Uma Epígrafe



"...Quanto à poesia, parece condenada a dizer apenas aqueles resíduos de paisagem, de memória e de sonho que a indústria cultural ainda não conseguiu manipular para vender."...[Alfredo Bosi, in O Ser e o Tempo da Poesia, p. 133]

quinta-feira, agosto 21, 2008

Vigília























Espero em vão o poema que não
vem. Deixo as portas encostadas,
cochilo os meus sonhos sobressaltados,
com temores adúlteros, pecados.

Em vão espero às portas da Cidade,
no cais do porto dentro dalma, no corpo.
Em vão espero, só e esvaziado.
Gritam-me os galos, caem-me estrelas.
A madrugada espreguiça-se, esperneia.
Espera em vão, o poeta, e a lua é cheia
sobre a Cidade que dorme, erma e ôca.

Rasga o silêncio um mocho insone. Augúrio?
Alvíssaras? Quem vem lá?
Bocejam sentinelas, uivam cadelas sob
os lençóis. São alvos os lençóis sobre ela.
E em vão espera, o vate; em vão espero
o poema que não vem amanhecer-me...

Eurico
9/11/1993
(durante a leitura de Invenção de Orfeu)

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