Uma Epígrafe



"...Quanto à poesia, parece condenada a dizer apenas aqueles resíduos de paisagem, de memória e de sonho que a indústria cultural ainda não conseguiu manipular para vender."...[Alfredo Bosi, in O Ser e o Tempo da Poesia, p. 133]

quarta-feira, julho 16, 2008

Pequena Fauna Poética



Quando eu-menino ouvia

os lobos da ventania

soprando ovelhas nas nuvens.

Meu coração disparava

(me dava um medo esquisito,

seria isso um meu mito?)

e eu me abraçava, eu-menino,

a um vira-latas mofino,

que nem eu era, também,

franzino e desamparado.

E eu lhe dizia ao ouvido:

(não tenha medo Bandit,

mamãe foi ali, na feira,

papai já vem do trabalho).


*

Quando eu estava inquieto

me acalmavam lebristas

que nadavam em garrafas

translúcidas, ornamentais.

Ornamentais, os meus saltos

de pontes imaginárias,

a mergulhar nesse rio,

heraclitiano rio,

que não parava, e não pára...


*

Por esse tempo ainda

me andava a alma contrita

com as sensações de meu corpo:

um tio meu criava porcos

e eu os via javalis;

Minha avó bordava rendas.

Trago os bilros dentro em mim

e costuro pelo avesso

isso que ledes aqui.

Meu avô me dava livros:

Esopo, Andersen, Grimm.

Onde os trago?

E eu lá sei!


*

Mas emoções são perigos:

um dia quase me mato,

(se não fosse a borboleta,

a cochilar no casulo,

que me chamou a atenção...)

quase que, pássaro, pulo,

em queda livre e ligeira

do alto da pitombeira.

Mas não sabia voar.

Dançar? Dançar eu sabia,

essa dança ligeirinha

dos bodes nas cabritinhas,

bicho-do-mato que sou.


*

Vou lhes contar um segredo

há muito tempo guardado:

as emoções são crianças,

aprendem fácil a brincar

e gestam lendas e mitos

(que lhes sopram anjos bonitos)

de lobos, nuvens, cabritos.

Esses ditos viram escritos

que gente velha e sisuda

vai seu mistério estudar...


Se isso é poesia?

E eu sei lá!

*

Eurico
poema sem data

*

A imagem é um esboço em papel de seda
para um óleo sobre tela de autoria
de meu saudoso avô Luiz Eurico de Melo


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