Uma Epígrafe



"...Quanto à poesia, parece condenada a dizer apenas aqueles resíduos de paisagem, de memória e de sonho que a indústria cultural ainda não conseguiu manipular para vender."...[Alfredo Bosi, in O Ser e o Tempo da Poesia, p. 133]

sexta-feira, maio 14, 2010

Asas
























Enterneço-me...
Esse é meu método fenomenológico de acercar-me à realidade.

Não busco saber o mundo, dom inacessível,
Contenta-me o afã da compreensão, e assim,
Intento aproximar-me de tudo e de mim,
pela ternura.
Pelo lirismo, eu diria, ingenuamente.
Esse é o portal de tudo.
Enterneço-me... e assim aprendo
a ver mais profundamente.

Exemplo disso são os colibris
que beijam flores em nosso quintal...
Eles decifram-me a minha mãe,
a enigmática guardiã de crotes e avencas...
Daqui, de dentro da ternura,
enfim, enxergo a rua
toda a rua, cinzenta e nua:
Não há mais verde na vizinhança.
Por isso a fauna miúda vem pra cá.
Lagartos, colibris, formigas.

(Ai, com que ternura tão antiga
minha mãe abriga
tudo isso aqui...)

E só agora,
nessa fenomenológica ternura, eu percebi.
Mãe, minha amiga!
Li teu enigma.
E esvoaço, enternecido.
Por um instante estou colibri...

quinta-feira, maio 13, 2010

Nuvens sobre a floresta...




















Nuvens sobre a floresta...
Sombra com sombra a mais...
Minha tristeza é esta –
A das coisas reais.

A outra, a que pertence
Aos sonhos que perdi,
Nesta hora não me vence,
Se a há, não a há aqui.

Mas esta, a do arvoredo
Que o céu sem luz invade,
Faz-me receio e medo...
Quem foi minha saudade?


Fernando Pessoa



Fonte do texto: http://bloggloria1.blogs.sapo.pt/arquivo/2005_07.html

Imagem do Google

domingo, maio 09, 2010

A Inevitável Rosa

ou

Pequena Lição de Poíesis

A prosa, por sua natureza, pode ser poética
porque sempre traz, dentro de si, hermética,
uma pequena rosa.

Em sendo assim,
o que se chama simplesmente prosa
é a tentativa frustrada de ocultar
no discurso (coisa odiosa)
a poesia que há...
a inevitável
rosa
(poemeto ao modo de Mário Quintana)
Eurico
08.06.07

***

sábado, abril 17, 2010

A velhice, a imanência... a morte.




























Quando meu velho amigo se foi desta vida
é que eu tentei entender porque ele vivia
totalmente enclausurado na matéria...
Creio que é disso que tratam certos filósofos,
quando usam a palavra imanência...
De fato, o meu amigo vivia seu mundo assim,
mergulhado na vida biológica.
Nunca questionava a história,
nem cuidava de genealogias...
Nunca lhe perguntei sobre Deus,
mas, creio que poderia ter sido agnóstico.

Aparentemente não tinha outra preocupação,
a não ser com o que comer ou beber...
(só bebia água, pois era naturalmente abstêmio)


"Não é a vida maior do que o corpo"...


Flanava pelas ruas, durante o dia todo,

por pura vadiagem.

"Olhai as aves do céu, elas não ajuntam em celeiros"...

Embora fosse muito inteligente
Agia sempre por seu lado instintivo,
e metia-se em muitas brigas, por qualquer motivo fútil,
mas, na verdade, tinha muito boa índole.
Meu amigo era um parceiro de todas as horas...
Sabia ser bom ouvinte, coisa rara

nesse mundo de pessoas ansiosas e verborrágicas...
e me ouvia calado, pachorrentamente, sem nunca questionar

essas minhas perfunctórias questões metafísicas...
Não se empolgava pelas analogias mais recentes: como as das gramíneas deleuzeanas.

Nem mesmo pelas gnosiologias seculares: como as da árvore da vida de Moshe de Leon...

Apesar de nos entendermos bem, só discordávamos quanto aos felinos.

Ele não suportava gatos.
Nisso nós éramos diferentes.
Mas essa era uma divergência de pouca monta,

pois, no fundo, ele tinha um enorme coração...
Era feito uma criança, o meu amigo.

Talvez seja esse o motivo da sua partida tão serena,
e em meio a uma velhice tão sossegada...
Na manhã em que ele partiu (lembro como se fosse hoje)

olhou-me fixamente.
Seus grandes olhos me pareceram mais úmidos do que sempre...
Aproximou-se do sofá em que eu lia os jornais

e, como de costume, deitou-se no chão atapetado.
Emitiu uns ininteligíveis fonemas guturais
e, de mansinho, cerrou as suas pálpebras... para sempre...

Morreu em paz e sem pecado.

Rex, era o seu nome.
Era verdadeiramente um rei, o meu melhor amigo...



Fonte da imagem:
http://br.olhares.com/melhor_amigo_do_homem_foto2558604.html
Foto de Paula Carolina Mariano Carvalho



Em tempos de crise, releio Pessoa



















QUINTA
D. SEBASTIÃO, REI DE PORTUGAL


Louco, sim, louco, porque quis grandeza
Qual a Sorte a não dá.
Não coube em mim minha certeza;

Por isso onde o areal está
Ficou meu ser que houve, não o que há.
Minha loucura, outros que me a tomem
Com o que nela ia.

Sem a loucura que é o homem
Mais que a besta sadia,
Cadáver adiado que procria?


Fernando Pessoa
in Mensagem



fonte do txt:
http://www.insite.com.br/art/pessoa/mensage1.html

fonte da img:

Cadáver de Antonio Conselheiro
(em memória dos soterrados em São Sebastião do Rio de Janeiro)

quinta-feira, abril 15, 2010

ODE ESCATOLÓGICA (antipoema)
































"Há um lixo que em todos os sentidos, subjaz nas grandes tragédias."

....................................................................................................................(Mai)


Dava-nos a impressão de que habitávamos
em tranquilos sítios virtuais
e de que nossas casinhas humildes
eram como homepages protegidas no ciberespaço...

Mas, uma abrupta avalanche de lama e lixo nos ensinou
que nossas verdadeiras comunidades de relacionamento
estavam mesmo dependuradas
nos inseguros aclives dos outeiros,
nas margens, nada plácidas, dos alagados,
nos palafitas sobre a maré...

São inúteis os alicerces,
fincados sobre a escória urbana...

Duro foi saber que ziguezagueávamos
por vielas assistemáticas
nos mil platôs da falácia pós-moderna,
com nossas parabólicas plugadas nessa rede
da ilusória arquitetura rizomática...
Ai, os conceitos, as analogias, as metáforas,
o reducionismo biológico,
tudo, tudo desliza morro abaixo,
(apesar de restar ainda a estética do Oiticica.)

Identifiquem-nos agora, os soterrados,
numerem nossos corpos
e classifiquem-nos em seus registros
e saberão que muitos de nós somos os nômades,
os excluídos, sem terra, os desterritorializados,
cuja única singularidade
é estar na mais comum e corriqueira miséria humana...
Somos os cadáveres sem voz e sem história,
e cuja geografia está sob os escombros
da obsolescência das coisas
consumidas, supérflua e cotidianamente...
Somos os soterrados,
dessa babélica orbe virtual,
edificada sobre as falhas geológicas da ética da imanência!
Somos incautos avestruzes,
as consciências enfiadas em buracos 3D,
a buscar, na seiva esquemática (e pouco útil)
de raízes emaranhadas sob a relva,um sentido novo para a velha vida des/humana
ou algum antivírus para o nosso escatológico amor... fati.



fonte da img:
http://agrandegaia.files.wordpress.com/2009/10/estamira2.jpg

Este antipoema é dedicado a
Dona Estamira, do Jardim Gramacho-RJ

domingo, abril 04, 2010

A E/terna Passagem!




Pois, como Jonas esteve três dias e três noites no ventre da baleia,
assim estará o Filho do homem três dias e três noites no seio da terra. Mt 12:40


*

(ouçam-se pássaros e guizos ao fundo)

♪
Podem dançar com pandeiros
E vestir-se para a festa.
Tragam carneiros sem mácula ,
Preparem a mesa modesta,

Peixes e frugalidade,
Cores alegres.
Feliz Páscoa!
Que a passagem foi aberta!


A passagem foi aberta.
A porta é imaterial.
A passagem foi aberta
Sua chave é atemporal.
A passagem foi aberta
É numinoso, o umbral.

A passagem foi aberta
Renasce o Sol no equinócio;
ressurge a pátria auroral.

Pessach!
Os ciclos avançam.

Pessach!
Gira a espiral.

Pessach!
A eterna passagem.

Pessach!
O Amor é a Porta
que leva ao Transcendental.

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quarta-feira, março 24, 2010

O Batisti (um precursor)

























Na crista da (terceira) onda histórica, radical, renovadora, e até mesmo, perturbadora, está a poética com que abaixo vos inquietarei.
Não há mesmo mais tempo para a poética dos saraus, das serenatas à lua e outros afins. Embora, creio eu, tudo isso deve estar contido numa poesia que instaure a voz do seu tempo.
Que diga das angústias, com arte;
Que fale de nossa fragmentada existência
e de nossa virtual desesperança, com lirismo reflexivo;
Que, até mesmo, possa revisitar o discurso agostiniano,
ou de outro pensador, também angustiado,
expondo nossos descaminhos em públicas confissões.

Mas é vital que esse Poeta, esteja, (como estava um Fernando Pessoa, em sua época), no centro de convergência das germinações e daqueles impulsos que promovem o destino de uma cultura.
Imprescindível, também, que diga tudo na linguagem desse nosso tempo:
na apresentação calidoscópica das imagens;
nos versos em síncopes, de ritmo quase à Hermeto Paschoal;
fazendo ainda, pessoanamente, a crítica das próprias condições da consciência, do exercício mesmo da inteligência, no mais intenso esforço de lucidez de uma geração.

Essa poética que vos apresento, em nossa língua-mátria mais pura, é difícil de encaixilhar-se num rótulo.
Nem pós-moderna, nem neobarroca, nem mesmo, neomoderna.
Nada disso!
Melhor dizer: radical, universal e clássica, como a crítica define uma poética, quando atemporal.

Esse poética é brasileira, lusófona, e seu poeta se chama Dauri Batisti. Leiam-na:



, confesso, ainda, digo, deitei-me.
É. Deitei-me. Tu também hás de confessar-te?
andas confuso em seus ares.
Subterrei-me. Submeti-me ao solo,
à morte, em posturas deitadas. Reneguei
minha ressurrecta e leve corporeidade erecta.

, discriminei também.
Sim, achei-me em condição de separar cabrito de ovelha.
Discriminei minhas mãos, uma para a prosa,
outra para os versos. Esquizofrenizei
a língua. Ah, por isso confesso aos pedaços.

, desprezei os pequenos, arrependo-me,
os invisíveis, os bytes. Hoje estou
com o coração megabytizado.
Emprazeiro-me quando me ponho on,
antes eu delirava ficando na minha, off.

, desprezei também a mim mesmo
quando me ensurdeci à missão de subverter
e celestiei-me em oníricas fugas.
Hoje quero sobrelevar a sola dos meus sapatos
e sentir o densidade dos meus ossos
enquanto miro as pectas janelas de Salvador Dali.


Dauri Batisti

da série de poemas
CONFESSIO SPONTANEA

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Mais de Dauri, o Batisti, no sítio
Essa Palavra, onde ele elabora as "séries" que apontam para a contemporaneidade da poesia e antecipam a forma e o conteúdo do que de belo pode estar se enformando/informando nessa era virtual.

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Nota do Blogueiro:
reedição de poema, com o mesmo espanto da primeira leitura!


Fonte da img:
http://aspalavras.blog.terra.com.br/files/2009/08/salvador_dali.jpg

sábado, março 13, 2010

Eu-menino (pequena fauna poética)




Quando eu-menino ouvia
os lobos da ventania
soprando ovelhas nas nuvens.
Meu coração disparava
(me dava um medo esquisito,
seria isso um meu mito?)
e eu me abraçava, eu-menino,
a um vira-latas mofino,
que nem eu era, também,
franzino e desamparado.
E eu lhe dizia ao ouvido:
(não tenha medo, Bandit,
mamãe foi ali, na feira,
papai já vem do trabalho).

*
Quando eu estava inquieto
me acalmavam lebristas
que nadavam em garrafas
translúcidas, ornamentais.
Ornamentais, os meus saltos
de pontes imaginárias,
a mergulhar nesse rio,
heraclitiano rio,
que não parava, e não pára...

*
Por esse tempo ainda
me andava a alma contrita
com as sensações de meu corpo:
um tio meu criava porcos
e eu os via javalis;
Minha avó bordava rendas.
Trago os bilros dentro em mim,
e costuro pelo avesso
isso que ledes aqui.
Meu avô me dava livros:
Lobato, Andersen, Grimm.
Onde os trago?
E eu lá sei!

*
Mas emoções são perigos:
um dia quase me mato,
(se não fosse a borboleta,
a cochilar no casulo,
que me chamou a atenção...)
quase que, pássaro, pulo,
em queda livre e ligeira
do alto da pitombeira.
Mas não sabia voar.
Dançar? Dançar eu sabia,
essa dança ligeirinha
(umbigadas/rock and roll)
dos bodes nas cabritinhas,
bicho-do-mato que sou.

*
Vou lhes contar um segredo
há muito tempo guardado:
as emoções são crianças,
aprendem fácil a brincar
e gestam lendas e mitos
(que lhes sopram anjos bonitos)
de lobos, nuvens, cabritos.
Esses ditos viram escritos
que gente velha e sisuda
vai seu mistério estudar...

Se isso é poesia?
E eu sei lá!
*
Euricopoema sem data

*
A imagem é um esboço em papel de seda
para um óleo sobre tela de autoria
de meu saudoso avô Luiz Eurico de Melo

quinta-feira, março 11, 2010

ISSO































“...menino sonha com coisas
que a gente cresce e não vê jamais...”
Roberto Ribeiro(de Nelson Rufino e Zé Luiz)


Disso que, em verdade, não vejo
e que, sinceramente, a minha mão não alcança;
é dessa coisa singela e estranha
que cuido o dia todo, todos os dias...
Disso que, enquanto olho, não percebo o tanto,
(porquanto, é a minha alma, estrábica)
é nisso que me ocupo,
eis minha fábrica:

Isso, inefável,
Isso, indizível,
Isso, volátil e jamais tocado...

Nisso me erijo
desde criança,
Nisso invisível (eu, que não creio)
sonho o meu sonho,
nessa esperança...