Uma Epígrafe
"...Quanto à poesia, parece condenada a dizer apenas aqueles resíduos de paisagem, de memória e de sonho que a indústria cultural ainda não conseguiu manipular para vender."...[Alfredo Bosi, in O Ser e o Tempo da Poesia, p. 133]
sexta-feira, outubro 16, 2020
quarta-feira, julho 22, 2020
Caminho Velho da Várzea
Aqui passavam tropeiros
Com récuas de burros-mulos
(Assim contaram os vates)
Que eram semitas, turcos,
E moçárabes, os mascates.
Paravam em frente das casas
à sombra das cajazeiras.
Sentavam-se, os almocreves.
Bebiam água, os escravos
E as mulas descansavam,
Cangalhas pensas, dos fardos
Pejados de bugigangas:
Pentes, mariolas, marrafas;
Trancelins, água de cheiro;
A manteiga de garrafa;
Chumbo para soca-soca,
Munição pro parabelo.
Moças rodeavam a tropa,
Sorrisos engalanados
E as mães cheias de cuidados
Por vê-las a escolher meias,
Espartilhos e anáguas;
Pra não dar com os burros n’água
Os sonhos de casamento
Com os moços brancos e ricos
Lá do Engenho São Francisco.
Querem usar o sobrenome
Lacerda, depois do nome,
Na filha que se casar...
Mas a um grito do judeu
Que agitou a matraca
A tropa se alevanta.
Um burro-mulo se espanta.
Segura o bicho, meu Deus!
Quis correr, mas foi contido
Por um dos homens retintos
E aos outros foi se ajuntar
Que é hora de caminhar
E sair do Engenho do Meio
E é até bom se apressar
Que o céu vai ficando feio
E um toró vai desabar...
Chove muito nessas bandas
Fica o caminho empoçado
Muito ruim de atravessar
Por dentro da lamaceira
Pode algum burro empacar.
Adeus, senhoras, mocinhas,
Desse tranquilo arruado,
Se eu não fosse casado
Por aqui me casaria
E meus dias findaria
Nesse solo abençoado.
Vou-me embora lá pra Várzea!
Volto lá pro fim do dia,
Quando for noite nas casas,
Dessa ilustre freguesia,
Mode ver os candeeiros
E o velho fogão de lenha
Com a tanajura no fogo,
Pra se comer com farinha.
De tarde eu passo, meu povo!
Quero levar do mé novo
Que vem da roda da azenha
Lá na margem do Cavouco!
Por mim, eu ficava um pouco
Mas o trabalho me chama
Deixo uns perfumes pras damas
Uns turbantes pras mucamas
E chapéus pros meus amigos.
Adeus, adeus, que já sigo!
(lentamente a tropa avança
e, ao longe, ainda se ouve
o ruído da matraca...)
(cantiga de Lula Eurico)
sábado, novembro 09, 2019
O Furo do Pífaro (auto-retrato)
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| Tocador de Pífaro - Manet |
só por passar...
sexta-feira, março 08, 2019
sexta-feira, maio 11, 2018
D'US NA CAATINGA (a chama)
“Tudo o que existe, existe em Deus, e sem Deus nada pode existir.”
(Proposição XV, da Ética de Spinoza,)
Faz três noites que relampeia...
Ribombam trovões na caatinga.
Estou sem mim.
Vaga pela noite o que eu julgava ser.
Olhos nômades, intumescidos de esperança.
Clarões no horizonte.
A noite rasgada por luzes.
Fluxos coruscantes.
Apalpo-me.
Não tenho em que me tocar.
Sou relâmpagos.
Fui.
Sou ainda.
Isso persevera em mim e em mim se ama.
Sou esse arbusto em chamas.
Quando desabar a chuvarada,
jatos de fogo e água, de ar e terra,
Serei manhã.
Serei saúde.
Serei a vontade de ser que já sou.
Encharcado de D'us, que nem Baruch...
quinta-feira, março 30, 2017
EIRA DE URZES (linossignos em quase-prosa)
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| Cio da Terra - E. B. Brito |
Lavra-se u'a idéia,
como a qualquer outra eira,
arando e revolvendo os conceitos,
até se obter uma textura granulosa e fértil.
A semeadura dá-se
durante as horas d'ócio,
solitariamente,
quando eclodem
os brotos iólipos.
Esses linossignos
surgirão aos molhos,
morfemas copiosos, como os dos cegos de feira;
Então deve-se usar um esboiceiro ou boiceira,
de modo a separar deles a baganha ou bagulho,
pelo modo com que se retira do linho a linhaça.
Assim, segregado, metapoéticamente,
o molho de morfemas será colocada num cesto
e deixado ao sol durante dias,
por forma a aloirar bastante
e estar pronto para entrar na tessitura.
Depois disso, há de ser guardado
num canto aquecido, protegido por pedras,
durante cerca de três dias consecutivos,
até quebrar a casca,
feito um pintainho de quelônio.
Retirado da gruta, ,
grandioso ou sem graça,
é deixá-lo correr num relvado,
divertindo-se ao sol
para curar imperfeições congênitas.
Nos dias seguintes,
será gramado na grama,
malhado com a malha,
esmagado,
tasquinhado
e, duramente, ripançado no ripanço,
para que assim, entremeadas pelos brotos comuns,
se possam urzir raridades,
que, por sua vez, devem ser
fervidas com água e cinza
dobadas em dobadoiras,
para escoimar impurezas;
Leva-se, então, ao bem fundo d'alma,
para tentar re/alçar...
Colher-se-ão, enfim, as impalpáveis luzes,
essas que, improváveis em pedras,
surgem,
algo de espanto,
lumes estranhos, nisso
que fulge.
Ó, bardo, em que, afinal, tu urdes?
Imagem:
Cio da Terra
quarta-feira, março 29, 2017
O Jardim (mitopoese)
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| Ramos - E. B. Brito |
ÁPTERIX
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| APTERIX - ave imaginária - E. B. Brito |
fresta do acaso, entre voláteis vazadouros,
agarro-me ao nexo do estar.
Se é alado o céu e a ventania vai aonde quer,
por que pousar?
Tudo o que é vida passa, tudo é lábil
e a flor bela é frágil
Viver é instante e espanto,
imprevisível notação numa ária dodecafônica.
Chuva fugaz, lugar nenhum.
Todas as instâncias se acotovelam em janelas irreais:
Não sou,
mas evidências instáveis resistem sem mim.
Creio no solo sob os pés.
Ando movediço...
Ave tardia não voa.
Áptera.
E só.
Eurico








