Uma Epígrafe



"...Quanto à poesia, parece condenada a dizer apenas aqueles resíduos de paisagem, de memória e de sonho que a indústria cultural ainda não conseguiu manipular para vender."...[Alfredo Bosi, in O Ser e o Tempo da Poesia, p. 133]

terça-feira, junho 12, 2012

JARDINEIRO DO AR

















Na latência, efloresce o patente...
E o novo está guardado no antes.
Nesse instante.

Há flor na luz solar.
Já é flor o ato de florar.
Flor é a possibilidade de ser flor...

...quando chove sobre a terra,
os úberes se entreabrem.
Antevejo corolas encarnadas.

Efloresço.

Eu serei eu: flor-futura.
Já úmidas, as pét'las.
Saudade do amanhã...




Fonte da imagem:
 Raquel Bitencourt


domingo, junho 03, 2012

Pequenos Nadas


Rendados - Carla Schwab





















"A Poesia é feita de pequeninos nadas e
(...) cada palavra tem uma função precisa,
de caráter intelectivo ou puramente musical, e não
serve senão a palavra cujos fonemas fazem vibrar
cada parcela da frase por suas ressonâncias anteriores
e posteriores".    (MANUEL BANDEIRA).


.
.
.
Eu traço versos
como quem trança
                os nós du'a rede.
.
.
.
In/vento-os,
Pequenos nodos,
            pequenos nadas,
feitos de vozes
         com que desfio,
                    fio após fio,
em des(a)linho, esses retroses
de quase nada.
Não têm motivo,
           não têm sentido,
                 esses liames
esses barbantes de fino linho,
que só têm ritmo,
tecido e rima,
mas não têm nome que os defina.

Enlaço os versos como quem ata
cordéis ao vento. . . como um encanto. . .
(Fecha essa página, se até agora
Não tens motivo nenhum de espanto.)

A cada linha aqui tecida,
de mim se escorre,
e em mim se míngua
a tessitura dos véus da língua...

Pois nesses laços que agora vedes,
há uma parte de mim
que morre
e outra parte que (se) me amarra à (minha) vida.

(Eu faço versos como quem tece u'a estranha rede...)



Fonte da imagem:
http://carlaschwab.blogspot.com/2010/04/rendados-carla-schwab_11.html

Retome a teia, curtindo CLAUDE DEBUSSY - La Fille aux Cheveux de Lin

sexta-feira, maio 11, 2012

ATÉ UM DIA, POETA ROMERO AMORIM!


Romero Amorim recebe flores das mãos de Samantha
(Evento: Movimenta Várzea/2010)


Tributo a Romero Amorim
(frevo-ciranda)

Um beija-flor beija a flor, suavemente,
num flamboyant debruçado sobre o rio...
E as pastorinhas passam cantando, alegremente,
sob um céu de anil.

A linda pastorinha
dos lábios de carmim
canta um frevo-ciranda
para o poeta Romero Amorim.

Vai, linda flor,
e leva flores pro bom compositor.
Graças a ele o nosso bloco vai
brincar na Aurora dos Carnavais...




Compositor: Lula Eurico/2010
(todos os direitos doados ao Bloco Lírico Flores do Capibaribe)


(Reeditamos essa postagem, ainda estremecidos com a notícia
da partida do Poeta Romero Amorim.
A ele nossa gratidão, nossa saudade, nossa reverência...
Até um dia, Poeta da Aurora! 
Recife, 11/05/2012)

terça-feira, maio 08, 2012

CRISTALINOS (poema-escorço)

Imagem daqui

"A poesia: tão bom que me grudasse na córnea pra sempre."
                                  Tania Regina Contreiras



Alçar voo, com asas de ver:
Flamboyants, guris, abelhas...
(Sei que é parco o pão na mesa)
Mas se há crianças: beleza.

Ruflar pálpebras, ao sol:
(Ontem foi um dia duro.
Mas, foi ontem. Já passou.)
E essa brisa ajuda os olhos,
Revoando... são crianças.

Roçar nuvens com as pupilas,
Esses olhos, essas asas...
(Nada como estar em casa,
Onde há leveza... e crianças)

Não consigo perder a esperança.



Debussy - Children's Corner - Jimbo's Lullaby:



Mais sobre poema-escorço, aqui

Dedicado, mui fraternalmente, ao prof. Diógenes, amigo e irmão mais novo.

domingo, maio 06, 2012

HERESIAS Nº 3






Vencido está
quem de teu brilho sabe.
Tua força é madre
e em ti revive o orbe.
Trazes saltérios, flautas
e essa dança
num Reino governado por crianças:
És o Caminho
da vida em abundância.


***


Fonte da imagem:

quarta-feira, abril 25, 2012

HERESIAS Nº 2




Avia-te, ó Bardo!

Estás na humilde trípode
e em ti se evocam as vozes femininas
dos arcanos celestes.

Não és mais teu.
E os orbitais
das cousas indizíveis
invadem-te as sinapses.


Avia-te!
E retoma o Caminho.






Fonte da imagem:

segunda-feira, abril 23, 2012

HERESIAS Nº 1



Uma infinidade de justapostas (in)certezas
formam em minhalma um instável mosaico.

Mil ritos sufocam-me
e a profusão de verdades litúrgicas engessa-me a emoção.

...Sonho a liberdade de uma Samaria proscrita...


Já não temos poços, nem cântaros;

A brisa sopra onde quer.
Beberei das nuvens que escorrem
das Tuas Mãos em concha.
Retomo as minhas pegadas nesse oculto Caminho do Interior.





Imagem recolhida do Google.

quarta-feira, abril 18, 2012

É PRECISO AMAR...

Intensidades e perplexidades.
Quem vai querer mudar o que deve ser mudado?



Quem quer mudar a si mesmo?

terça-feira, abril 17, 2012

OFICINA






















Assim, o artífice anima ao ourives,
e o que alisa com o martelo,
ao que bate na bigorna,
dizendo da soldadura: Está bem feita.
Então, com pregos fixa o ídolo para que não oscile.
Is. 41:7




O pequenino
o pequenino gesto
O pequenino gesto repetido
o pequenino e mesmo gesto repetido
e repetindo-se
move o anelo
no mesmo elo
elo por elo
move o martelo
faz do martelo flor desse gesto
fruto da gesta
abstraído de uma floresta,
flor desses gestos, abstraídos,
da martelagem
no peso o apenso
penso e pondero
pênsil pingente
pondero e penso
a peça rara
du’a ourivesaria
sob incensos

nas muitas dobras
e mais redobras
e mil batidas como em aldabras
tão repetidas essas palavras
pedras em salvas
ouro das lavras
de um tempo intenso
de tempo imenso
de um temp(l)o antigo
um santuário para o Infinito.

ouvir seus g/ritos
distinguir ritos,
haurir seus gritos
um ourives aos gritos,
hiero-gritos:

- Datemi un martello!
- Che cosa ne vuoi fare?

- Moldar os mitos.

Com hieroglifos
florões e grifos
oraiseescritos
roots e ritos
:
Assim, dá alento
ao lento
ourives,
e ao que modela os elos
os velos de oiro
sob o martelo
cravando os pontos
de filigranas
soldas precisas
e derretidas
sob as batidas
leves batidas
de modelagem numa bigorna...
(wayüHazzëq Häräš ´et-cörëp maHálîq Pa††îš ´et-hôlem Pä`am).

E o que modela com o martelete,
forja a cutelos, cravo e cut-up
“batte le métal en plaques”
fold-in, em dobraduras da joiaria,
pinos e pinças,
brincos e broches
“breitgehämmerte Bleche”
molde e persona,
mote e martelo,
elo por elo ,
dobra-se a alma
na oficina
bate um martelo
bate o martelo
bate martelo...

...e um temp(l)o oscila.


Eurico,
em dobraduras experimentais...rs
Meu Deus! Oscilo?


Fontes dos cut-up e fold-in:

http://www.ouviroevento.pro.br/publicados/Firmamentum.pdf

http://ourivesariahavila.blogspot.com/2007/10/histria-da-ourivesaria.html
http://letras.terra.com.br/rita-pavone/64293/traducao.html
Imagem:

domingo, abril 15, 2012

ARQUITETURA VOLÁTIL




























Gn. 28:12,13



Essas paredes ascendem
por verticais monolíticas;
Saem do chão abruptas
Fundadas na pedra bruta.
Sete carreiras, na rocha
Lapidada em cantaria.

Erguer degraus é poesia?

Alvenaria abstrata,
Frases de argamassa e cal.
Essa peleja não é vã:
Tirar arestas à pedra;
Erigir versos de arrimo
E por a prumo as vertentes
Du'a volátil escadaria.



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Fonte da imagem:

O Sonho de Jacob

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P. S.:
Retomando uma parceria antiga, com o Carlinhos do Amparo, desde os tempos do Eu-lírico impresso, em que ele fazia um breve comentário aos meus poemas , a partir deste Arquitetura Volátil, o leitor poderá, se quiser, clicar em Resenha Poética, para ir ao blogue Sítio d'Olinda. Lá estarão as inusitadas "explicações poéticas" do meu compadre Carlos Pequeno do Espírito Santo, filodóxo e hermenauta das Olindas. Divirtam-se!




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