
Quando eu-menino ouvia
os lobos da ventania
soprando ovelhas nas nuvens.
Meu coração disparava
(me dava um medo esquisito,
seria isso um meu mito?)
e eu me abraçava, eu-menino,
a um vira-latas mofino,
que nem eu era, também,
franzino e desamparado.
E eu lhe dizia ao ouvido:
(não tenha medo Bandit,
mamãe foi ali, na feira,
papai já vem do trabalho).
Quando eu estava inquieto
me acalmavam lebristas
que nadavam em garrafas
translúcidas, ornamentais.
Ornamentais, os meus saltos
de pontes imaginárias,
a mergulhar nesse rio,
heraclitiano rio,
que não parava, e não pára...
Por esse tempo ainda
me andava a alma contrita
com as sensações de meu corpo:
um tio meu criava porcos
e eu os via javalis;
Minha avó bordava rendas.
Trago os bilros dentro em mim
e costuro pelo avesso
isso que ledes aqui.
Meu avô me dava livros:
Esopo, Andersen, Grimm.
Onde os trago?
E eu lá sei!
Mas emoções são perigos:
um dia quase me mato,
(se não fosse a borboleta,
a cochilar no casulo,
que me chamou a atenção...)
quase que, pássaro, pulo,
em queda livre e ligeira
do alto da pitombeira.
Mas não sabia voar.
Dançar? Dançar eu sabia,
essa dança ligeirinha
dos bodes nas cabritinhas,
bicho-do-mato que sou.
Vou lhes contar um segredo
há muito tempo guardado:
as emoções são crianças,
aprendem fácil a brincar
e gestam lendas e mitos
(que lhes sopram anjos bonitos)
de lobos, nuvens, cabritos.
Esses ditos viram escritos
que gente velha e sisuda
vai seu mistério estudar...
Se isso é poesia?
E eu sei lá!
poema sem data
*
A imagem é um esboço em papel de seda
para um óleo sobre tela de autoria
de meu saudoso avô Luiz Eurico de Melo
4 comentários:
Nossa! é Poesia e de primeira linha, Eurico, meu amigo empático. Como estou aqui, esqueleto de 38 quilos, tenho que fazer algo, então faço posts. Postei sobre um filme meio desconhecido, porém lindo.
Apareça quando puder:
wwwrenatacordeiro.blogspot.com
não há ponto depois de www
Um beijo,
Renata
Eita que seu poema, hoje, me faz ir ao encontro de mim, na minha meninice, misturada que era a tantos irmãos, dividindo o que tinha e o que não tinha no espaço apertado, aguardando o momento de ouvir as histórias que nosso pai tinha para contar.
Beijos
salve,querido amigo, poeta do perplexidade do primeiro olhar inaugural, a tudo que é irreal, sendo emocionalmente visceral, na sua gesta infantil, sideral, que estamos retomando a estrelar alegria do contato virtual.
meu abraço,
luis de la mancha
Sim. É poesia.
;)
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