina de ágata. As acerolas, ontem vermelhas e macias,...antes suculentas e saudáveis...ah,...o tempo...
...o tempo é um estranho escultor de máscaras mortuárias...

Recolhe os seus pincéis... a paleta treme entre seus dedos. Cores desbotadas, boninas, tons crepusculares, uma monocromia em pálidos tons de vermelho... pintava uma natureza-morta...
A sombra passageira de uma nuvem encobre os pardieiros da cidade. Exausto, deita-se mansamente sobre o assoalho. Balbucia uma prece sem sentido... então, uma profunda e melancólica agonia o faz desfalecer...



***
concluído em 06.12.05, com este conto olindense.


Eurico - 2005
Horto del Rey, Olinda.


Fonte da imagem:
OLINDA CINZA
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