Uma Epígrafe



"...Quanto à poesia, parece condenada a dizer apenas aqueles resíduos de paisagem, de memória e de sonho que a indústria cultural ainda não conseguiu manipular para vender."...[Alfredo Bosi, in O Ser e o Tempo da Poesia, p. 133]

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sábado, agosto 11, 2012

REFLORESTA


Imagem do Google




























Luz e sombra, verde, funda,
coisa densa, quase bruma,
face úmida de alguma poesia...

Chã de oculto e inculto húmus,
seixos, limo, correnteza.
Voz de arroio em sons potáveis,
harmoniosa beleza...

Sob a sombra, prenhe, fecunda,
mãe, frondosa,
nessa ubérrima penumbra,
misteriosa,
refloresce, vária e miúda,
numinosa,
cristalina e imensa, a Vida...




Ao velho Brennand, pai, que,
ao seu modo, com guarda-montada e rondas,
foi o primeiro protetor de nossa mata varzeana.

domingo, julho 10, 2011

LIRISMO E LIBERTAÇÃO (reflexão dominical)




















Mas o que é mesmo lirismo?
Lirismo é uma maneira de ver e acercar-se das coisas, da realidade. Lirismo é pois, perspectiva, interpretação, ambas fundadas na emoção. Mas numa emoção vital, consciente da radical importância da vida na Terra. Vida dos homens, dos animais, das plantas. Vida.
Fundado nessa perspectiva, o lirismo  já é, em si, uma atitude política diante do mundo.
Portanto, o lirismo não é apolítico. Pode e quer o lirismo interferir nos rumos da pólis. Esse lirismo sonha atuar na sociedade, propondo um salto civilizatório. Um movimento pela qualidade da vida humana, dentro de uma visão ecossocialista, pacifista e libertária. Mas nossa política não é a dos grandes líderes messiânicos, nem a política partidária, (essa em que os fins justificam os meios), e sim, a política do cotidiano, feita por anônimos, que querem fundar uma sociedade da gentileza e da cortesia, tanto nas pequenas quanto nas grandes cousas.
Mas, como propor uma política da ternura, em um mundo em que parece imperar a indiferença, o desamor? Parece frágil, essa postura. Mas não é. Resiliente, talvez, frágil, jamais. Essa busca do lirismo e da ternura, diante de um mundo que fraqueja ante a lei da força, do poder pelo poder e da violência gratuita, é, sim, a atitude dos fortes, dos que ousam resistir e sonhar.
Quem se ocupa da musicalidade e da harmonia das cores, das palavras e dos sons, se incumbe também de ocupar um espaço (político) para a poesia, para o poético, para a beleza.
Esse lirismo interfere na pólis, ou seja, faz política, ocupando-se do belo, do bom e do bem, com a inocência e a ingenuidade da criança... nietzscheana. E isso não é utopia. É necessidade vital. A preservação da vida na Terra carece de uma tomada de atitude em defesa desse salto civilizatório. Essa atitude é radicalmente lírica e política.
Não existe, pois, um lirismo comedido. Todo lirismo já é, em si, libertação.

Eurico
10/07/2011

FONTE DA IMAGEM:
http://semeadoresdeestrelas.blogspot.com/2011/05/curando-com-o-reino-animal-como-nos.html

sexta-feira, abril 15, 2011

Litania dos Pobres - Cruz e Souza

Pietá?

























Os miseráveis, os rotos
São as flores dos esgotos.
São espectros implacáveis
Os rotos, os miseráveis.

São prantos negros de furnas
Caladas, mudas, soturnas.

São os grandes visionários
Dos abismos tumultuários.

As sombras das sombras mortas,
Cegos, a tatear nas portas.

Procurando o céu, aflitos
E varando o céu de gritos.

Faróis a noite apagados
Por ventos desesperados.

Inúteis, cansados braços
Pedindo amor aos Espaços.

Mãos inquietas, estendidas
Ao vão deserto das vidas.

Figuras que o Santo Ofício
Condena a feroz suplício.

Arcas soltas ao nevoento
Dilúvio do Esquecimento.

Perdidas na correnteza
Das culpas da Natureza.

Ó pobres! Soluços feitos
Dos pecados imperfeitos!
Arrancadas amarguras
Do fundo das sepulturas.

Imagens dos deletérios,
Imponderáveis mistérios.

Bandeiras rotas, sem nome,
Das barricadas da fome.

Bandeiras estraçalhadas
Das sangrentas barricadas.

Fantasmas vãos, sibilinos
Da caverna dos Destinos!
O pobres! o vosso bando
É tremendo, é formidando!
Ele já marcha crescendo,
O vosso bando tremendo...

Ele marcha por colinas,
Por montes e por campinas.

Nos areiais e nas serras
Em hostes como as de guerras.

Cerradas legiões estranhas
A subir, descer montanhas.

Como avalanches terríveis
Enchendo plagas incríveis.

Atravessa já os mares,
Com aspectos singulares.

Perde-se além nas distâncias
A caravana das ânsias.

Perde-se além na poeira,
Das Esferas na cegueira.

Vai enchendo o estranho mundo
Com o seu soluçar profundo.

Como torres formidandas
De torturas miserandas.

E de tal forma no imenso
Mundo ele se torna denso.

E de tal forma se arrasta
Por toda a região mais vasta.

E de tal forma um encanto
Secreto vos veste tanto.

E de tal forma já cresce
O bando, que em vós parece.

Ó Pobres de ocultas chagas
Lá das mais longínquas plagas!
Parece que em vós há sonho
E o vosso bando é risonho.

Que através das rotas vestes
Trazeis delícias celestes.

Que as vossas bocas, de um vinho
Prelibam todo o carinho...

Que os vossos olhos sombrios
Trazem raros amavios.

Que as vossas almas trevosas
Vêm cheias de odor das rosas.

De torpores, d’indolências
E graças e quint’essências.

Que já livres de martírios
Vêm festonadas de lírios.

Vem nimbadas de magia,
De morna melancolia!
Que essas flageladas almas
Reverdecem como palmas.

Balanceadas no letargo
Dos sopros que vem do largo...

Radiantes d’ilusionismos,
Segredos, orientalismos.

Que como em águas de lagos
Bóiam nelas cisnes vagos...

Que essas cabeças errantes
Trazem louros verdejantes.

E a languidez fugitiva
De alguma esperança viva.

Que trazeis magos aspeitos
E o vosso bando é de eleitos.

Que vestes a pompa ardente
Do velho Sonho dolente.

Que por entre os estertores
Sois uns belos sonhadores.


Cruz e Souza
Fonte: www.dominiopublico.gov.br

Fonte da imagem:
http://www.almanaquedacomunicacao.com.br/files/images/t_ocular71.jpg

segunda-feira, março 28, 2011

ANDAIMES (ou Babel de Vidro)


equívoco vitruviano



"O mundo poderá ser salvo
se o homem desfizer a distância
que o separa da sua infância."

Cassiano Ricardo



Essa urbe vítrea funda-se em um equívoco deliqüescente
um desvio nos desvãos das mentes
ruas sintáticas,
lineares, sem graça e sem crianças;
carentes dos trapézios líricos
e da possibilidade do vôo..


Permanece  vitrúvio no vítreo,
esse dessonho retilíneo,
em inútil plano desonírico?


Toda construção em cânones é um equívoco,
um anti-Sphairos,
mesmo que côncava,
e ainda que convexa,
Isso que eles chamam nexo
é uma dislexia do oco sem eco.
Quando entenderão os arquitetos
que o unívoco e eterno é um Ser Esférico?






Fachada de vidro

quinta-feira, dezembro 09, 2010

AÇUDE COCOROBÓ



















"ao entardecer, quando caíram os seus últimos defensores, que todos morreram. Eram quatro apenas: um velho, dois homens feitos e uma criança, na frente dos quais rugiam raivosamente cinco mil soldados. (...)" Euclydes da Cunha



Sentei-me às margens do Cocorobó,
e chorei copiosamente.

Pranteei os loucos,
os deserdados do mundo,
os sem-teto, os sem-terra, os sem-história.
Os zé-ninguém,
aqueles, paupérrimos de espírito, de N. S. Jesus Cristo.

O Sol da tarde ia sumindo no horizonte e eu
dependurei meu alforje nas galhadas dos salgueiros.
Fiquei matutando, cá com minhas armoriais tristezas:

os filhos da República mais avançada do mundo
morrem de obesidade mórbida;

a República do povo do D'us único
ameaça seus vizinhos com a bomba;

as modernas metrópoles republicanas,
com sua arquitetura e urbanismo,
sua ciência e tecnologia,
estão quase sem ar puro pra respirar...

Apocalíptica ironia do mundo moderno:
Ninguém os toma por loucos.
(Os loucos estavam mesmo em Canudos e eram
miseráveis hereges e monarquistas)

Submersas sob Cocorobó,
as ruínas de nossa Atlântida sertaneja:
cidadela dos santos loucos,
dos fanáticos visionários,
(e quem sabe, até, dos nossos primevos comunistas)

Submersa a capela dos heróicos ébrios de Deus.
Uma tentativa (inútil) de banir sua memória,
com essa inundação infame e letal.

De meu peito intra-histórico
verto essa lacrimosa ladainha sebastianista...
E creiam-me, os que aquecem o planeta
com milhões de fornos entrópicos e suicidas,

"O mar, senhores donos do mundo, há de virar sertão!"...


*************************************
Eurico, mergulhado no sertão de Cocorobó.
(com a permissão visionária do eu-lírico)

Fonte da imagem:
Canudos submersa

terça-feira, dezembro 07, 2010

BELÉM (o milagre das águas)



















Quando vem a invernada e a ventania,
o milagre e a poíesis se confundem no sertão.
Dos poros da areia estéril
emergem filetes d’água
que, descendo dos barrancos,
soprados pela espinhara,
vão tornando as enxurradas
em multidão de afluentes:

Riachos
da Conceição,
dos Serrotes Brancos, Quixaba,
do Meio, da Santa Fé, de Baixo,
do Paraguá, Vaca Morta, do Sebo,
do Pau-Ferro, Pequeno, Ouricuri,
do Juazeiro, da Porta, do Umbuzeiro,
das Caraíbas, da Malhada Grande, Pocinhos, Tigre,
do Mateus, Caroá, Arapuá, Ipueira, Fechado, Traíras, Jequi,

Arroios
dos Brandões,
da Pedra, Fundo, Grande, Talhado, do Saguim,
de Baixo, da Serra, da Boa Esperança, Saco dos Cavalos,
da Macambira, do Logradouro, do Mocó,
do Retiro, da Simpatia, do Moleque, da Cachoeira,
da Pedra, da Estiveira, do Simões,
do Capim, do Cachorro, do Mulungu,
da Ingazeira, do Serrote, S. José,
da Várzea, do Iço, do Capim Grosso, Bom Viver,
da Tocaia, das Ipueiras, do Moselo, do Caldeirão, Água Ruim,
do Mari, das Pintadinhas e das Cabaças.

Brotam do chão seco as Lagoas
da Jurema, de Dentro,
do Campo Comprido, do Pajeú, da Areia, Grande,
do Tapuio, dos Algodões, da Espadilha, do Pombo,
dos Pregos, da Vassoura, da Malhada Vermelha, de Santana,
da Pedra Vermelha e das Pintadinhas,

E os abençoados Açudes
Riacho Pequeno e o Poço da Caatinga.

Tudo isso é pura poíesis!
Milagrosa hidrologia!

E pensar que há um imenso lençol de águas claras
sob a sedenta e semi-árida Cabrobó,
que se estende, subterrâneo, até a nossa Belém,
do São Francisco.
Os geólogos, incréus, afirmam que
a permeabilidade do solo sertanejo
foram o ensejo
para que esse imenso aquífero
escapasse da evaporação do Sol causticante.

Eu prefiro o milagre e a poesia!
Eu prefiro poetizar forças aórgicas, milenárias,
guardando, demiúrgicas, as águas,
contendo a inclemência do Sol,
e abrindo caudais, sob o solo esturricado.

Eu creio no milagre em Belém...



Fonte da imagem:
Imbu Brasil

Dados hidrográficos:
recolhidos do Google.


Eurico
Ainda o mergulho (natalino) no Sertão profundo de mim.
Há milagres e Deus, na natureza como ela é...

quinta-feira, novembro 25, 2010

TERCEIRO OLHO (renascimento)



Hubble
imagem recolhida do Google


Ver não é apenas compilar
pontos desconexos, pixels,
varreduras de imagens por segundo.
Ninguém vê apenas com os olhos.
Esses mesmos olhos com que se está
à mesa da cozinha a cortar cebolas
e a chorar lágrimas sem nexo.
Ver vai além do apenas ver.
Interpreta-se assim que se olha,
se é cebola ou emoção,
o que arde nos olhos.
E o conceito já vem atado à coisa que se vê.
Por isso, acautelai-vos com o visual.

(Bom seria fechar os olhos por minutos
ou passar os dias longe dos televisores.
Há muito o que se ver na própria tela mental.)

Imaginem:
A Poesia é um imenso nascedouro de imagens.
Hubble às avessas.
Ôlho pra dentro.
Muito dentro,
em regiões abissais.
Dentro de mim,
o riso distraído e indene
de uma criança revolvendo a Terra.
A bola colorida e um pátio: o espaço.
Um poço com roldana.
Um olho que me olha no centro imemorial da noite.
A hera.
As eras.
Estrelas, lumes, vagalumes.
Lá no centro de mim
sou um buraco negro e aquático,
galáxia aprazível.
Esse colo estelar, ubérrimo,
irresistível.

(Voluteio, centrípeto,
pra dentro de Deus?)

Eis que a Poesia alberga esse invisível
fulcro numinoso

:

Mãe!
Sou eu, filho...

sexta-feira, outubro 15, 2010

Marinei, sim, mas voto 13 !!!

Um dia eles saberão que um pacto federativo se faz
com crescimento equilibrado de todas as regiões do Brasil.
E que isso, se feito há 5 décadas atrás, teria evitado
a grande migração nordestina para o sul/sudeste
e o inchaço monstruoso de Sampa.
Agora, com as cidades litorâneas sitiadas pelos retirantes
fugidos dos intermináveis ciclos de seca e de fome,
surgem os que querem mudar esse cenário:

Água, luz, agricultura familiar, ferrovias,
escolas técnicas, agrícolas, universidades no interior.

Eis o legado dos últimos 8 anos.
O cenário mudou
e deverá seguir mudando,
pela força do povo nordestino
e para o bem de toda a nação brasileira!
O nordeste não se deixará iludir pela prestidigitação
da mídia farisaica.
Como diz minha amiga Mai:
"a fome é laica".


E o voto é 13!



Imagem google:
Transposição das águas do São Francisco
Leiam aqui sobre o sábio voto do Nordeste.

quarta-feira, agosto 11, 2010

Sobrevôo





















Um vôo há de revelar-se lírico e livre.
Volitam os anjos.
Adejam as borboletas.
Voejam os pássaros.
Esvoaçam as plumas...

Já um sobrevôo é coisa técnica,
de espécie árida e cabralina.
Serve para exercícios pouco poéticos.
Por isso não se deve voar sobre populações flageladas.
A hora é grave e exige um sobrevôo.

Mesmo que observemos a extensão da dor através de binóculos
e bem assentados em poltronas ejetáveis,
a dor cinematográfica nos comove,
mas não nos alcança, ainda...
(Quem sabe se, seguindo antigo conselho egípcio,
construíssemos nossas moradas longe dos aluviões...)

Ontem, víamos apenas as queimadas, lá embaixo.
Pequeninos animais assustados a correr do fogo;
Depois, viriam imensos canaviais, encravados em nossa alma,
junto com a nossa orgulhosa tradição colonial;
A felicidade do açúcar, do melado, da rapadura...

Surgiriam então belos vilarejos ao longo dos rios.
Casinhas enfileiradas feito centopéias.
Praças da Matriz,
Ruas do Comércio:
bóias-frias felizes a consumir parabólicas.

(Como haveríamos de pensar em remorso pelo fim das matas ciliares?)

Agora os técnicos sobrevoam a tragédia anunciada...
Imagens de um infeliz clichê, em que não há nenhum lirismo.

Há a constatação histórica do óbvio.
E o óbvio não é poético:

Ergueram-se túmulos às margens dos rios,
e os batizaram:
Cidades.


(poema de 06/07/10)

Fonte da imagem:
http://wings.avkids.com/Book/Nature/Images/wright_glider.jpg


Pós-escrito em 11/08/2010:

E eu que pensava que estava viajando na maionese, vejo que há muito tempo os urbanistas sabem que se deve respeitar o rio. O CREA_PE vai ajudar a reflorestar as margens do Rio Una, em Palmares, Barreiros e outras cidades erguidas sobre as matas ciliares. Leia aqui, ou em http://www.creape.org.br/.

quarta-feira, julho 28, 2010

Ranhuras no ventre da baleia



“Agora, erramos, orgulhosos e tristes, de ato vão em ato vão,
modelando vasos fechados e cortando lanças circulares,
não mais portadoras de aguilhão.
Uma besta espantosa, de índole recurva,
nasceu do cansaço universal e impera entre nós:
come voraz a cauda e engole a própria garganta.
Criações e atos perecem: sua respiração, interna, letal.”
********************** (Osman Lins, in AVALOVARA)


Nos últimos dias, venho sentindo a sensação de estar criando um inútil objeto estético. Não há como escapar desse sintoma neurótico, sendo cidadão de um mundo niilista. Poderia alguém viajar no ventre duma baleia sem ser digerido pelas secreções de suas vísceras; sem se corromper, sem sucumbir ante a volumosa força das entranhas do cetáceo?
Sempre acordo tomado pela angústia de ser parte de uma civilização que agoniza lentamente. Sento-me, todas as manhãs, diante dessa máquina e modelo uma estranha máscara mortuária. Folheio Osman Lins e deparo-me com a imagem desse animal autofágico. Somos contemporâneos de uma sociedade entrópica. De um organismo que se despedaça. Uma máquina programada para destruir a si mesma...
Enquanto modelo essa máscara, ouço ao fundo a voz roufenha e gutural de Chico Science: "...do caos à lama/da lama ao caos...". Pela janela, vejo a Ilha-sem-Deus. Invade-me as narinas, a maresia do ar. Meus cinco sentidos, as portas da minha alma, repentinamente alertas para essa apreensão lírica do mundo. Um lirismo arrebatador, como um súbito acréscimo da receptividade disto que me circunda. Percebo, apavorado, uma dilatação dionisíaca do real. Eis que o grande Pã me sufoca! Sinto-me diante da perspectiva de ser devorado pelas mandíbulas dessa alimária espantosa, que estertora, enquanto que me arrasta no seu ventre. Do fundo da alma me chega uma oitava de Camões:

“Onde pode acolher-se um fraco humano,
Onde terá segura a curta vida,
Que não se arme e se indigne o Céu sereno
Contra um bicho da Terra tão pequeno?”

Não sei por que insisto nesse tema. Minha psicanalista, ao ler a
ELEGIA PÓS-MODERNA, poema que eu acabara de escrever, aconselhou-me para que me ocupasse com amenidades.
— Ninguém se interessará por essas coisas, Poeta, ponderava ela.
Foi o bastante: abandonei seu consultório e nunca mais voltei lá.
Conforta-me constatar, ao ler Osman ou Roger Garaudy, essas duas grandes almas, que, desde 1968, eles também estavam debruçados sobre o mesmo tema... Nesse tempo, o Green Peace mal dava os primeiros vagidos...
Estaríamos todos criando uma obra inútil e sem sentido?
Pouco me importa! Arranharei, com unhas afiadas, o ventre verde-oliva desse anfíbio. Creio ser esta a única atitude possível a quem navega nessa bizarra embarcação.

***



Fonte da img.:
Jonas chega a Nínive


***

N. do A.:
o texto acima é fragmento de meu romance Bóstrix n'água.

terça-feira, julho 06, 2010

Sobrevôo





















Um vôo há de revelar-se lírico e livre.
Volitam os anjos.
Adejam as borboletas.
Voejam os pássaros.
Esvoaçam as plumas...

Já um sobrevôo é coisa técnica,
de espécie árida e cabralina.
Serve para exercícios pouco poéticos.
Por isso não se deve voar sobre populações flageladas.
A hora é grave e exige um sobrevôo.

Mesmo que observemos a extensão da dor através de binóculos
e bem assentados em poltronas ejetáveis,
a dor cinematográfica nos comove,
mas não nos alcança, ainda...
(Quem sabe se, seguindo antigo conselho egípcio,
construíssemos nossas moradas longe dos aluviões...)

Ontem, víamos apenas as queimadas, lá embaixo.
Pequeninos animais assustados a correr do fogo;
Depois, viriam imensos canaviais, encravados em nossa alma,
junto com a nossa orgulhosa tradição colonial;
A felicidade do açúcar, do melado, da rapadura...

Surgiriam então belos vilarejos ao longo dos rios.
Casinhas enfileiradas feito centopéias.
Praças da Matriz,
Ruas do Comércio:
bóias-frias felizes a consumir parabólicas.

(Como haveríamos de pensar em remorso pelo fim das matas ciliares?)

Agora os técnicos sobrevoam a tragédia anunciada...
Imagens de um infeliz clichê, em que não há nenhum lirismo.

Há a constatação histórica do óbvio.
E o óbvio não é poético:

Ergueram-se túmulos às margens dos rios,
e os batizaram:
Cidades.




Fonte da imagem:
http://wings.avkids.com/Book/Nature/Images/wright_glider.jpg


Pós-escrito em 11/08/2010:

E eu que pensava que estava viajando na maionese, vejo que há muito tempo os urbanistas sabem que se deve respeitar o rio. O CREA_PE vai ajudar a reflorestar as margens do Rio Una, em Palmares, Barreiros e outras cidades erguidas sobre as matas ciliares. Leia aqui.

quinta-feira, abril 15, 2010

ODE ESCATOLÓGICA (antipoema)
































"Há um lixo que em todos os sentidos, subjaz nas grandes tragédias."

....................................................................................................................(Mai)


Dava-nos a impressão de que habitávamos
em tranquilos sítios virtuais
e de que nossas casinhas humildes
eram como homepages protegidas no ciberespaço...

Mas, uma abrupta avalanche de lama e lixo nos ensinou
que nossas verdadeiras comunidades de relacionamento
estavam mesmo dependuradas
nos inseguros aclives dos outeiros,
nas margens, nada plácidas, dos alagados,
nos palafitas sobre a maré...

São inúteis os alicerces,
fincados sobre a escória urbana...

Duro foi saber que ziguezagueávamos
por vielas assistemáticas
nos mil platôs da falácia pós-moderna,
com nossas parabólicas plugadas nessa rede
da ilusória arquitetura rizomática...
Ai, os conceitos, as analogias, as metáforas,
o reducionismo biológico,
tudo, tudo desliza morro abaixo,
(apesar de restar ainda a estética do Oiticica.)

Identifiquem-nos agora, os soterrados,
numerem nossos corpos
e classifiquem-nos em seus registros
e saberão que muitos de nós somos os nômades,
os excluídos, sem terra, os desterritorializados,
cuja única singularidade
é estar na mais comum e corriqueira miséria humana...
Somos os cadáveres sem voz e sem história,
e cuja geografia está sob os escombros
da obsolescência das coisas
consumidas, supérflua e cotidianamente...
Somos os soterrados,
dessa babélica orbe virtual,
edificada sobre as falhas geológicas da ética da imanência!
Somos incautos avestruzes,
as consciências enfiadas em buracos 3D,
a buscar, na seiva esquemática (e pouco útil)
de raízes emaranhadas sob a relva,um sentido novo para a velha vida des/humana
ou algum antivírus para o nosso escatológico amor... fati.



fonte da img:
http://agrandegaia.files.wordpress.com/2009/10/estamira2.jpg

Este antipoema é dedicado a
Dona Estamira, do Jardim Gramacho-RJ

domingo, outubro 04, 2009

LUIZA (experiência quântica)






























E criou Deus o homem à sua imagem:
à imagem de Deus o criou;
homem e mulher os criou.
..............................Gênesis, 1:27

Eu disse: Vós sois deuses...
..............................Salmos, 82:6

"O homem é um deus quando sonha
E um mendigo quando pensa."
...................................Hölderlin



Estamos na nova Manhã de tudo.
Manhã eterna e pagã.
Agora a Femina sobe a encosta
do outeiro, tangendo um rebanho de cabras.
Os balidos da Aurora
enchem o Caminho de símbolos e de bosta.
O planeta recomeça nessas tetas.
O planeta carece de regaço ma(e)terno.


Estamos na moderna Manhã de tudo.
O mundo ainda anda ab/surdo.
Há perplexidade entre os machinhos;
Mas já se escuta o balbucio atrevido das infantas.
O bélico dará lugar ao belo.
Desde sempre se anunciava
essa ascensão da Anima.

Estamos na manhã do domingo.
Os deuses estão alegres
e lançam os dados comigo.
Fazem apostas,
Divertem-se, os deuses. É domingo.
Sim, é domingo,
mas as deusas, como Deus, trabalham até hoje:

Encontrei Luiza na feira de orgânicos;
Trazia flores nas mãos
e uma sacola biodegradável.
Seus olhos luziam,
enquanto proseava com outras mulheres.
Seu sorriso era potável
como as águas dos rios futuros.
Havia cumplicidade e ternura.
Falava-se de gravidez e de luz.
Observava-me, quântica.
E me acenava, semiótica.
Quanta beleza!
Quanta esperança!

Quanta...

@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@

Dedicatória:

às minhas filhas já nascidas e que hão de nascer,
às filhas das minhas filhas, minhas futuras netinhas,
às minhas sobrinhas mineirinhas, à minha Allana (saudade),
e a todas as minhas amigas virtuais, ou não,
extensivo às suas filhas, netas, sobrinhas.
Enfim, o poema é dedicado ao ser feminino.

@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@

N. do A.:

Não sei de onde e nem porquê me vem à mente
a célebre frase de Flaubert:
"Emma Bovary c'est moi". rsrsrs
Mas não esqueçam que aqui habita um Eu-lírico. rs)



Fonte da imagem:
Mulher Quântica

Ouçam a Luiza, do Tom Jobim...

sexta-feira, setembro 11, 2009

Flor d'água (flagrante pós-moderno)




















Há muito tempo, os cientistas
inventaram o pavimento
e há poucos meses, os urbanistas
asfaltaram a minha rua.
Há poucos dias, os ufanistas
fizeram uma festa ao calçamento,
uma grandiosa festa inaugural.

Um belo dia, um desses dias quentes de verão,
o Sol evaporou o mar
e o vento trouxe as águas
em nuvens carregadas, sobre o meu lugar.
Choveu a cântaros.
Choveu, choveu, choveu.
E, quando enfim veio a estiada,
a água ficou, dias a fio, empoçada,
bem rente ao meio fio, junto à calçada.
O tempo e a poeira
se uniram, num concerto
e fizeram da poça, um lamaçal, pútrido e fétido,
desses que chamam
de esgoto a céu aberto.
A fedentina ficou insuportável.
Deveras nauseabundo aquele odor.

Mas, em certa manhã, do mês de março
abri a janelinha do terraço,
e, estarrecido, vi uma flor, uma airosa flor,
medrando assim tão bela,
uma flor naquele charco.

Compreendi então minha tolice
ao criticar tão sábios urbanistas,
sem lhes compreender os bons propósitos.
Por ser poeta e cheio de sandices,
nunca iria imaginar
que os doutores
queriam apenas demonstrar
a força que há no Sol, no ar,
na fotossíntese,
isso que traz misteriosamente, à tona
a vida submersa que há na lama.

Alguém me poderia retrucar:
mas, a cidade assim pavimentada
não dá vazão à força da enxurrada.
inunda tudo, os carros bóiam...

Pobres mortais, não entendem a ciência!
Devem ser poetas, como eu,
que sonham com um tempo das estradas poeirentas,
em que a água se infiltrava pelo solo,
formando esses tais lençóis freáticos.
Para que servem rios subterrâneos,
aquíferos imensos, em covas nunca vistas?
Somos uns néscios, tolos, saudosistas;
nada entendemos de asfalto sobre as pistas.
Ah, não fosse aquele sábio cientista
que, aliado ao inteligente urbanista,
criou o alagamento em minha rua,
jamais teria eu aqui tão bela vista
de tão grande valor, que nada paga:
a bela flor, soberba e airosa,
a raríssima flor da poça d'água.

Fonte da imagem:http://garatujando.blogs.sapo.pt/arquivo/Flor%20no%20cascalho.jpg



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quinta-feira, julho 23, 2009

Peso aos habitantes do Recife (antipoema trágico)



















Aqui mataram mais uma criança





Parte I (para ser lida aos berros)

Tudo é símbolo para o poeta.
Mas nem tudo é poesia.
Fotografar com palavras
A imundície verbal
Que emana da violência é arte?
Creio que nem os realistas soviéticos
Usaram desse grosseiro linguajar (poético?).


Contudo, se o que se espera de um vate
É o vaticínio,
Hoje vos apresento uma profecia pós-moderna,
cujas vísceras estão expostas nos jornais de ontem:

“Mais de 33 mil adolescentes
serão assassinados entre 2006 e 2012,
prevê o Indicador de Homicídios na Adolescência (IHA),
divulgado ontem pelo Governo Federal,
Unicef e Observatório de Favelas.
As cidades do Recife (PE) e Maceió (AL)
estão no topo da lista dos piores números
entre as capitais,
com 6 mortes para cada mil adolescentes.”

Ó civilização necrófila e decadente!
Até quando pseudo-intelectuais
Venderão milhares de livros com capas coloridas,
Como se descrever a ignominiosa morte
De jovens fosse a última moda em arte?
Eu chamaria isso de sado-masoquismo.
Arre!
Afagar a pereba com incenso e mirra
Não é cura para a gangrena.
Ficar a olhar para o lixo que bóia sobre
o Rio Capibaribe
Não é defender suas águas putrefatas,
em que deslizam os dejetos que nós mesmos lançamos.
Contar historietas (literárias) de assaltos em ônibus;
Documentários, ditos artísticos, de milícias do apito,
de meninas que se prostituem;
fazer kitsch com uma tropa escatológica,
e di/vulgar tudo isso em festivais com gente perfumada e feliz:
É como presenciar, indiferente,
um corpo que desaba do alto de um edifício
E seguir, com olhar abúlico, a morte certa
à velocidade de 10 m/s ao quadrado.


Estou em crise.
E crise profunda.
Em crise por uma sociedade nauseabunda
Que faz saraus etílicos
E vernissages com doces e salgados
Para expor a banalização da morte
E a nossa própria indiferença diante de tudo.

Aviso aos navegantes:
O mar é alto,
O barco está a pique e nós com ele.
Não há sequer um escaler para salvar mulheres e crianças!


Parte II (leitura silenciosa)

Se um corpo cai no mar
(E tudo aqui é símbolo)
Quem sabe mergulhar
Que salte e vá salvar
a vida que se afoga...

Assim a arte, essa sonda submarinha,
Essa antena profética,
Esse radar da intuição
Há de vislumbrar
Na noite escura dos tempos
O archote que perdemos
A bruxuleante luz dos áugures.

O que fizemos a nós?
Em que matrizes míticas
nos fundamos?
De que barro,
Nos geramos?

Que os bardos vaticinem
De que Éden nos perdemos.

Eis a única poética possível,
num mundo que estertora
Com o desamor no âmago.

...E alguns ainda me perguntam
Por que mito?
Por que fraternidade?

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Fonte da imagem:
Perícia de criança assassinada no Coque - Recife-PE

Leiam também a Resenha Poética, no Sítio d'Olinda
.



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quarta-feira, junho 24, 2009

Ciranda Cósmica



“Eu quero aproximar o meu cantar vagabundo,
daqueles que velam pela alegria do mundo. “

.............................Caetano Veloso




Há uma fogueira ancestral, no meio da praça!
E dança em círculo,
uma gente jubilosa.

No céu, giram miríades de astros sorridentes.

Deus vela pela alegria do efêmero,
e pela festa ao instante que passa...

Sua Mão cuida das nossas órbitas.
Nele vivemos, nos movemos e existimos...
Nele, o infindável movimento circular
Giremos, pois, nessa ciranda.
Dancemos ao Eterno fluir.

Assim seja sempre!
....
.




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Eurico


24/06/2009


(Ainda energizado pela deliciosa ciranda, de ontem à noite, na Praça da Igreja da Várzea.)


Para ver mais fotos da celebração clique na imagem:



Estarei entre os brincantes, sambando côco, de boina, calça marrom e camisa vermelha, nas cores do santo, ou do orixá, como queiram, sempre forrozando com a minha florzinha do Capibaribe:




Mais fotos da festa, clique aqui: http://floresdocapibaribe.blogspot.com/


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sexta-feira, junho 12, 2009

DOR, AQUÉM DO BOJADOR (um clamor no Quinto Império)

























I – A Travessia


Um estranho olhar crepuscular,
Volveu-se àquele antigo novo mundo.
E fez-se o homem ao mar,
Ao imenso mar,
à luz azul, índigo azul, de um céu profundo,

O leme aponta a rota pr’acolá...
O vento empuxa as velas,
Um zéfiro insufla o ar.

Se há algum nexo no mar,
Ante as borrascas,
Se essa nau menear nas vagas altas
E a saudade singrar pr’além da dor...
Todo o nexo que há,
deixo aos cartógrafos,
aos nautas que souberam dos peligros
E aos que avançaram empós
do Bojador.















II – A Chegada


Sopram frautas na floresta,
Mas, não há faunos por cá?
‘Stão nuas as rap’rigas,
Com as desonras à mostra
Mas, ninfas, tampouco, as há.

Há iaras, sete-estrêlos,
Pai-da-mata, m’boitatá,
Rubra tinta da madeira
Caju, fruta-guaraná.
Papagaios, capivaras,
Boas eiras, águas claras;
em se lavrando, tudo dá.






















III – A Invasão


Fincaram u’a cruz bem alta...

Se era do Cristo ou de Malta,
Por que trazia a má sorte,
Doenças terríveis, morte,
Se era do bem o fanal?

Será que valeu a pena,
Ter cruzado o Bojador?
Valeu o imenso pecado,
Que tiveste perdoado,
Abaixo do Equador?

Nem tudo valeu a pena,
Pois tu'alma, tão pequena,
Nos causou tão grande mal.
E te devolvo a pergunta,
Tua mística pergunta,
Antiqüíssima e ancestral:

Quantas lágrimas foram nossas
Pra fazer teu mar de sal?

Fecha a porta desses mares!
Jamais navegue essa nau.
Tua flâmula é da vergonha,
Genocida e anti-vital.

E em que hora tão medonha nos tornamos Portugal.



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Imagens do Google.


Fonte da mid:
http://www.saturn-soft.net/Music/Music1/MIDI/Classic2/DebussyFaune.mid



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sexta-feira, maio 29, 2009

Aurora brasílica (lenda junguiana)


imagens google

*
Eis a alva!
Mãe de antemanhã.
O Sol
era uma fruta madura
que respingava reflexos de ouro
sobre a pele verde da mata espessa.

Brilhava a aurora luminosa!
E o húmus guardava as raízes da vida.
*

Ao contemplá-la, assim,
desnuda e sem véus,
sinto aflorar em mim, a emoção mais longínqua.
Oiço, bem dentro, num sussurro de milênios,
u'alma feminina e ancestral.
*
Havia um ermo anterior,
antes mesmo que aqui aportassem
as naus dos povos do crepúsculo.
Guardo, nos meus cromossomos,
essa arqueologia remotíssima,
de vozes, de gestos,
de construções de sentido.
As percepções das gentes aurorais.

Sim, eis a alvorada,
mítica mãe de um Mundo imemorial!

Do ventre dessa terra prometida
eclodiam seres aquáticos...
Não haviam as paredes de então.
Nem essas babélicas edificações.
O Sol
andava em Peixes...
E havia apenas manhã.
Alva e fêmea.
Era mãe e mulher.
Nela eu estive ab origine.
Ali eu estava de pé!
***

sábado, maio 02, 2009

Des/Construção Civil (uma elegia pós-moderna)




















É público e notório
Que os bebês já trazem no genoma
A vulnerabilidade ao irreversível coma...

Mas Ela cobria-me de mimos
E recitava-me o anjo da minha guarda
Antes de eu dormir
Me fez amar os clássicos infantis.
Acalentou-me com Esopo e La Fontaine.
Condicionou-me a ler Perrault,
E os Irmãos Grimm.
Abriu-me pra amplidão de Lewis Carrol...
Tinha o fascinante dom de me induzir.
Ela é, hoje,
Essa ternura ingênua que há em mim.

Ele mostrou-me a régua e o compasso,
Situou-me, geometricamente, no espaço,
E, se eu não fosse esse pêndulo
Que gravita em descompassos,
Talvez até herdasse seu avental iniciático.

Mas, cedo descobri a lua,
A rua,
E a moça nua...
E esse código secreto e cabalístico
Com que vos surpreendo.
E cedo abandonei os velhos alicerces:
Poesia não tem paredes
Nem carece.
A ventania vai aonde lhe apetece...

Tornei-me pássaro
Pra meu bem e pra meu mal.
E habito em lar instável e virtual.
Dizem que
“passarinho que vive em bambuzal
constrói seu frágil ninho no vendaval”

Pássaro, agora não sei mais de mim
Ora, vôo às palavras ,
Ora, adejo às coisas...
Sou mesmo um pêndulo que oscila
Entre Foucault e Hölderlin;
Um ente coagido e controlado
Com andaimes, feito um prédio inacabado.
Essa coisa que não se vê
E nem se sustenta sobre vigas-mestras
Essa coisa sem utilidade
E sem arestas.

O que erigiram em mim?

Mas Ela ainda me quer numa redoma.
E Ele me alerta dos cuidados com o glaucoma.
Queriam que eu estivesse protegido
Das crendices
Da influenza
Do homem-bomba.

Inutilmente, Eles fingem não saber
Que esses tapumes obliterando a realidade
Escondem apenas a dor da finitude.

(Como esconder-se desse entrópico linfoma?)

É consabido, e ninguém mais se ilude,
Que os bebês já trazem no genoma
A vulnerabilidade ao irreversível coma.


Fonte da imagem:
http://oglobo.globo.com/mundo/mat/2007/09/10/297671312.asp



terça-feira, abril 07, 2009

O Arco da Rabeca (litania d'Olinda)


















Quem diria...
O arco da minha rabeca é árabe.
Mas nós é que inventamos os desertos
Os hamburgueres,
E as calamidades.

Deus! quanto é vã nossa modernidade.
Perfunctória e fútil, eis a verdade.
Essa fuligem é tão mórbida
Quanto a obesidade.

Havia um coqueiral na praia.
Algumas casas.

Um farol.
E o que agora encontro é a Realidade.
Nem peixes.
Nem tarrafas.
Nem anzóis.

Deus! quanto é vã nossa civilidade.
E quando o tempo nos tirar o véu,
Pode ser tarde.

O arco da minha rabeca é árabe.

Mas nós já temos a indústria.
E o forno arde.
Novos desertos surgem ao cair da tarde.
O mar avança
E alcança
a nossa vaidade.

Deus! quanto é vã a nossa ansiedade.

Entanto, indiferentes,
Erguemos túmulos litorâneos
E os batizamos:
Cidades.

...mas descobri, enfim,
que o arco da minha rabeca é árabe.


Quem diria...
O arco da minha rabeca é árabe.


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Eurico
(poema dito com mais clareza)





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