Uma Epígrafe



"...Quanto à poesia, parece condenada a dizer apenas aqueles resíduos de paisagem, de memória e de sonho que a indústria cultural ainda não conseguiu manipular para vender."...[Alfredo Bosi, in O Ser e o Tempo da Poesia, p. 133]

sexta-feira, janeiro 22, 2010

O Relógio e a Bússola (uma cantiga pra Kelly)





















Redescobri o Oriente de manhã,
Quando o sol invadiu minha casa de repente
Eu, que nem atentava de que lado, exatamente, nasce o sol,
Agora sei, aqui, convalescente,
Que um raio solar cruza-me a alma, obliquamente,
Desde as primeiras horas da manhã até ficar poente;
E que minha a cama posta-se sob ele, diagonalmente.
Espaço e tempo brilham em mim, isso é o Oriente...
Irmãos, amigos, não é deveras surpreendente
Que deambulando em tal deserto, tanta gente,
como eu, não atente
pro fato que não sabe mais, ao certo, para que lado fica o Oriente?

Agora sei, graças ao Sol,
Que o Oriente fica exatamente
No recanto do quarto, e rente
Ao ponto em que minha Mulher, tão ternamente,
Ajuda-me a calçar os meus chinelos
(logo os meus, que nunca me dignei a amarrar suas sandálias, ó xente!)
E veste-me um moleton, tão distraidamente.
Minha Mulher de cócoras, sorridente,
raio de sol que resplandece à minha frente,
cuidando do meu ser convalescente,
Ali, ó meus irmãos e amigos,
Ali é o Oriente!

E enquanto ela me pensa curativos, delicadamente
O Sol acende os seus cabelos, suavemente,
E vai iluminando as minhas células dolentes.
Eis o relógio e a bússola, nesse olhar iridescente...
Eis, ó minha alma, o Oriente!


Fonte da imagem:
http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/a/ae/Saint-remy-de-provence-cadran-solaire.jpg
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