Uma Epígrafe



"...Quanto à poesia, parece condenada a dizer apenas aqueles resíduos de paisagem, de memória e de sonho que a indústria cultural ainda não conseguiu manipular para vender."...[Alfredo Bosi, in O Ser e o Tempo da Poesia, p. 133]

sexta-feira, agosto 29, 2008

Ave, Palavra: um poema em prosa





(...) E te quero. Mas não te quero gênero, número ou grau. Te quero passarinhos. Assim, plural. Quero nossas asas formando triângulos no infinito das letras. Quero nossas sílabas em qualquer língua, em qualquer hiato, em qualquer entrelinha. Te quero diverso - verso ou inverso - desafinando as minhas certezas, adomingando as minhas segundas ou incendiando a minha sensatez. Mas nem sempre terei o que te dizer. Sou palavra sempre à beira do despertar. E quando não desperto, sou espanto, sou mudez, sou entretanto. Ainda assim, te quero céu, inferno ou mar, para comigo contar as estrelas, queimar em fogos de artifício ou mergulhar nos abismos da palavra.(...)


Fonte do texto:
Autora: Euza Noronha
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Fonte da img.:
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terça-feira, agosto 26, 2008

quinta-feira, agosto 21, 2008

Vigília























Espero em vão o poema que não
vem. Deixo as portas encostadas,
cochilo os meus sonhos sobressaltados,
com temores adúlteros, pecados.

Em vão espero às portas da Cidade,
no cais do porto dentro dalma, no corpo.
Em vão espero, só e esvaziado.
Gritam-me os galos, caem-me estrelas.
A madrugada espreguiça-se, esperneia.
Espera em vão, o poeta, e a lua é cheia
sobre a Cidade que dorme, erma e ôca.

Rasga o silêncio um mocho insone. Augúrio?
Alvíssaras? Quem vem lá?
Bocejam sentinelas, uivam cadelas sob
os lençóis. São alvos os lençóis sobre ela.
E em vão espera, o vate; em vão espero
o poema que não vem amanhecer-me...

Eurico
9/11/1993
(durante a leitura de Invenção de Orfeu)

Fonte da img.:

terça-feira, julho 22, 2008

Ave, Poesia! Ave, Poeta! Ave, Dora Vilela!





















E eu que ando me esfalfando a buscar nos mitemas, nos arquétipos e outras imagens do meu pobre inconsciente, o embasamento da minha parca e bissexta poesia, subitamente, recebo esse verdadeiro encontro com o numinoso, no blogue da Dora Vilela. Não resisti e trouxe comigo, para quem quiser alimento para a alma, nesse mundo tão carente de beleza. Ave, Poeta! Ave, Poesia! Ave, Dora Vilela!


Exegese


O que não existe significa a entrelinha.

E um mundo cabe aí, de mistério e crença.

O que não cabe na palavra é cabível no segredo particular.

Ninguém sabe a face interna do meu rosto que sorri,

nem mesmo eu.

Simbolizamos a vida na ação aleatória do tempo a se esvair.

Meu testemunho comunica apenas que existo na pulsão dos momentos.

Não há significado para este signo que se desenha na palavra VIDA.

autora:

Dora Vilela

Fonte do texto e da imagem:

http://pretensoscoloquios.zip.net/

quarta-feira, julho 16, 2008

Pequena Fauna Poética



Quando eu-menino ouvia

os lobos da ventania

soprando ovelhas nas nuvens.

Meu coração disparava

(me dava um medo esquisito,

seria isso um meu mito?)

e eu me abraçava, eu-menino,

a um vira-latas mofino,

que nem eu era, também,

franzino e desamparado.

E eu lhe dizia ao ouvido:

(não tenha medo Bandit,

mamãe foi ali, na feira,

papai já vem do trabalho).


*

Quando eu estava inquieto

me acalmavam lebristas

que nadavam em garrafas

translúcidas, ornamentais.

Ornamentais, os meus saltos

de pontes imaginárias,

a mergulhar nesse rio,

heraclitiano rio,

que não parava, e não pára...


*

Por esse tempo ainda

me andava a alma contrita

com as sensações de meu corpo:

um tio meu criava porcos

e eu os via javalis;

Minha avó bordava rendas.

Trago os bilros dentro em mim

e costuro pelo avesso

isso que ledes aqui.

Meu avô me dava livros:

Esopo, Andersen, Grimm.

Onde os trago?

E eu lá sei!


*

Mas emoções são perigos:

um dia quase me mato,

(se não fosse a borboleta,

a cochilar no casulo,

que me chamou a atenção...)

quase que, pássaro, pulo,

em queda livre e ligeira

do alto da pitombeira.

Mas não sabia voar.

Dançar? Dançar eu sabia,

essa dança ligeirinha

dos bodes nas cabritinhas,

bicho-do-mato que sou.


*

Vou lhes contar um segredo

há muito tempo guardado:

as emoções são crianças,

aprendem fácil a brincar

e gestam lendas e mitos

(que lhes sopram anjos bonitos)

de lobos, nuvens, cabritos.

Esses ditos viram escritos

que gente velha e sisuda

vai seu mistério estudar...


Se isso é poesia?

E eu sei lá!

*

Eurico
poema sem data

*

A imagem é um esboço em papel de seda
para um óleo sobre tela de autoria
de meu saudoso avô Luiz Eurico de Melo


sexta-feira, julho 11, 2008

Natureza-morta com Caju

(linossignos cassianos sobre papel sulfite)


Busco-
me, frágil e
p
ê
n
s
i
l
infrutescência,
a casca mascarada,
o broto ácido,
p
i
n
g
e
n
t
e
e FLÁCIDO;
IN/tensa realidade macerada,
ranço e nódoa,
que se me
e
s
c
o
r
r
e
peloscantosdalma.
Onde estou frondoso?
Em que sítio de mim sou Eu e eterno...?
Maturi-pêndula
in/ventos sazonais,
Oscilo ao Tempo,
invento cajuais.
Des/fruto
aquém,
a
Q
U
E
D
A
além,
o NADA...
ou a sempiterna seiva nacarada?


Eurico
poema datado de 05/02/97


a imagem é a capa do Eu-lírico nº 11/1997
desenho de
Eugenio Paxelly

quarta-feira, julho 09, 2008

Galochas (releitura)

A palavra navega dilúvios, nunca dantes.
Sai do pélago anterior e atravessa a urbe.
Vagidos antes do ontem, por mais ontens havidos...
Sussurros edênicos.

Urros em Ur.

Salmos em Salém.

Sylva e Pólis & Cia;

Abissal_catadupa.com


Chovia muito e eu em galochas.
(um singular no coletivo: risos)

Risível, o tempo...

Tríbio, flui.

Panta rei!

Vórtices, volutas, pipas e piões...fugazes.

Fugazes pedras às mangas do alheio...

Fui...


Eurico
22.06.06

segunda-feira, junho 16, 2008

Dora também fazia ranhuras mitopoéticas

Boneca

A boneca de feltro
parece assustada com o próximo milênio.
Quem a aninhará nos braços
com seus olhos de medo e retrós?

O signo da boneca é frágil
mais frágil que o de pássaro.
Confia. Assim passiva
o vento brincará contigo
franzirá teu avental dirá
coisas que entendes
desde a aurora das coisas:
foste um caroço de manga
uma forma de nuvem
ou um galho com braços
de ameixeira no quintal.

Não temas. Solta o
corpo de feltro. Assim.
Para ser embalada
nos braços da menina que houver.
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Elegia dos Golfinhos

Viu (porque só ver podia)
sem interferir: eles feriam
o cardume denso dos golfinhos, armadura azulada
protegendo atuns. Eram estes o alvo cobiçado
para as latarias de consumo. Tudo servia
aos velhacos: matemática, um navio branco— noivo da Morte —, redes atiradas
sem círculo perfeito e nefasto perto do cardume.Tiros ecoavam no ar, encapelando
a ordem bela dos golfinhos no caos turbilhonante.
Aprisionados, eles se contorciam em desespero.
*
Lamentem-se os coros sagrados de Netuno
acorram Nereidas, Anfitrite em lágrimas com
seus cavalos marinhos em torno das malévolas mandalas
de redes sobre o mar. Ó Nova Idade, não vês tantas
formas desfeitas, não vês que o rei Midas
tudo transforma agora no ouro do negócio?
Os golfinhos tranqüilos começam a morder.
Ah, cascata iridiscente no limiar da morte
em dança fúnebre! É o anti-Cristo no coração dos homens,
o usurpador, o peixe voltado para a esquerda, involutivo.

Mercância vil contaminando cabeças
e corações! Vociferem as pitonisas
de cabelos soltos, pálpebras emaciadas!
São os golfinhos os novos educadores
com sua graça natural, com sua dança
que a morte não detém. Eles propõem música.
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Nota do editor:
Dora Ferreira da Silva (1918-2006)
Poeta e tradutora, era viúva de Vicente Ferreira da Silva, um de meus filósofos de cabeceira.

Conheçam a mitopoética da Dora lá no Sítio d'Olinda. Imperdível!
*

sábado, junho 14, 2008

Ranhuras no ventre da baleia



“Agora, erramos, orgulhosos e tristes, de ato vão em ato vão,
modelando vasos fechados e cortando lanças circulares,
não mais portadoras de aguilhão.
Uma besta espantosa, de índole recurva,
nasceu do cansaço universal e impera entre nós:
come voraz a cauda e engole a própria garganta.
Criações e atos perecem: sua respiração interna, letal.”
**************************************(Osman Lins)


Nos últimos dias, venho sentindo a sensação de estar criando um objeto inútil. Não há como escapar desse sintoma neurótico, sendo cidadão de um mundo niilista. Poderia alguém viajar no ventre da baleia sem ser digerido pelas secreções de suas vísceras; sem se corromper, sem sucumbir ante a volumosa força das entranhas do cetáceo?
Sempre acordo tomado pela angústia de ser parte de uma civilização que agoniza lentamente. Sento-me, todas as manhãs, diante dessa máquina e modelo uma estranha máscara mortuária. Folheio Osman Lins e deparo-me com a imagem desse animal autofágico. Somos contemporâneos de uma sociedade entrópica. De um organismo que se despedaça. Uma máquina programada para destruir a si mesma...
Enquanto modelo essa máscara, ouço ao fundo a voz dorida de Edith Piaf. Pela janela vejo a Ilha-sem-Deus. Invade-me as narinas, a maresia do ar. Meus cinco sentidos, as portas da minha alma, repentinamente alertas para essa apreensão lírica do mundo. Um lirismo arrebatador, como um súbito acréscimo da receptividade disto que me circunda. Percebo, apavorado, uma dilatação dionisíaca do real. Eis que o grande Pã me sufoca! Sinto-me diante da perspectiva de ser devorado pelas mandíbulas dessa alimária espantosa, que estertora, enquanto que me arrasta no seu ventre. Do fundo da alma me chega uma oitava de Camões:
“Onde pode acolher-se um fraco humano,
Onde terá segura a curta vida,
Que não se arme e se indigne o Céu sereno
Contra um bicho da Terra tão pequeno?”

Não sei por que insisto nesse tema. Minha psicanalista, ao ler a
ELEGIA PÓS-MODERNA, poema que eu acabara de escrever, aconselhou-me para que me ocupasse com amenidades.
— Ninguém se interessará por essas coisas, Poeta, ponderava ela.
Foi o bastante: abandonei seu consultório e nunca mais voltei lá.
Conforta-me constatar, ao ler Osman e Roger Garaudy, essas duas grandes almas, que desde 1968, eles também estavam debruçados sobre o mesmo tema... Nesse tempo, o Green Peace mal dava os primeiros vagidos...
Estaríamos todos criando uma obra inútil e sem sentido?
Pouco me importa! Arranharei, com unhas afiadas, o ventre verde-oliva desse anfíbio. Creio ser esta a única atitude possível a quem navega nessa bizarra embarcação.

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Fonte da img.:
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N. do A.:
o texto acima é fragmento de meu romance Bóstrix n'água.

quinta-feira, junho 12, 2008

Deus é pernambucano!!!




Schelling dizia que o mito precede a história.

Por isso não posso deixar de celebrar
a mítica vitória do Leão do Norte,
Sport Club do Recife,

que cumpriu um desígnio prefigurado no seu símbolo,

ao se tornar o legítimo

Campeão da Copa do Brasil 2008!!!

Congratulo-me com o Mestre Ariano Suassuna,
legítimo representante da torcida que é a maior do nordeste!!!