
Agora, um mundo sem guante
e essa pele azul, diamante
sob o sol primevo:
Hagar é livre!
*
Bem sei que há fome,
e que esquálidas infantas
perambulam pelas estepes,
a fronte de ébano sob o sol.
Sei que há natimortos
e dor, muita dor.
Mas é livre Hagar !
*
E não há bem maior,
nem outro anelo,
mesmo entre abrolhos,
mesmo à deriva
maior que a vida,
é estar sem guantes,
é estar sem guantes,
é a liberdade
de andar à toa, pelas planícies,
levando a noite dentro da pele.
*
E Hagar é livre -
é livre, Hagar!
***
Eurico
Março 2008
(retomando a produção)
***
Poema dedicado a Jorge Rosmaninho
editor de Africanidades
8 comentários:
Obrigado. JR
levar a noite dentro da pele... belo poema, eurico, de ressonâncias trágicas, tais que a fome é o nome do homem, e a do estômago vazio, nosso acúmulo de mesmidade, de nós mesmos, razão pela qual só podemos mesmo levar a noite dentro da pele.
meu abraço,
luis
Lindo, lindo. Como um hino à força de viver e à liberdade.
Eurico! Eu_lírico!
e agora, o que digo?
olha, eu estive aqui ontem pra te conhecer. fiquei tão encantada com o que vc me disse (eu gosto de gente que diz o que sente) que vim correndo. mas aí... ah, aí eu descobri que não sei te comentar.
sabe o que é? tou na fase de só saber sentir a poesia. mas convidei uma amiga, poeta de verdade, pra vir tb. queria que ela comentasse primeiro pra eu plagiar e parecer inteligente, sabe como? rs...
que besteira, meu deus!!! rs... eu adorei estar aqui, viu? li tudo que está na página e o seu perfil. agora não sei do que mais gostei. gostei do homem e gostei do poeta.
e chega por hoje. volto depois. qdo estiver menos emburrecida para a poesia! rs...
beijocas
Olá, Eurico. Minha amiga Loba me chamou a atenção para seu espaço aqui...Cheguei e me encantei com o sopro de Vivaldi e lendo o primeiro texto, que é poema, maior foi meu prazer.
Não. Não sei fazer comentários se eu não sentir realmente o texto.
Mas, Hagar é um primor!
As referências todas à africanidade, a cor da pele, as planícies, a escravidão( representada na palavra "guantes") e, enfim, a a liberdade dos negros( aqui simbolizados pela descendência de Hagar, que me levou a Abraão...e me carregou à História do Antigo Testamento...).
Na repetição: Hagar é livre, é livre Hagar...há um grito que sai do peito da África, da Mãe África!Amei isso!
Muito belo seu poema.
Abraços a você.
Dora
Poeta,
talvez inspirada pelo silêncio das horas mortas ou talvez apenas pela vontade de poesia, voltei e me re-encantei. Hagar é um poema que ressoa dentro da terra de cada um de nós, como se fosse o grito que antecede o vôo. Mas o meu maior encanto está em Tessitura -
esta "teia inconsútil. Rara mas, inútil." Que beleza de imagem! Que vontade de ter mais intimidade com a linguagem poética, só pra responder a este "inútil".
Sendo apenas uma escrevinhadora de blogs, limito-me a reverenciar a sua poesia, seja ela em prosa ou verso, e a parabenizá-lo pelo bom gosto em tudo - das tessituras às cores, passando pela primavera e por vivaldi.
Obrigada pelo incentivo, pela presença, pelo carinho, tá?
Um beijo
lírico eurico, que bem sabe que há fome, nos hagares silogísticos da vida, depois de reler seu belo poema, te convido a uma outra leitura, de a fome.
meu abraço,
luis
Baaah, Eurico!
Enquanto tu não retomas tua produção visível, farto-me por aqui!
E dou graças pelo que vejo, pelo que sinto, por estas letras mágicas.
Imenso abração, três anos depois e muitos pela frente
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