Uma Epígrafe



"...Quanto à poesia, parece condenada a dizer apenas aqueles resíduos de paisagem, de memória e de sonho que a indústria cultural ainda não conseguiu manipular para vender."...[Alfredo Bosi, in O Ser e o Tempo da Poesia, p. 133]

quinta-feira, março 11, 2010

ISSO































“...menino sonha com coisas
que a gente cresce e não vê jamais...”
Roberto Ribeiro(de Nelson Rufino e Zé Luiz)


Disso que, em verdade, não vejo
e que, sinceramente, a minha mão não alcança;
é dessa coisa singela e estranha
que cuido o dia todo, todos os dias...
Disso que, enquanto olho, não percebo o tanto,
(porquanto, é a minha alma, estrábica)
é nisso que me ocupo,
eis minha fábrica:

Isso, inefável,
Isso, indizível,
Isso, volátil e jamais tocado...

Nisso me erijo
desde criança,
Nisso invisível (eu, que não creio)
sonho o meu sonho,
nessa esperança...

sábado, março 06, 2010

Feminina (ciranda mitopoética)



"a vida vem em ondas como o mar" (Lulu Santos)


A consciência é profunda e marinha
e a vida é ondulada...
Ai... a vida é a in/exatidão feminina do mar!

Estava na beira da praia, na beira do mundo,
olhando o que há...
me veio por dentro essa onda
com a força do vento nordeste, girando no ar...
A praia era um abismo azulado,
era a beira de tudo,
essa coisa de fora
esse Estar.
A alma, molhada por dentro,
lembrava-me um útero, em um outro lugar.

Estava na beira da praia, olhando a ciranda
das ondas do mar.


A essência das águas me chama
é um doce acalanto, uma canção de ninar.
A água do abismo me ama,
e me faz levemente boiar.

A consciência é profunda e marinha
e a vida é a in/exatidão feminina do mar.


***

(singela homenagem aos seres femininos
que harmonizam a crosta desse planetinha azul)


Salve o 8 de março,
mas, todo dia é, em essência, Mulher!


quarta-feira, fevereiro 17, 2010

Aurora (modinha)



imagem google


Flores rubras
debruçadas sobre o rio,
espelho d'água contra o casario...

E me perguntam: por que lirismo?
Não é essa a terra do João Cabral?

Posto que sim. Mas afinal
Vi/ver é escolha:

Uns vêem sarjetas.
Outros, entulhos;
Um cão sem plumas,
lama e fedor.

Questão profunda,
de nervo ótico,
niilismo exótico,
ou mal de amor?

Eu escolho a Aurora
E os flamboyants.
As flores rubras.
Tu não as vês?

Lirismo é isso:
um olhar molhado,
emocionado,
uma embriaguez .

Lirismo é encanto,
voz de quem ama,
enamorada ilucidez.

Eu vejo a Aurora
Luz da manhã.
Sol, cores rubras
e os flamboyants.

quarta-feira, fevereiro 10, 2010

Memória Azul (valsinha de carnaval)



imagem google



...toda memória é azul
um desbotado azul, indefinido...
entanto, não é o azul de cordilheiras,
azul longínquo,
mas um azul de tarde de domingo,
um azul de infância, com balões...

lembro-me ainda, sons azulados,
valsas, polcas, (blues?);
lembro de sons azuis,
cordões alegres, mesmo senis,
realejos, leques,
rítmica luz...

chorões aos bandos,
aos bandolins;
todo esse azul, dentro de mim:
marcha-regresso, ecos sutis;
uma lembrança, assim,
azulada, mas feliz...

terça-feira, janeiro 26, 2010

Uma foto das 'antrolas'


Essa é pra participar com o Elcio, do Verseiro, o mais frondoso pé de versos da blogoesfera, em data comemorativa de seu niver de 2 anos, para o qual ele muito gentilmente me convidou. Coincidentemente, hoje, dona Netinha, minha mãe, completa 77 aninhos, com todo vigor, apesar de um femur recentemente fraturado. rs Parabéns aos dois. Ao pé de versos florido e à frondosa velhinha que me pariu para a poesia, parabéns!
Bem, a dificuldade foi grande, posto que na minha época não se dispunham de máquinas de tirar retratos em profusão, como hoje... rsrsrs E crianças, raramente, apareciam
nas fotos. Fotos eram sempre do casal, dos mais velhos. Era muito caro fazer retratos.
Mas o meu padrinho, um preto enorme, formado em Economia pela UFPE, Umbandista-praticante-e-estudioso e Contador-mor do Governo do Estado, tinha 'gaita' pra esses luxos. E, numa das idas à praia do Janga, em ônibus fretado pelo saudoso 'dindinho' para a família dele, que ia fazer seus rituais à Mãe dos Mares, nesse dias nos fez essa interessante 'fotinha'. Nela estamos eu, em pose de artista, minha irmã mais nova, Edna, minha prima Miriam, sua irmã Marthinha, hoje diretora da Fundarpe, no Governo de Eduardo Campos, família em quem votamos desde o avô Miguel Arraes, e minha irmã Eliane, hoje morando em cafezal de São João do Manhuaçu, MG.
Não tenho uma história engraçada da foto, mas reclamo do fato de que íamos para a essa celebração sem sermos esclarecidos sobre o que ali acontecia. E eu, curioso que só, como até hoje, sobre mitologias, perdi a chance de saber que vivia, in loco, uma celebração de ritual africano, que hoje, no mínimo, me aguça a vontade de entender aquela festa da 'panela ao mar'. Por que os adultos não nos explicavam sobre essas coisas? Lembro que escrevi um conto sobre essa tal religião, aliás, sobre religiões, chamado Um Estranho Ofício.
Ah, meu apelido era "Lula Cabeção" ou "Tão Pequenininho da Cabeça Grande" (onomatopéia dos taróis das bandas marciais), em homenagem ao tamanho avantajado de meu crânio, que depois saberíamos ser totalmente ôco e dado a devaneios mitopoéticos. kkkkkkkkk

Abraço fraterno em todos.

sexta-feira, janeiro 22, 2010

O Relógio e a Bússola (uma cantiga pra Kelly)





















Redescobri o Oriente de manhã,
Quando o sol invadiu minha casa de repente
Eu, que nem atentava de que lado, exatamente, nasce o sol,
Agora sei, aqui, convalescente,
Que um raio solar cruza-me a alma, obliquamente,
Desde as primeiras horas da manhã até ficar poente;
E que minha a cama posta-se sob ele, diagonalmente.
Espaço e tempo brilham em mim, isso é o Oriente...
Irmãos, amigos, não é deveras surpreendente
Que deambulando em tal deserto, tanta gente,
como eu, não atente
pro fato que não sabe mais, ao certo, para que lado fica o Oriente?

Agora sei, graças ao Sol,
Que o Oriente fica exatamente
No recanto do quarto, e rente
Ao ponto em que minha Mulher, tão ternamente,
Ajuda-me a calçar os meus chinelos
(logo os meus, que nunca me dignei a amarrar suas sandálias, ó xente!)
E veste-me um moleton, tão distraidamente.
Minha Mulher de cócoras, sorridente,
raio de sol que resplandece à minha frente,
cuidando do meu ser convalescente,
Ali, ó meus irmãos e amigos,
Ali é o Oriente!

E enquanto ela me pensa curativos, delicadamente
O Sol acende os seus cabelos, suavemente,
E vai iluminando as minhas células dolentes.
Eis o relógio e a bússola, nesse olhar iridescente...
Eis, ó minha alma, o Oriente!


Fonte da imagem:
http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/a/ae/Saint-remy-de-provence-cadran-solaire.jpg

quinta-feira, janeiro 14, 2010

O Amor e a Mídia







O amor não tem fronteiras
Não tem pátrias
nem religiões.
O amor não tem espaço, nem tempo
O amor nunca cessará


O amor trabalha em silêncio
e se doa em qualquer parte do mundo
por todo o universo

Os servidores do amor não usam adornos exteriores,
nem títulos sacerdotais, ou academicos,
"apenas as duas mãos e o sentimento do mundo"
E nós só lembramos que eles estão entre nós
quando surge de repente a notícia de seu trabalho anônimo

um dia a mídia vai passar 24 horas a falar dos homens e mulheres
de boa vontade, enquanto vivos
e isso há de dar a maior audiência

Um dia o amor vai ser notícia cotidiana...


Por enquanto,
só saberemos das ações
dos grandes benfeitores da humanidade sofrida,
quando morrem subitamente...


(dedicado a Zilda Arns, Madre Tereza, Irmã Dulce, Dorothy Stang, Chico Xavier e tantos outros)



Fonte da img.:
http://www.jptl.com.br/?pag=ver_noticia&id=18267

quarta-feira, dezembro 30, 2009

UM ABRAÇO FRATERNO!!!





Que venha a nova translação!
Giremos com ela e nela
façamos alegres piruetas,
a cada 24 horas,
durante 365 novas rotações.
Vivamos, pois, o novo Ano!
E que o mundo seja mais fraterno nesse 2010!!!


Clique e ouça: Jesus Alegria dos Homens - Bach

sábado, dezembro 05, 2009

ALLANA (uma criança índigo)



















A criança vê fundo e antes,
um mundo feito em relações desconcertantes.
Faz a eternidade,
agarra o instante,
consegue ver até, olhos ausentes,
o modo sutil,
em que do sono da brasa, latente,
brota o mel...

A criança é mãe do sonho,
sabe os secretos sentidos,
tem a ciência da fauna
e a presciência da flora.
Conhece o segredo antigo
que da pequena semente
faz surgir o baobá.

Os gregos chamavam physis
e os romanos, natura;
e a criança, sem dar nomes,
brinca com as coisas futuras;
desmonta o reino dos homens,
governa o reino do céu,
paira com D'us sobre as águas,
toma banho de chapéu.

A criança doma o medo,
rasga o finíssimo véu
sobre o sentido da Vida:
Só ela sabe o segredo,
o indizível segredo,
com que a brasa gera o mel.


***

Brinca com o amigo invisível

e me faz brincar também
Vejo em sua aura azulada
a esperança que me vem
num mundo novo futuro
de harmonia, paz e bem...


**********************




Em tempo:
a foto de Allana foi feita pela Paula Barros, ano passado, enquanto assistíamos ao Baile do Menino Deus, auto natalino que é apresentado no Recife Antigo. Allana olha fixamente para o palco, onde dança o Zabelê, linda criatura imaginária, que vem visitar o recém-nascido.