
Quando o mar arrebenta nos recifes
Do litoral da minha terra
As ondas tentam articular uma palavra.
(percebo isso, nitidamente,
num súbito acréscimo de receptividade)
Sempre...
balbucia a arrebentação.
Caminho por essas praias há muito tempo.
Costumo apalpar os grãos de areia com as pupilas.
Estranho fenômeno.
Sinto o fulgor da presença das coisas.
E isso assusta a minha frágil individualidade.
Estou no fenômeno.
Tocar as coisas com as palavras. Impossível.
Tocar as coisas é fazer filosofia.
Mas sou profundamente lírico.
Fenomenologicamente lírico.
Não há lirismo em epoché.
Minha consciência, irredutível,
abraça-se às coisas, liricamente:
Eu sou o fenômeno.
Os infantes jogam a péla secular,
Chutes de viés cruzam o horizonte.
E eu apreendo algo de musical,
nas variadas combinações dessa opereta de praia.
Danço com eles, volições entre parênteses,
eu-inteiro driblo, chuto e agarro-me à pelota.
Impossível suspender o juízo que faço de mim e das coisas:
Sou o próprio juiz que joga o jogo.
Sou a irrevogável consciência-das-minhas-circunstâncias.
As sensações são esses pequeninos crustáceos marinhos.
Ora afloram, ora escondem-se em mim.
Certas vezes empalideço de emoção, com a arte de um lance .
Mas choro mesmo, ao ver essas crianças tão raquíticas;
Me arreto, quando as ondas arrastam essa bola.
A bola rola e o planeta.
Passam-se as horas.
Agora a tarde cai sobre meus ombros
E sei que estou me despedindo das paisagens daqui.
(Sou o que vejo.)
Sinto-me um preso
Rumo ao degredo.
As ondas, ou algo indefinível,
Tentam iludir-me, ainda,
sussurrando essa palavra.
Sempre...
Fonte da imagem:
http://www.flickr.com/photos/namourfilho/2208612063/
Nota do blogueiro:
Sobre o verbête "péla" (bola), acentuado, leiamos o interessante sítio abaixo:
http://revistalingua.uol.com.br/textos.asp?codigo=11548
5 comentários:
Lindo e profundo poema!!!Parabéns.
Meu querido amigo,
e a vida? Tudo caminhando bem?
Espero de todo coração que sim.
Bjs.
Fatima, amiga das Gerais,... a vida?
A vida é bonita... rsrsrs
Fico com a beleza na resposta das crianças: a vida é sempre bonita.
Mesmo quando a gente não enxerga essa beleza, por limitações de nossos olhos. E a minha vai caminhando bem.
Feliz por ter vc por aqui.
Abraço fraterno.
Rapaz!
essa sua capacidade me encanta. "O fenômeno sou eu". Forte demais esse acolhimento.
PS: acompanho daqui a tragédia que se abateu por aí. Sigo na torcida para que a vida volte à normalidade dos dias.
Grande abraço
Estamos na luta, Jacinta! Reergueremos as cidades em lugar melhor. O povo é forte e não desiste! Estamos solidários com os irmãozinhos do interior!
Paz pra ti.
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