
...a noite, ou o signo da noite,
esse envoltório, invisível e volátil,
cinge as coisas em derredor...
...nada faz sentido sem o envoltório
in(di)visível da palavra.
Nada.
Nem a escuridão da noite.
Nem mesmo a fugaz antemanhã...
...jamais serão pardos os telhados
dos pardieiros, sem o anúncio das gentes.
E o que dizem as gentes dos telhados pardos?
Dão vivas à revoada das aves na alva?
Ou aborrecem o arrebol,
esse vocábulo em que lucilam sombras?
Os pardos.
Os pardieiros.
E os padeiros.
Eis os que se insurgem contra as trevas,
a dividir o pão nas entrelinhas da madrugada,
grávida do dia-na-noite.
Eis os que despertam quais perdidos pardais....no impreciso Dilúculo.
Lê-se essa palavra (in)pávida,
claro-escuro,
lusco-fusco...
Bela,
enquanto bruxuleia
nas estepes do terrunho dicionário
em que hão de vir pascer os rebanhos da aurora.
Amanhece...
A palavra aflora, agora?
Ou passa a impressão
de quase manhã...

Fonte das imagens:
1) Vincent Van Gogh - Noite
http://sunsite.utk.edu/FINS/Knowledge_Organization/gogh-1.jpg
2) Claude Monet - Impressão, Sol Nascente, 1872
http://br.geocities.com/maritp31/monetsol.jpg
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8 comentários:
Cada palavra no seu lugar, cada som, cada cor. Impressões que ficam, sem dúvida, no coração de quem lê. E as estepes, não as do dicionário, mas as da alma, se iluminam de um clarão.
Abraço.
Excelente!
Brincadeira?
Beleza poética, poeta-puro.
Abraços.
Meu Deus!
fico aqui, apreciando sua arte, admirando sua entrega, sua intimidade com a palavra. Bonito de ver. Bonito de sentir.
Abração
Que poema, hein?
Depois de lê-lo, só me resta desejar firme que pardos e pardieiros tenham cada vez mais direito, não apenas ao dilúculo, mas a todas as tardes, noites e vidas!
Beijo, poeta!
É que o amanhecer precisa amanhecer.
Cadinho RoCo
A generosidade de vcs, amigos, Dauri, Mai, Jacinta, Loba e Cadinho, me proporciona esses afagos virtuais, motivo, talvez, para que eu continue a cometer esses poemas.
Dauri: vc se tem iluminado com sua peregrinação xamânica, seu caminho de Santiago feito em poemas!
Mai: vc é a poeta mais pura que tenho lido no momento. Vc é a novidade para os meus sentidos de poeta. Vc e o Dauri. Ah...mas há uma brincadeira com o Aurélio, isso há. rsrsrs Com o Aurélio e com o dicionário do Word. É maravilhos. Ele é quase um poeta! Basta ajudá-lo. Esse Word é demais. rsrsrs
Jacinta, blogueira com nome de flor e dona de um oásis chamado Florescer: desde os 10 ou 12 anos que me entrego à Palavra. Não tenho outro mérito do que essa entrega de 4 décadas. Grato.
Lobíssima: é isso mesmo. Há o desejo de um amanhecer para todos, principalmente para quem divide o pão fraternamente, seja rico ou pobre, índio ou crioulo. Mas vc me conhece demais, minha Lobamiga.
Cadinho: grato pela tua visita. Vo já lá te ler. Abraçamigo.
Eurico, voltei prá agradecer a tua adesão ao Inspirar.
És um exagerado.
Mas agradeço-te o incentivo.
Carinho.
Mai, alguém disse (acho que foi o Vergílio Ferreira, não lembro bem) que diante de uma obra de arte o sujeito só tem duas atitudes possíveis, que independem de gosto ou de nível de leitura: a adesão ou a não-adesão.
Portanto ao aderir ao teu estilo, ou seja, me identificar com ele, obedeço a algo muito mais forte e profundo do que o que dizem os meus sinceros, mas humildes elogios. Aderi ao teu texto, como ao de Dauri, ao estilo leve e solto, mas não menos belo da fraseologia da Loba, ao lirismo-reflexivo da Dora Vilela e ao texto incendiário do Luís Eustáquio Soares. Fazer o quê?
Aderi e pronto! rsrsrs
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