Uma Epígrafe



"...Quanto à poesia, parece condenada a dizer apenas aqueles resíduos de paisagem, de memória e de sonho que a indústria cultural ainda não conseguiu manipular para vender."...[Alfredo Bosi, in O Ser e o Tempo da Poesia, p. 133]

Mostrando postagens com marcador euclydes da cunha. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador euclydes da cunha. Mostrar todas as postagens

terça-feira, agosto 18, 2009

Alcácer-quibir revisitada


















Uma monocromia armorial
dedicada a Dom Ariano Villar Suassuna



Vermelhidões no poente,
céu sangüíneo, incandescente.
Da porfia oiço o alarido:

Rezas,
.......rajadas,
...............rugidos.

sonho um sonho mal dormido:
de morte, em luta renhida,
foi Dom Sebastião malferido?

Feito de sonho é o que vejo:
estranhos carros de fogo
cruzam os céus sertanejos.
Ungem de luz a caatinga
Essas flamejantes bigas.
Vermelhidões no poente:
Seriam sarças ardentes?

Nos sertões os céus tão rubros:
sangue na chã de Canudos?

Ao longe oiço estampidos:
raios,
......trovões
............. e gemidos...

Vermelhidões no poente
rumores de gado e gente
clamor do sangue inocente:
hereges sangrando os crentes?

sonho um sonho mal dormido:
de morte,( ouço o rugido)
foi o Prinspe atingido?...

Vermelhidões no poente:
crepúsculo enceguecente,
E, em estranho disco de fogo,
vejo Dom Sebastião soerguido...

Eurico

Fonte do texto:
meu inédito, Ser/tão profundo - Mangue interior,



Fonte imagem:Batalha de Alcácer-quibir

segunda-feira, agosto 17, 2009

Canudos às avessas...




















Numa época de engajamento em política estudantil, e de literatura com propósitos ideológicos, escrevi o poema que abaixo transcrevo, e que foi baseado numa observação feita por Ariano Suassuna, na qual ele vaticinava que as grandes favelas urbanas estão sitiando as cidades brasileiras, quase num Canudos às avessas:

CIDADE SITIADA



"Cai o orvalho na face do escravo,
Cai o orvalho da face do algoz
Cresce, cresce seara vermelha
Cresce, cresce vingança feroz”
................(Castro Alves)
 


Sobre as colinas ao teu redor
O ódio cresce
E te espreitam as tuas vítimas,
Enquanto danças na orgia
Do selvagem capital
Te embriaga o vinhoto
O CO2
A fumaça.
Tocaiam os enjeitados: negros, mulheres, crianças...
― Tu danças e o tempo passa...
o tempo passa e tu danças...―

Breve, a cruenta vingança
Dos operários famintos,
Das putas mais sifilíticas,
Dos trombadinhas lanzudos
(descenderão de Canudos?)

Breve, ó mãe dos burgueses ricos,
Uma legião de nanicos
Vinda do alto-sertão
Fará a grande invasão:
Desce o Arraial dos Palmares
Que agora habita nos morros de tua periferia,
Desempregados e loucos (já escuto seus gritos roucos!),
Os quilombolas modernos,
Zumbis saídos dos mangues ― sem-terras vindos do inferno
Virão ceifar-te com sangue,
Armados até os dentes: enxadas e picaretas,
Peixeiras e canivetes
Foice e martelo...marrêtas.
Saquearão teus mercados, teus bancos, tuas mansões,
Farão trincheiras em teus templos, alucinados de fé
E enlouquecidos de fome derribarão teus quartéis.
..................................................
Um Condor gritou nas praças.
É tempo de ouvir sua voz:
Se calas a voz do povo...

―POETAS, GRITEM POR NÓS!




@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@

Eurico
(poema-vaticínio de 1988,
1º Lugar em Concurso Literário da Faculdade de Filosofia do Recife)

Fonte do texto:
O meu, ainda inédito, livro Ser/tão profundo - Mangue interior.

Fonte da imagem:


@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@

domingo, agosto 16, 2009

SER/TÃO PROFUNDO (reedição de poema)


A Euclydes da Cunha
Deve habitar em mim, inserta,
uma geografia euclydeana: sylva horrida.
Insolações recrestando capoeiras, dias imóveis,
cactos brasis, e a erosão eólia da planície;
Um sertão que me perpassa, paragem desolada,
pélago extinto e sem água...
Uma estrada poenta e causticante.
Caatingas estonadas e a secura extrema dos ares.


Não há lu(g)ar, pungente ou não, como esse de meu ser,
tão raro lume,
arquivado num olhar imaginário...
Alimária quase extinta, ruminando por monótono horizonte,
deambulo, vulto arcaico,
pelas dunas de um pérpetuo mar lunário...

Minh’alma roça a flora estiolada e as areias exsicadas do deserto.
(répteis, sutis, escondem-se nos desvãos das pedras...)
A cidade mais próxima fica a léguas de mim
e em vão procuro um juazeiro, em cuja sombra me proteja Deus
dessa flor única e intensamente rubra,
que cauteriza o céu com suas pét’las de (ultra)violeta incendiária.

Eu também saio de mim à mesma hora
a cumprir órbitas automáticas e iguais,
em meio à solidão sem língua ou nexo.
Caminho sem gibão e sem certeza
se é a vida essa vereda, solamente
um sertão n’alma nômade, silente,
retirada de sítios ancestrais.

Ereto na planura alvinitente
revelando a solitária flor,
Sou um mandacaru despido que resiste.

Ser tão profundo.
Endógeno sertão.

Essa impossibilidade de alçar vôo.
Casulo ôco e imponderável de mariposa natimorta.

Em qualquer parte de mim dardejam rádios espinescentes
e há a mesma aridez dos areais,
charcos ressecos, leitos de rios evaporados...
Léxicos de sequidão também euclydeanos.
Eu mesmo um ser tão só... verbo desidratado,
galhada sem folhas de planta esturricada,
(in)maginando um sertão que não se vê...
Eurico
Recife, 14.03.06,
Dia da Poesia)


Meu Cristo Gótico (homenagem a Euclydes da Cunha)













“Brotará como raiz da terra sedenta;
não há n’Ele bom parecer, nem formosura;
desprezado e o último dos homens;
varão de dores, experimentado em quebrantos”.
...................................................(Isaías, 53:2-3)




E se em vez de um fraco ser, senil e esclerótico,
no limiar entre lunático e neurótico,
fosse um Elias, a ressurgir nos trópicos?
Seria apenas isso que se diz: um beato sertanejo, um místico ?
ou um Dom Quixote do sertão, um épico?
Um infeliz Quasímodo matuto, cômico e simiesco?
Ou um Judas redivivo, em purgatório, escorraçado e dantesco?

Mas, quando o contemplava, estendido nessa foto euclydeana,
Lembrou-me um santo, macerado e só:

um Cristo gótico,
Que o Estado homicida trouxe a óbito,
mas que ressurgirá dentro do mito.
Está escrito.
De Dom Sebastião já oiço o grito...


***




(a foto que inspirou o poema foi feita in loco, por Euclydes da Cunha;

o cadáver é do beato Antonio Conselheiro)



Eurico

2008


@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@




Para não perder a oportunidade de falar de amor fraternal,
nessa triste data em que, há exatos 100 anos, sepultamos o escritor Euclydes da Cunha, ele que sonhava com a fraternidade universal, através das idéias do Positivismo, leiamos um fragmento que colhi no google:



Amor, ordem, progresso



"(...)As duas palavras de nossa bandeira, ‘ordem’ e ‘progresso’, são de inspiração positivista. Mas, à semelhança do lema dos inconfidentes, ainda presente nas bandeiras de Minas Gerais e do Acre, não são uma citação fiel ao original.
Com efeito, Augusto Comte resumiu sua doutrina de modo diferente na primeira edição de seu Catecismo positivista: ‘O Amor por princípio, a Ordem por base e o Progresso por fim’. As três palavras, fundamentos de seu sistema filosófico, foram escritas com iniciais maiúsculas.
Mais tarde, o autor deu nova redação ao lema, que ficou assim: ‘O Amor por princípio, e a Ordem por base; o Progresso por fim’.

Hoje lembramos que a omissão do amor no lema inscrito na Bandeira Nacional é sintoma de desordem e atraso. Quem leu Os sertões, de Euclydes da Cunha, sabe que os republicanos não o excluíram apenas da bandeira. A violência segue vitoriosa. Em Canudos alcançou seu apogeu.(...)"




Fonte do texto:


Deonísio da Silva

copyright Jornal do Brasil, 2/08/04




@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@


Pode ser algo de pouca monta, mas o Euclydes, assinava com "y", como se lê na imagem abaixo, e, creio, não se deve mudar o nome desse genial escritor:



Fonte da assinatura:
http://www.releituras.com/edacunha_bio.asp

terça-feira, junho 10, 2008

SER/TÃO PROFUNDO


A Euclydes da Cunha
Deve habitar em mim, inserta,
uma geografia euclydeana: sylva horrida.
Insolações recrestando capoeiras, dias imóveis,
cactos brasis, e a erosão eólia da planície;
Um sertão que me perpassa, paragem desolada,
pélago extinto e sem água...
Uma estrada poenta e causticante.
Caatingas estonadas e a secura extrema dos ares.


Não há lu(g)ar, pungente ou não, como esse de meu ser,
tão raro lume,
arquivado num olhar imaginário...
Alimária quase extinta, ruminando por monótono horizonte,
deambulo, vulto arcaico,
pelas dunas de um pérpetuo mar lunário...

Minh’alma roça a flora estiolada e as areias exsicadas do deserto.
(répteis, sutis, escondem-se nos desvãos das pedras...)
A cidade mais próxima fica a léguas de mim
e em vão procuro um juazeiro, em cuja sombra me proteja Deus
dessa flor única e intensamente rubra,
que cauteriza o céu com suas pét’las de (ultra)violeta incendiária.

Eu também saio de mim à mesma hora
a cumprir órbitas automáticas e iguais,
em meio à solidão sem língua ou nexo.
Caminho sem gibão e sem certeza
se é a vida essa vereda, solamente
um sertão n’alma nômade, silente,
retirada de sítios ancestrais.

Ereto na planura alvinitente
revelando a solitária flor,
Sou um mandacaru despido que resiste.

Ser tão profundo.
Endógeno sertão.

Essa impossibilidade de alçar vôo.
Casulo ôco e imponderável de mariposa natimorta.

Em qualquer parte de mim dardejam rádios espinescentes
e há a mesma aridez dos areais,
charcos ressecos, leitos de rios evaporados...
Léxicos de sequidão também euclydeanos.
Eu mesmo um ser tão só... verbo desidratado,
galhada sem folhas de planta esturricada,
(in)maginando um sertão que não se vê...
(Recife, 14.03.06,
Dia da Poesia)


terça-feira, fevereiro 19, 2008

Meu Cristo Gótico





“Brotará como raiz da terra sedenta;
não há n’Ele bom parecer, nem formosura;
desprezado e o último dos homens;
varão de dores, experimentado em quebrantos”.
(Isaías, 53:2-3)




E se em vez de um fraco ser, senil e esclerótico,
no limiar entre lunático e neurótico,
fosse o próprio Cristo a ressurgir nos trópicos?
Seria apenas isso que se diz: um beato sertanejo, um místico ?
ou um Dom Quixote do sertão, um épico?
Um infeliz Quasímodo matuto, cômico e simiesco?
Ou um Judas redivivo, em purgatório, escorraçado e dantesco?
Mas quando o contemplava, estendido nessa foto euclydeana,
Lembrou-me um santo, macerado e só:
Meu Cristo gótico,
Que o Estado homicida trouxe a óbito,
mas que ressurgirá dentro do mito.
Está escrito.
De Dom Sebastião já oiço o grito...
***
(a foto que inspirou o poema é de Euclydes da Cunha;
o cadáver é de Antonio Conselheiro)
Eurico
2008

quarta-feira, maio 30, 2007

ALCÁCER-QUIBIR revisitada


Uma monocromia armorial
dedicada a Dom Ariano Villar Suassuna







Vermelhidões no poente,
céu sangüíneo, incandescente.
Da porfia oiço o alarido:

Rezas,
.......rajadas,
...............rugidos.

sonho um sonho mal dormido:
de morte, em luta renhida,
foi Dom Sebastião malferido?

Feito de sonho é o que vejo:
estranhos carros de fogo
cruzam os céus sertanejos.
Ungem de luz a caatinga
Essas flamejantes bigas.
Vermelhidões no poente:
Seriam sarças ardentes?

Nos sertões os céus tão rubros:
sangue na chã de Canudos?

Ao longe oiço estampidos:
raios,
......trovões
............. e gemidos...

Vermelhidões no poente
rumores de gado e gente
clamor do sangue inocente:
hereges sangrando os crentes?

sonho um sonho mal dormido:
de morte,( ouço o rugido)
foi o Prinspe atingido?...

Vermelhidões no poente:
crepúsculo enceguecente,
E em estranho carro de fogo
Dom Sebastião soerguido...


Eurico