Uma Epígrafe



"...Quanto à poesia, parece condenada a dizer apenas aqueles resíduos de paisagem, de memória e de sonho que a indústria cultural ainda não conseguiu manipular para vender."...[Alfredo Bosi, in O Ser e o Tempo da Poesia, p. 133]

quarta-feira, julho 22, 2020

Caminho Velho da Várzea




Aqui passavam tropeiros
Com récuas de burros-mulos
(Assim contaram os vates)
Que eram semitas, turcos,
E moçárabes, os mascates.

Paravam em frente das casas
à sombra das cajazeiras.
Sentavam-se, os almocreves.
Bebiam água, os escravos
E as mulas descansavam,
Cangalhas pensas, dos fardos
Pejados de bugigangas:

Pentes, mariolas, marrafas;
Trancelins, água de cheiro;
A manteiga de garrafa;
Chumbo para soca-soca,
Munição pro parabelo.

Moças rodeavam a tropa,
Sorrisos engalanados
E as mães cheias de cuidados
Por vê-las a escolher meias,
Espartilhos e anáguas;
Pra não dar com os burros n’água
Os sonhos de casamento
Com os moços brancos e ricos
Lá do Engenho São Francisco.
Querem usar o sobrenome
Lacerda, depois do nome,
Na filha que se casar...

Mas a um grito do judeu

Que agitou a matraca
A tropa se alevanta.
Um burro-mulo se espanta.

Segura o bicho, meu Deus!

Quis correr, mas foi contido
Por um dos homens retintos
E aos outros foi se ajuntar
Que é hora de caminhar
E sair do Engenho do Meio
E é até bom se apressar
Que o céu vai ficando feio
E um toró vai desabar...
Chove muito nessas bandas
Fica o caminho empoçado
Muito ruim de atravessar
Por dentro da lamaceira
Pode algum burro empacar.

Adeus, senhoras, mocinhas,
Desse tranquilo arruado,
Se eu não fosse casado
Por aqui me casaria
E meus dias findaria
Nesse solo abençoado.

Vou-me embora lá pra Várzea!
Volto lá pro fim do dia,
Quando for noite nas casas,
Dessa ilustre freguesia,
Mode ver os candeeiros
E o velho fogão de lenha
Com a tanajura no fogo,
Pra se comer com farinha.

De tarde eu  passo, meu povo!
Quero levar do mé novo
Que vem da roda da azenha
Lá na margem do Cavouco!

Por mim, eu ficava um pouco
Mas o trabalho me chama
Deixo uns perfumes pras damas
Uns turbantes pras mucamas
E chapéus pros meus amigos.

Adeus, adeus, que já sigo!

(lentamente a tropa avança

e, ao longe, ainda se ouve 

o ruído da matraca...)



(cantiga de Lula Eurico)







sábado, novembro 09, 2019

O Furo do Pífaro (auto-retrato)



Tocador de Pífaro - Manet


Eu sou o furo do pífaro
e o ar flutua por mim
 espaço sutil onde passa
o sopro desse flautim

Faço somente
facilit/ar
o ar circul/ar
se ar/ticul/ar

Sou simples
pife sem graça
que o ar perpassa
só por passar...

Um dia eu já fui frauta
de Pã
mas, fora isso, sou mero furo  
numa vareta oca e vã
em que se faz o ar fluir
e soar...

Só ar...

Sou ar...


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sexta-feira, março 08, 2019

Poeta














Exerço suavemente o meu ofício. 
Não é difícil: 
Eu faço bolhas de sabão.  

Sopro num tubo, 
esses fonemas 
leves poemas
De voo breve... 

Para entender meu métier, 
Devo estar só. 
Viver a bolha, a brisa, o Sol… 
Ao léu, à toa, feito uma folha, 
U'a frágil bolha. 
Sumiu... 
Fui eu. 
Passei. 
Adeus!

sexta-feira, maio 11, 2018

D'US NA CAATINGA (a chama)

































“Tudo o que existe, existe em Deus, e sem Deus nada pode existir.”
(Proposição XV, da Ética de Spinoza,)

Faz três noites que relampeia...
Ribombam trovões na caatinga.

Estou sem mim.
Vaga pela noite o que eu julgava ser.
Olhos nômades, intumescidos de esperança.
Clarões no horizonte.
A noite rasgada por luzes.
Fluxos coruscantes.

Apalpo-me.
Não tenho em que me tocar.
Sou relâmpagos.
Fui.
Sou ainda.
Isso persevera em mim e em mim se ama.
Sou esse arbusto em chamas.

Quando desabar a chuvarada,
jatos de fogo e água, de ar e terra,
Serei manhã.
Serei saúde.
Serei a vontade de ser que já sou.
Encharcado de D'us, que nem Baruch...

quinta-feira, março 30, 2017

EIRA DE URZES (linossignos em quase-prosa)

Cio da Terra - E. B. Brito



Lavra-se u'a idéia, 
como a qualquer outra eira, 
arando e revolvendo os conceitos,
até se obter uma textura granulosa e fértil. 

A semeadura dá-se 
durante as horas d'ócio, 
solitariamente, 
quando eclodem 
os brotos  iólipos.

Esses linossignos 
surgirão aos molhos, 
morfemas copiosos, como os dos cegos de feira; 
Então deve-se usar um esboiceiro ou boiceira, 
de modo a separar deles a baganha ou bagulho, 
pelo modo com que se retira do linho a linhaça. 

Assim, segregado, metapoéticamente, 
o molho de morfemas será colocada num cesto 
e deixado ao sol durante dias, 
por forma a aloirar bastante 
e estar pronto para entrar na tessitura.
Depois disso, há de ser guardado
num canto aquecido, protegido por pedras, 
durante cerca de três dias consecutivos,
até quebrar a casca, 
feito um pintainho de quelônio. 

Retirado da gruta, , 
grandioso ou sem graça,
é deixá-lo correr num relvado, 
divertindo-se ao sol 
para curar imperfeições congênitas. 

Nos dias seguintes, 
será gramado na grama, 
malhado com a malha, 
esmagado, 
tasquinhado 
e, duramente, ripançado no ripanço, 
para que assim, entremeadas pelos brotos comuns,
se possam urzir raridades, 
que, por sua vez, devem ser
fervidas com água e cinza 
dobadas em dobadoiras, 
para escoimar impurezas; 

Leva-se, então, ao bem fundo d'alma,
para tentar re/alçar...

Colher-se-ão, enfim, as impalpáveis luzes, 
essas que, improváveis em pedras,
surgem,
algo de espanto,
lumes estranhos, nisso 
que fulge.
Ó, bardo, em que, afinal, tu urdes?





Imagem:
Cio da Terra

quarta-feira, março 29, 2017

O Jardim (mitopoese)

Ramos - E. B. Brito


 Nenhum ramo pode dar fruto por si mesmo, se não estiver ligado à videira. João 15:4


Deus nem faz,
Nem realiza.
Deus não cria,
Apenas É!

Deus é uma abundância ôntica
que transborda em nascimentos.

Pedras, rios, mar e homens,
as estrelas mais distantes
e as coisas mais triviais,
não são fortuitas,
mas frutas
desse ramo original,
ligado ao jardim arcaico
daquele mundo auroral.

Ser é Seu único verbo
de tal forma conjugado
que sopra os mitos fundantes
do que é substantivado.

Homens, mar, rios e pedras,
inacessíveis estrelas
e a rosa humilde que medra
de ontofânicas folhagens
são realidades nascidas
da excessiva presença
daquele Ser auroral...



ÁPTERIX


APTERIX - ave imaginária - E. B. Brito

 
 
E eu, aqui, in/significante,
fresta do acaso, entre voláteis vazadouros,
agarro-me ao nexo do estar.

Se é alado o céu e a ventania vai aonde quer,
por que pousar?

Tudo o que é vida passa, tudo é lábil
e a flor bela é fr
ágil 
... e breve...
Viver é instante e espanto,
imprevisível notação numa ária dodecafônica.

Chuva fugaz, lugar nenhum.

Todas as instâncias se acotovelam em janelas irreais:
Há lócus de mim, não eu.
Não sou, 

mas evidências instáveis resistem sem mim.

Creio no solo sob os pés.
Ando movediço...

Ave tardia não voa.
Áptera.
E só.



Eurico
(poema sem data, sem hora, sem lugar...)

Fonte da imagem:
AbARCA

 


TRÍBIO (um olhar intra-histórico)




I


Buscando mitologemas, 
algum vestígio e sinal,
mitemas desse arrabalde 
arcaico e cult/rural...
Entanto, buscando, nele,
o passado que é presente,
o outrora/hoje, a intra-história,
a sépia que adorna o Agora:
...esse arruado atemporal...

II

Um objeto mestiço?
Um indício,
um mito ancestral?
Um totum, um totem,
um resquício de algum rito inaugural;
um uso ainda vigente,
algum costume avoengo,
algo antigo, inda inerente
ao dia a dia das gentes,
nesse pequeno arrabal...


***



Nota:

Nesses últimos anos tenho me dedicado
a observar os habitantes de um lugar,
situado à margem do caminho antigo da Várzea,
o Arruado do Engenho do Meio ou Engenho Velho.
Esse poema é uma espécie de epígrafe ao memorial
que escrevo sobre essas observações.

( Lula Eurico )

terça-feira, março 28, 2017

FLUSS


















S. Tiago 4-14



Esse instante, outrora espuma,
não-lugar, desterritório.
(Esse fruto de estar só...)

Coisa in fieri, esse instante...
Quase frol.
Nuance.
Fiapo de lã, de luce.
Névoa no ar,
esfuma-se.

Flui-se,
esse instante, frui-se.
Véu evanescente: Fluss.