
Não sou religioso, gente. Posso até dizer que sou arreligioso. Mas não desdenho dos textos sagrados das religiões institucionais. Neles habita a sabedoria milenar dos povos. E, por que não dizer, de Deus. Pois bem: essa postagem aparentemente religiosa surgiu de uma saudação de ano novo, que me fez a amiga do blogue Canto da Boca, na minha postagem Canção do Mar: um déjà vu. Leiam o comentário abaixo e, logo em seguida dois curiosos e antagonicos fragmentos bíblicos:
Texto 1 - Anti-babel: comentário da Boca
"Que felicidade! Como somos o que sentimos e verbalizamos, Eu-ri-líri-co, forever! Li-te, senti-te e emocionei-me... O que sentes é tao tangível que de um modo muito meu, senti teus sentimentos. Semana passada em Lisboa, e passando por meus olhos, alma e coraçao tantos desses sentires, a Lisboa moura, da silabaçao encadeada, a Lisboa velha, a Lisboa nova, ou caminhando pelo Chiado e deslumbrando-me com a vida que também por lá caminha, a estátua de Pessoa, tao viva, tao vivo a contemplar mundos... E o sotaque luso, tão luso, tão difuso do meu, mas tão em confluência, tão em abrangência... Dilatado, dilatando...
...E na passagem de ano (que chamáramos de ONU, uma analogia às diversas nacionalidades presentes), ontem, todos estrangeiros, longes de suas gentes, mas com todas dentro-em-nós, apesar da multinacionalidade, falávamos a mesma língua: do amor, da fraternidade, da solidariedade (caboverdianos, chilenos, congoleses, brasileiros, mexicanos, peruanos, portugueses), mas em harmonia, celebrando a vida, o ano que ia, e cheios de esperanças, desse que acaba de chegar.
E vibro, e vivo, meu amigo Tãolírico todas as possibilidades que construo e as que me escaparam pelas maos... E o que te desejar? O mínimo que mereces: saúde, paz, amor, felicidade, amizade, harmonia, tranquilidade, junto com a sua família, e dinheiro para pagar as contas, mas para todos os dias.
Um 2009 iluminado e iluminante!
Abraço imenso e um beijo estalado na testa."
Canto da Boca
Texto 2 - Babel
"E era toda a terra de uma mesma língua e de uma mesma fala.
E disseram: Eia, edifiquemos nós uma cidade e uma torre cujo cume toque nos céus, e façamo-nos um nome, para que não sejamos espalhados sobre a face de toda a terra.
Então desceu o SENHOR para ver a cidade e a torre que os filhos dos homens edificavam;
E o SENHOR disse: Eis que o povo é um, e todos têm uma mesma língua; e isto é o que começam a fazer; agora, não haverá restrição para tudo o que eles intentarem fazer.
Eia, desçamos e confundamos ali a sua língua, para que não entenda um a língua do outro.
Assim o SENHOR os espalhou dali sobre a face de toda a terra; e cessaram de edificar a cidade." Gênesis, cap. 11
Texto 3 - Pentecostes
"E quando se completaram os dias de Pentecostes, estavam todos juntos no mesmo lugar; e veio de repente do céu um estrondo, como de vento que assoprava com ímpeto, e encheu toda a casa onde estavam assentados. E apareceram-lhes repartidas umas como línguas de fogo, e o fogo repousou sobre cada um deles. E foram todos cheios do Espírito Santo, e começaram a falar em várias línguas, conforme o Espírito Santo lhes concedia que falassem.
"Estavam então habitando em Jerusalém judeus, homens religiosos de todas as nações que há debaixo do céu. E logo que correu esta voz, acudiu muita gente, e ficou pasmada, porque cada um ouvia falar os discípulos na sua própria língua. Estavam pois todos espantados e se admiravam, dizendo: Por ventura não se está vendo que todos estes que falam são galileus? E como os ouvimos nós falar cada um a nossa língua em que nascemos?
"Partos, medos, elamitas e os que habitam a Mesopotâmia, a Judéia, a Capadócia, o Ponto e a Ásia, a Frigia, a Panfilia, o Egito, e as partes da Líbia que confina com Cirene e os vindos de Roma, também judeus, e prosélitos, cretenses e árabes, os temos ouvido falar em nossas línguas as maravilhas de Deus. Pasmavam pois todos e se admiravam dizendo uns para os outros: O que é que isso pode ser? Outros porém, escarnecendo, diziam: É porque estes estão cheios de mosto". Atos, cap. 2
**********************************************************
Leram? Então perceberam os grifos que fiz na descrição emocionada da amiga Boca, e o paralelo com os versículos grifados.
Pois bem:
Babel versus Pentecostes é a minha forma de dizer o que idealizo numa Frátria. Sei que sou utópico, mas utópico por opção profunda. Utópico engajado, compromissado, rsrsrs, se lá isso existe! Mas creio nessa possibiidade, apesar da dispersão babélica dos povos. Não prego um Esperanto, coisa que não foi possível realizar, apesar do idealismo do Zamenhof; a Frátria, como imagino, não é uma língua universal, mas uma cultura de comunhão, ou seja, um feixe de possibilidades de: convivencia fraternal, não-violencia, pluralismo e respeito pelas diferenças, solidariedade e cooperação entre os povos. A Frátria é Pentecostes e não Babel. Babel é a segregação: a confusão das línguas remete a uma confusão das almas, das mentalidades.
Pentecostes, pelo contrário, reunia um caudal de povos e de culturas, que testemunhou a xenoglossia dos apóstolos.
Mas, xenoglossia pra que?
Respondo:
Para difundir o Amor.
Para pregar a fraternidade.
Essa a razão do milagre das línguas no Pentecostes.
Então, por que uma frátria apenas lusófona?
Por que devemos começar pelos mais próximos, pelos falantes de nossa cultura, de nossa mátria.
Portanto, rumo à frátria, sou M.I.L. (Movimento Internacional Lusófono)
Querem participar? Cliquem no logotipo do início da postagem.
***************************************
Post-scriptum: O Eu-lírico anda muito prosa e pouca poesia.
É que estou na baixa estação poética, poeta bissexto que sou.
Ando na maré vazante da poíesis.
Mas, os ciclos da maré são o segredo do viço no manguezal.
***************************************