
É Kujawski, quem afirma, in Fernando Pessoa, o Outro, que "o dizer português é sempre vizinho da efusão lírica, pronto a vibrar em toda a escala de íntimas lamentações e exultações, de secretos cuidados e enternecimentos próprios às fundas confidências. Daí as qualidades da prosódia da língua portuguesa -- alongada e ondulante; ondulações que se perdem ao longe (...)"
Regressemos a esse longínquo pretérito, acompanhando um dançar dionisíaco, através do léxico arcaico do cronista-narrador Fernão Lopes, que transcrevi da obra citada acima, p. 25. Deitem os vossos olhos sobre esses vetustos vocábulos, soprem-lhes os fonemas e deixem emergir do inconsciente, os albores do efusivo lirismo dessa Língua Portuguesa:
Viinha elRei em batees Dalmada pera Lixboa, e saiam-no a reçeber os cidadãaos e todollos dos mesteres com danças e trebelhos, segumdo estomçe husavom; e el saia dos batees, e metiasse na dança com elles, e assi hia ataa o paaço. Paraae mentes se foi boom sabor: jazia elRei em Lixboa huuma noite na cama, e non lhe viinha sono pera dormir e fez levamtar os moços e quamtos dormiam no paaço, e mandou chamar Joham Mateus, e Lourenço Pallos que trouvesem as trombas de prata, e fez açemder tochas, e meteosse pela villa em damça com os outros; as gentes que dormiam, sahiam aas janelas, veer que festa era aquella, ou porque se fazia; e quando virom daquella guisa elRei tomarom prazer de o ver assi ledo; e amdou elRei assi gram parte da noite, e tornousse ao paaço em damça; e pedio vinho e fruita, e lançouse a dormir.
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Ilustração:
Casa de Locos - Goya
(clique na imagem e irá até o site de origem)
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5 comentários:
Oi.
Estou por aqui lendo. Acomapanhando.
abraços e bom final de semana.
Oi, Eurico.
Eu fico é rica em meio a tanta emoção e cultura, servida em doses fartas, de abundantes palavras.
De novo, belo texto.
Outra aula.
Isto é arte, pura, das melhores!
Oi, amigo-Eurico.
Aqui neste espaço, tudo é intenso.
A emoção transborda, as palavras são abundantes em significado.
Isto é arte, pura, das melhores!
Novamente saio abastecida de cultura.
carinho, sempre.
Nossa! Como deliciosamente somos mutantes. Como emergimos do caldo de sons permanentemente com novas improvisações das velhas notas musicais. Como somos a cada dia outro e ainda os mesmos, sempre.
Só o Eurico para nos oferecer isso.
Um abraço.
Olá querido Eurico, gostei muito do texto... Bom fim de semana... Beijinhos de carinho e ternura,
Fernandinha
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