
Sei de uma criatura antiga e formidável,
Que a si mesma devora os membros e as entranhas
Com a sofreguidão da fome insaciável.
Habita juntamente os vales e as montanhas;
E no mar, que se rasga, à maneira de abismo,
Espreguiça-se toda em convulsões estranhas.
Traz impresso na fronte o obscuro despotismo;
Cada olhar que despede, acerbo e mavioso,
Parece uma expansão de amor e de egoísmo.
Friamente contempla o desespero e o gozo,
Gosta do colibri, como gosta do verme,
E cinge ao coração o belo e o monstruoso.
Para ela o chacal é, como a rola, inerme;
E caminha na terra imperturbável, como
Pelo vasto areal um vasto paquiderme.
Na árvore que rebenta o seu primeiro gomo
Vem a folha, que lento e lento se desdobra,
Depois a flor, depois o suspirado pomo.
Pois essa criatura está em toda a obra:
Cresta o seio da flor e corrompe-lhe o fruto;
E é nesse destruir que as suas forças dobra.
Ama de igual amor o poluto e o impoluto;
Começa e recomeça uma perpétua lida,
E sorrindo obedece ao divino estatuto.
Tu dirás que é a Morte; eu direi que é a Vida.
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Taí, Rosimeri Sirnes, um poema de teu conterrâneo,
só pra te mostrar a punjança desse incomparável vate,
em cujo estro a Língua-Mátria se engrandece.
Quem sou eu, menina, diante desse Mestre?
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Fonte da mid: (do tb conterrâneo da Rosi, Gonzaga Jr.)
http://www.belasmidis.com/Nacional/Gonzaguinha/OQueEOQueE.mid
Fonte da imagem:
http://luaafricana.blogspot.com/2007_09_01_archive.html
Fonte do texto:
http://www.antoniomiranda.com.br/Brasilsempre/machado_de_assis.html
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18 comentários:
Adoro Machado! Ah! Dá uma passadinha no meu blog, tem uma homenagem a você e ao seu lirismo doce e cadente(rs). Beijos
Magnífico. E gostei pensar sobre a questão de morte e vida para um mesmo fato ou momento.
Uma boa dica a programação do domingo, vou tentar me organizar com minha filha e se for o caso te ligo.
E o festival da seresta, está animado?
beijos para você e Kelly.
Realmente isso é coisa de um mestre...Este é com certeza um daqueles poemas que diezemos que foi escrito com P maiúsculo...
Salve Machado de Assis e todos aqueles que adimiram o trabalho deste colosso da nossa literatura.
Abraços.
Eurico. Volto aqui para comentar seu post.
Só vim lhe contar que dediquei um texto a você, lá no Pretensos.
Beijos.
Dora
Eurico. Belo poema, sim! A vida parece sinônimo de morte e não o seu antônimo! Porque, se a gente coloca o pensamento forte na visão da realidade, vai percebendo, que cada minuto vivido, é "um a menos" para o encontro fatídico...Morte e vida caminham juntas. Uma cede terreno à outra, devagarinho, para que os viventes nem percebam.
E Machado filosofa em Poesia,
sobre essa enganosa aparência: a morte se veste de vida. Os frutos doces e rubros de uma macieira são o retrato da vitalidade. Passe, ao pé dessa árvore, algum tempo depois, e sentirá o odor da podridão e o acre rastro das frutas murchas e enrugadas. A aniquilação chega e usurpa a idéia inicial...
Sabemos disso. Todos nós. Mas, escrever com esse estilo é saber enganar a morte. Machado fez isso. Está aqui, vivo em nossa conversa...
Beijos.
Dora
Belo post. É sempre bom ler os clássicos, como disse Calvino.
Um forte abraco.
Vim de passear pela blogosfera, e trago um ego enorme, um "egão", todo lampeiro das homenagens que recebi da Dora Vilela e da Rosimeri Sirnes.
Quem é que não gosta de carinho?
Eu gosto, e, apesar de estar lutando contra o apego a certos "teres e haveres", buscando eliminar certas ilusões do ego, não pude resistir a uma pontinha de vaidade! rsrsrs
Fazer o quê. Humano, sou!
Só quero agradecer mais uma vez, a essas duas irmãs dessa mesma confraria de poetas, pela homenagem, que é fruta doce e saborosa, saída de dois corações generosos por demais.
Abraçamigo e fraterno.
Saúde e paz!
E agora? Eu vou dizer o quê? Duma lapada só, encontro: Machado, Eu-ri-lí-(ri)co e a Dora? Que ousada criatura eu seria, se dissesse uma cousa que seja aqui nesse espaço de pura e aplicada poesia?
Mas um abraço fraterno de grande alegria eu posso deixar, não posso?
;)
SEja bem-vinda, vizinha d'além mar! Abanque-se sob a sombra dessa árvore que eu trouxe de África e descanse as pestanas queimadas pelas leituras para as teses doutorais...
Abraçamigo e fraterno.
salve, querido poeta, que o igual amor à esquerda e à direita, é desigual amor, iso é, é morte no lugar da criação; é é submissão no lugar da liberação; é roubo no lugar da cooperação é da comum distribuição.
meuabraço,
luis de la mancha.
http://max-etnias.blogspot.com/
Vizinho, trouxe algo para ti... Uma beleza só!
Obrigada pelos desejos, votos, carinho e vamos escrevendo, pq escrever é preciso (?), viver nao (plagiando o poeta).
Domingo feliz!
;)
Eurico: Sou um leitor do blog da Rose, como ela escreveu um texto em sua homenagem, resolvi conferir o seu trabalho, o qual achei bom e de fato acima da média dos blogs que publicam poesia, inclusive do meu.
A terceira estrofe de fato resume bem a obra do Machadão, Parabéns!
Grato, Fernando. A Rosimeri foi muito generosa comigo. Jamais vou poder agradecer-lhe a postagem que fez em homenagem desse poeta bissexto e menor.
Abraço fraterno.
querido eurico, agradeço a presença, sempre sutil e inteligente, poeticamente. aproveito pra saber se chegou a ler o imeio q te enviei, falando um pouco dos pés...
meuabraço,
luis de la mancha.
Luís,
Não li, mas vou lá ver se acho.
Abraço.
Oi, amigo.
Belo, imensamente belo e faz pensar...Te dizer que parei e lembrei do poema de Goular e tudo é mesmo uma questão de vida e morte.
Isto é ARTE, querido. Arte!
Recebe meu abraço,
Mai
Oi amigo Eurico,
Um Machado cortante, emocionante! E essa bela paisagem,
sublime!
Abs,
Machado visto pelo teu ângulo é de tirar o fôlego, Eurico. A gente viaja na influência do Bruxo do Cosme Velho na tua escrita.
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