
Debruçava-me sobre os versos,
Os olhos marejados, a alma aflita.
Cresci.
Não choro mais, por conta de artifícios;
Os mesmos artifícios com que construo os versos.
E ando a aconselhar aos meus parcos ledores
(que, nesses tempos loucos, nem mais se lê poesia...)
Para não chorarem por conta de meus versos.
As dores que invento nem são dores.
São coisas fictícias, a alma é de papel,
Saudades fabricadas, ais que eu nunca disse.
O que me importa mesmo é o jogo,
O ofício de iludir,
o mero roçar das falanges na caneta, vício adquirido desde cedo;
e o arrastar da mão na página em branco.
Não há pesares, insisto.
Não há dores.
São todas falsas penas,
mágoas fingidas.
Tudo medido, premeditado:
Cada palavra, cada vírgula,
cada gemido, pré-fabricado em moldes de gesso.
Todo sentir aqui é artifício, é falso.
O que persigo (e, nisso, eu sou sincero)
É essa beleza plástica, essa harmonia,
Esse ritmo interior das elegias
em que um poeta engendra as dores
que ainda deixam úmidos os meus olhos de menino...
Eurico
30/10/1997
Um comentário:
Em meio à cor vadia, encontrei eu-lírico, gostoso de ler, com todos os pontos e vírgulas. E,embora poeta eu não seja, concordo: o bom mesmo de se escrever "É essa beleza plástica, essa harmonia..."
Bem diz Fernando Pessoa, o poeta é um fingidor...
Gostei daqui.
Um abraço
Jacinta
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