
Conversão de São Paulo - Caravaggio
Se o Bom Deus existir
Que me perdoe a incerteza.
Que me perdoe o olhar epidérmico sobre as coisas.
Mesmo sobre aquelas impregnadas de amplidão.
Perdoe-me, Bom Deus,
Não consigo a audição do ultrafânico.
Mal escuto o arrulhar dos arroios
E essas reverberações de seixos lançados n’água.
Tenho de admitir que tateio, apenas tateio,
Entre as alusões da exegese
E as ilusões dos conceitos.
O que serei, então?
Uma elisão, talvez.
Tirante o que me fizeram ser,
Suspeito que sou nada.
Mas, dá-me a impressão de que existes, Bom Deus,
Quando me sinto escondido nas grutas;
Quando estremeço diante da morte,
Essa predadora absurda e voraz.
Nessas horas sobrevoam-me pterodátilos.
De algum modo os percebo.
(Quase que palpo suas garras sinistras)
É com essa visão que os vejo,
Que te busco, Senhor.
É através desse olho cravado no centro de mim,
(O olho disso que chamo de imaginário),
Que me escapa essa furtiva lágrima,
jamais revelada aos meus contemporâneos.
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Eurico
(sou nada, mas tenho em mim
todos os sonhos do mundo... Fernando Pessoa)
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3 comentários:
Eurico,
com as Sonatas para o Dr.Alzheimer você nos preparou para a série de poemas de deixar o queixo caído diante de tanta beleza! Estas litanias, então, são de me deixar sem fôlego. E por falar em fôlego, haja para tanta criatividade!
Parabéns, amigo!
Abraço.
Eu também,Eurico penso igual ao poeta. Obrigada por sua visita ao blog, me envaidece.:)
Fiz uma homenagem a Ti, já que amas ao poeta carioca.
Abrs.
salve, querido poeta, que o niilismo é essa afetidade sem deus, quase-laica, porque tem saudade da transcendência, ainda que desacredita delas, o que, aqui e ali, por absurdo que pareça, pode ser utópico.
meuabraço,
luis
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