
Ave maldita,
ave sem plumas.
Feiúra cabralinamente bela
:
asas pardacentas sob um céu aberto e azul.
Em ninhos de miséria e maresia
sob pontes e marquises,
a eclosão famélica de infantes e pardais;
Agora, o ar irrespirável do rio moribundo
:
O bairro antigo e sem vida.
Os arrabaldes com nomes de engenhos de fogo morto.
E essa aristocracia decadente e depressiva.
Um lastimável niilismo.
Crepúsculo dos ídolos
e dos jovens em queda livre
do alto do prédio das Ciências Humanas.
Poetas marginais com cirrose...
Com overdose.
O estreito beco da fome, da sede...
e da morte...
Embora, um fim de tarde em mar azul e transitório...
na exatidão aquática dos versos,
azuladamente, o mar,
miragem cianótica;
azuladamente, amar
em porto provisório...
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Eurico
(fotopoema estático e sem data)
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Fonte da img.:
moreda.files.wordpress.com/2007/03/recife-ceu-azul.jpg
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15 comentários:
a beleza aqui é cert. mesmo assim em sofrimentos sobre a cidade cianótica, vida e morte, fogo rio morto, tudo transitório, até os poetas. Doeu ler, terá doído ao escrever.
Abraço.
Mozart também sofreu pra compor essa bela missa...Mas "o poeta é um fingidor, consegue fingir que é dor a dor que deveras sente..."
Abraço fraterno, amigo Dauri, meu irmão das letras.
Esta citação é do Fernando Pessoa? Bom...seja de quem for, esta repleta de razão, as vezes para escrever é necessário entrar num mundo que as vezes nem é mesmo seu...que seja transit´ria sempre toda a dor, mesmo não sendo nossa...grande abraço...valeu a visita...
Sim Elcio, é do Pessoa, no poema Autopsicografia. Aqui há ecos de diversos vates: João Cabral, Drummond, Pessoa e, especialmente do poeta azul, o recifense Carlos Pena Filho.
Abraçamigo e fraterno.
Letras que me fazem tremer, refletir, sentir e me perguntar qual é minha contribuição para sair desse círculo depressor.
Que poemaço rapaz!
Beijos
Grato, Jacinta. Muito grato. Entendo a tua empatia e isso já me faz reflorescer...
Seu blog não se parece com nada que eu tenha visto anteriormente, que bom!
Palavras cortantes como navalha que leva a reflexão profunda, é tudo de que precisamos,
saudações,
Uma visão de Recife, sem oxigênio, sem vitalidade. Decadência. Até na poesia...Mas, sempre há o mar azul que, numa das suas marés, pode refazer o berço dos que decaíram.
Eu não conheço Recife e fiquei perplexa com essa descrição...Imaginava uma outra, digamos, mais sadia...
Beijos, poeta.
Dora
Dorita, talvez as lentes embaçadas dos meus óculos vejam essa cidade como sendo antivital e antipoética. Há outros Recifes por aqui, sim. No entanto, há sim esse que aqui descrevo.Temos perdido muitos jovens poetas, que sucumbem diante do ácool e de outras drogas, fazendo pose de artistas e se consumindo no tédio e no vício. É preciso separar a arte do estereótipo do porra-louca. Prefiro os mineirinhos que nem o Drummond, vida pacata, sem sobressaltos, mas a alma em ebulição.
Beijos.
Poeta, poeta!
Que poema cortante! Esta visão cianótica não seria a saudade lancinante de um certo sítio?
Mas não há como deixar de dizer: apesar da dor, existe a mais pura poesia!
Beijo!
Obrigado, Lobamiga, por elogiar esse poema da boca suja. É preciso dizer essas coisas, por que nós, os habitantes das cidades riberinhas, matamos os rios, excluímos nossas crianças, ou seja, cometemos pequenos infanticídios, e depois nos lamentamos de que os jovens estejam apáticos, sem ideais...
Esse poema deve sim, nos ferir, ferir a nossos contemporâneos. Que cidades deixaremos para os nossos netos?
Ah...o sítio do meu compadre Carlinhos. Faz tempo que não vou por lá. Mas já está sendo contaminado: mataram uma menina carnaval passado, entre as árvores frondosas. Estupro seguido de morte. Pode? Em pleno sítio histórico d'Olinda?
Muita paz, Lobamiga.
Abraçamigo e beijo nos netinhos.
Pois é, compadre, apesar de que prefiro o Recife mítico, o do poema Mitopoese: o Unicórnio, de um post antigo daqui, a essa cidade agonizante, nesse poema sem verbos e sem vida.
Apareça no Sítio d'Olinda. Lá tem água fresca e sombra. Vão te fazer bem...rsrsrs
Abração!
Ei Eurico,
estou passando para desejar um final de semana com muita poesia. Também é para dizer que gostei do comentário que vc deixou. Menino, a imagem que tenho do sermão da montanha é qualquer coisa assim de...mágico.
Jesus, sempre falando do hoje, do viver o passo quando esse está sendo. Isso é lindo.
Abração
Pois é, compadre, eu também prefiro as matrizes míticas da realidade à realidade em si, crua e sem véus, mas...ela é o que encontramos de imediato, é a nossa circunstância e "se não salvamos a ela não salvamos a nós", dizia Ortega y Gasset. O poema que falas agora tem um marcador aqui. Basta clicar em mitopoese.
Abraço fraterno.
Breve apareço lá no Sítio.
Olá Eurico, obrigada pela visita. Gostei imenso de tudo o que li e vi aqui. Textos e imagens garimpados, diamantes de maior quilate.
E escolhí teu especial poema, porque também a mim, a cianose dessa mátria-terra também aflige. Foi bom esse encontro. Não te perderei de vista.
Abraços-mamelucos....
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