Uma Epígrafe



"...Quanto à poesia, parece condenada a dizer apenas aqueles resíduos de paisagem, de memória e de sonho que a indústria cultural ainda não conseguiu manipular para vender."...[Alfredo Bosi, in O Ser e o Tempo da Poesia, p. 133]

terça-feira, abril 30, 2013

RECIFE, CIDADE LENDÁRIA (Capiba na voz de Chico)




Eu ando pelo recife, noites sem fim
Percorro bairros distantes sempre a escutar
Luanda, luanda, onde está?
É alma de preto a penar
Recife, cidade lendária
De pretas de engenho cheirando a banguê
Recife de velhos sobrados, compridos, escuros
Faz gosto se ver
Recife teus lindos jardins
Recebem a brisa que vem do alto mar
Recife teu céu tão bonito
Tem noites de lua pra gente cantar
Recife de cantadores
Vivendo da glória, em pleno terreiro
Recife dos maracatus
Dos tempos distantes de pedro primeiro
Responde ao que eu vou perguntar:
Que é feito dos teus lampiões,
Onde outrora os boêmios cantavam
Suas lindas canções?



domingo, abril 28, 2013

DON'ANA DO ALMIRANTE, ou, os pioneiros da Ilha do Leite

Viveiro de Peixes - Percy Lau

Quem conta a história de fontes orais, como é o meu caso, tem de admitir lapsos, imperfeições, permitidas a quem não tem formação acadêmica para analisar as entrevistas e as situações que as envolvem. Sendo este também o meu caso. Meu afã, no entanto, é registrar tudo o que me contam os meus parentes, todos acima dos oitenta anos, sobre os albores do século XX, principalmente, da Ilha do Leite, no Recife.


 Pois bem, nessa sexta, 26/04/2013, em conversa com minha Tia Enilda Rosa de Melo, octogenária, moradora do Pina e que também conviveu com Dona Ana, na Ilha do Leite, descobri pequenos pontos divergentes entre o seu relato e o do meu pai Elias Eurico de Melo, falecido há dois anos. Quase todos, na descrição dos cenários do primeiro parágrafo da postagem anterior. Claro que as duas versões merecem registro, sendo meu pai bem mais velho do que minha tia...
João Alexandrino de Melo
(pioneiro na Ilha do Leite)

 Segundo Tia Enilda,em suas lembranças da Ilha do Leite, os proprietários das casas de alvenaria não eram os que citei, mas, os Srs. Manoel Rosa, Antonio de Souza e o meu tio-bisavô João Alexandrino de Melo. Este último, dono da maior casa da Ilha, detentor de uma situação financeira melhor, em relação aos outros moradores, pois, à época, era o Chefe da Manutenção da Companhia de Águas e Esgotos, prédio que existe até hoje, no lugar chamado Cabanga, ali, ao pé da Ponte do Pina. Diz que o Tio João permaneceu na Ilha, apesar das cheias frequentes e da ameaça da Liga Social contra o Mocambo. Além das 3 casas de alvenaria, havia ainda a casa do Manuel Teodoro, pai da Dona Ana, e a casa em que morava o meu avô Luiz de Melo, litógrafo e desenhista, sobrinho e filho de criação do Tio João. Falou-me das querelas de Dona Gertrudes, Tudinha, nossa tia-bisavó, esposa do Tio João, que era fã do clube das Pás de Carvão (hoje Pás Douradas), nascido ali, nas cercanias. O caso é que a mulher do vizinho, Antonio de Souza, (uma galega dos olhos azuis,num lugar de maioria negra) era fã do Lenhadores da Boa Vista (hoje da Mustardinha), rival nº 1 do Clube das Pás. Pelo carnaval a ilha era visitada pelas duas agremiações e as vizinhas se esmeravam na festa de acolhida, a ver quem fazia mais bonito na ocasião. Tia Gertrudes, mais abastada, sempre vencia a disputa. Contou-me também que lá surgiram famosas troças e clubes, tais como o Cachorro do Homem do Miúdo, de 1910, entre outros. Bons tempos...

 Minha tia Enilda me corrige, defensora ainda hoje das ações do Agamenon Magalhães e da sua Liga Social contra o Mocambo, dizendo que o meu avô saiu da Ilha pro Pacheco, por conta própria e bem antes das demolições. E que, da mesma forma fez o Manuel Teodoro, que levou a filha Dona Ana pra um dos morros do bairro de Cavaleiro, o que bate com certas teses de que o Estado Novo facilitaria a favelização dos morros do entorno do Recife, desde que os mocambeiros fossem viver de “Macacos pra lá”.
Neste mapa de 1908, pode-se localizar o banco de areia
em que moravam os pioneiros. Fica entre a Ilha do Suassuna e
o Hospital D. Pedro II, no centro da imagem.

Tia Enilda descreve ainda o lugar, como tendo um só ligação com o centro do Recife através de uma ponte de madeira muito longa, que ligava a Ilha até a Rua dos Prazeres. Disse que de onde moravam viam apenas o extenso braço de maré, “a maré grande”, a leste, o imponente prédio do Hospital Pedro II e, ao sul, o Coque, antigo povoado de carvoeiros, que resiste até hoje.

 Sobre dona Ana, ela lembra que havia um grande pé de cajá, com muita sombra, com banco rústico, feito de um tronco. Diz que Manuel Teodoro ali se sentava e, vez por outra chamava pela filha:
“Calimita, ó Calimita, me traga um pote d'água”.

 Disse ainda que o Sr. Manoel Rosa construía viveiros de peixes e crustáceos, fazendo diques com a lama da maré baixa. E era da pescaria que muitos dos moradores sobreviviam. Contou-me que, havia um campo de futebol , que ficava no areial, por trás da Igrejinha da Saúde, distante uns 200 metros desta. Creio que esse campo ficava, mais ou menos, no lugar onde hoje está a Clínica ITORK, do afamado ortopedista Romeu Krause, irmão do ex-ministro Gustavo Krause.
E, por falar no ITORK, anos atrás, estando minha esposa em tratamento nessa clínica, lá conheci um senhor bem apessoado, negro elegante, longilíneo, carapinha branca. Chamava-se Nivaldo, 78 anos, e era o porteiro do ITORK. Todos os dias eu estacionava o carro e enquanto esperava a esposa em tratamento, ficava conversando com aquele senhor bom de prosa. Certo dia eu disse que meu pai havia morado por ali, há muitas décadas. E, qual não foi o meu espanto, quando ele disse que foi menino na Ilha. E foi logo
Armando
(jogador do Bahia da Ilha do Leite)
confirmando o nome dos meus parentes todos. Lembrou do Campo do Bahia, de um primo meu distante que jogava bem o futebol, o Américo, por alcunha Memé. Lembrou de meu pai, de vovô Luiz. E eu então perguntei de quem ele era filho. E ele disse: do Manoel Rosa. Confirmando esse ponto da história que me passaram os meus parentes. Falou-me ainda, que do outro lado morava um carteiro, ali, dizia com os beiços, ali onde está aquele grande hospital. Ali era a casa do carteiro...
Infelizmente, Seu Nivaldo, já octogenário, filho caçula do Manoel Rosa, faleceu há pouco mais de um ano.

 Bem, são essas as correções e as novas informações que queria registrar da breve história de Dona Ana, que se mistura com a do meu povo, herdeiro que sou da Mucambópolis (rsrs), nome dado pela pesquisadora Zélia Gominho, ao Recife invisível, dos habitantes das margens dos Rios Capibaribe, Jiquiá, Tejipió e Jordão, expulsos pela política higienista do Estado Novo, e que foram fundar os grandes aglomerados dos morros da zona oeste da cidade.


P. S.:
Meu pai, tricolor de quatro costados, dizia-me que, ali perto, na Boa Vista, foi fundado o Santa Cruz, (quem sabe uma dissidência do Bahia, da ilha do Leite?). O Santinha, clube inicialmente alvinegro, é o xodó de boa parte da Família Melo. Eu, respeitosamente, sou uma ovelha negra, ou rubro-negra, já que sou torcedor do glorioso clube de outra Ilha, a do Retiro, ali pertinho. Clube mais antigo, pois é de 1905, e cujo fundador trouxe o esporte bretão para essa terra maurícia, para, bem depois, ensinar aos outros. O Náutico só aderiu ao futebol em 1909. O Santa só surgiria em 1914. Perdoem-me, os Melo, da Ilha do Leite, mas sou do Sport Club do Recife!

quinta-feira, abril 25, 2013

DONA ANA CARMELITA (dama do paço da Corte do ALMIRANTE do FORTE)

Pólo Médico da Ilha do Leite
Recife-PE

Quem vê as torres do pólo médico da Ilha do Leite, nem imagina como eram aquelas terras, há algumas décadas. Terras? Ali quase não havia terra. No início do século XX, só se viam pequenos bancos de areia, três pequenas casas de alvenaria e alguns palafitas. Uma dessas casas era do Vovô Luiz. Outra, do meu Tio-avô João, e a terceira de Seu Manuel Teodoro.
No meio dessa pequena povoação de mocambos (mocambo era o nome que na época se dava aos casebres ribeirinhos do Recife), erguia-se a pequena capela de Nossa Senhora da Saúde, que até hoje está lá, resistindo entre os espigões da Praça Miguel de Cervantes. Pois é, o antigo banco de areia hoje é uma grande praça e no seu entorno já não se vê o antigo manguezal. Grandes hospitais invadiram a margem do Rio Capibaribe e a cidade avançou sobre o antigo lugarejo de pescadores, carvoeiros, lavadeiras e outros ofícios da população ribeirinha, de maioria negra. 

Pça Miguel de Cervantes
(com igrejinha da Saúde)

Ali nasceu a nossa Carmelita Deodoro da Silva, nome de batismo, pois, na verdade, ela usava Ana Carmelita Teodoro. O seu pai, Manuel Teodoro, a chamava carinhosamente de “Calimita”...
Nós a conhecemos por Sinhá Nana, em casa de meus avós, quando ali ficou agregada, nos idos de 1960. Recentemente, o povo do Maracatu a conhecia por Don'Ana.


Capela de N. Sra da Saúde
Ilha do Leite - Recife-PE


Logo a família de Don'Ana, a de meus avós e todos os outros moradores seriam expulsos da Ilha do Leite, deslocando-se para a periferia da cidade. Tempos sombrios, em que a política do Estado Novo demolia os mocambos e a chamada Cidade Nova crescia, sob a política higienista da Liga Social contra o Mocambo, sufocando os mais pobres. Esse filme, infelizmente, a gente ainda vê hoje em dia...
Vovô Luiz e vovó Joaninha
(amigos de Don'Ana, desde a Ilha do Leite)
Álbum Família Melo
Don'Ana foi viver com meus avós, (que eram seus vizinhos desde a infância na Ilha), no bairro humilde do Pacheco, zona oeste do Recife. Lembro-me dela em sua azáfama diária: lavava e engomava os paletós de meu avô assoprando as brasas de um pesado ferro de passar. Era uma gigante para trabalhar. Não descansava. E além disso, cuidava com desvelo das crianças da casa. Vez por outra, nos levava ao Grupo Escolar, e apertava bem a nossa mãozinha, com medo de nos perder nas ruas. Era uma cuidadora amorosa e fiel.

Sinhá Nana (com balde na mão)
Álbum Família Melo
(3ª Trav. Estrada do Curado, Tejipió -  Década 1970)

Mas, quando se aproximava o carnaval, Don'Ana sumia. É o maracatu, dizia minha avó. Ela some nos dias que antecedem a festa e só volta na quarta- feira de cinzas. Eu, menino curioso, ficava intrigado com aquilo. Para onde ia a nossa Sinhá Nana?
Menininha
(calunga do Almirante)

Hoje eu sei porque ela sumia. É que ela era uma dama do paço, ou do “paaço”, em português arcaico. Paço, quer dizer, palácio. Lugar onde vive a realeza. E Don'Ana era a dama do paço da corte de um maracatu. Era a dama que dança com a calunga, uma boneca que representa a parte mística dos maracatus. E desde sempre foi dama, exclusivamente, do Maracatu Almirante do Forte. Jamais abandonou essa nação, que ela amava com toda a pureza d'alma. E como era puro o coração de Sinhá Nana!

Essa pureza, junto com os severos costumes da época, fez com que ela, ao engravidar do filho único, decidisse sair da casa de meus avós, que, por essa época, já tinham mudado para a casa de Tejipió. Don'Ana, grávida, foi acolhida em casa do fundador do Almirante, Mestre Antonio José da Silva, o pai do nosso Mestre Teté, e nunca mais saiu do convívio dessa família, que a tinha como uma segunda mãe. Casando, o filho único, tentaria morar em casa da nora, ali mesmo, nas cercanias. Mas o seu lar seria, definitivamente, a sede do Almirante do Forte, atual residencia do Mestre Teté, na Estrada do Bongi, 1319.
O tempo passou. Meus avós faleceram. E por décadas não mais tivemos notícias da nossa Tia Nana.
Sede do Maracatu Almirante do Forte
(durante a reforma em 2009)









Reencontrei Dona Ana em meados de 2008, por ocasião em que o Mestre Teté nos convidou para participar do Projeto do Ponto de Cultura Almirante do Forte. Dona Ana, senhora mais que centenária, já não desfilava com o cortejo. Mas estava sempre presente nos ensaios do grupo percussivo. Afinal, ela morava ali mesmo, na sede do Almirante. Quem não há de lembrar daquela sorridente velhinha, olhinhos apertados, a dançar, miudinho, num recanto da sala principal?

O maracatu era o destino de Don'Ana. Não tinha mais notícias do filho, que fora morar no interior, e nunca mais veio visitá-la. Sem outros parentes, a sua família era a nação Almirante. E ali viveu cercada de carinho e de cuidados, por quase 60 anos.
Mestre Teté, ladeado por Dona Ana (de lenço azul)
e Dona Josefa, sua genitora, na sede do Almirante



Hoje, na pátria espiritual, sei que Don'Ana, com aquela simplicidade, contempla o seu povo, a sua nação, uma das nações mais tradicionais de Pernambuco, com a certeza que a sua gente vai segurar no leme com fé e fazer o Maracatu Nação Almirante do Forte navegar para muitas vitórias, nesse oceano bravio, que é a nossa cultura popular.




Até um dia, Sinhá Nana!
Que a tua energia esteja sempre com nossa Nação!


Ana Carmelita Teodoro
24/05/1906 - 23/04/2013




domingo, abril 14, 2013

KINO-GLAZ ÁRIDO (ou, meu cine-olho lírico)


















a Dziga Vertov



Pra beber água?
Imita o gado.
É coisa simples:
Basta colar a boca na beira do barreiro
E sorver de vez o líquido quente, assim;
Com os dentes prender
os grãos de areia e
deixar descer pela goela a água tépida
a decantar-se em argila na traquéia.

Se como ratos?
Lagartixas?
Gafanhotos, feito São João Batista?

Por esse sol que me alumia, já comi, sim,
faz tempo...
e, sem ser profeta..

**************************************

E essa máquina que filma minha neta,
Assim franzina
(sai, menina!)
brincando nessa terra ressecada,
(sai, Dolores!)
zanzando ainda, comigo pelo mundo, Deus é pai!
Grave um recado pros homens que governam essa terra...
Ah, nojentos!
Insetos no solado da alpercata!
Diga a eles que de fome se morre,
Mas que de fome se mata!
Que as gentes não têm sangue de barata!


************************************



O Eu-lírico mergulha no semi-árido.
(fugindo da zona de conforto;
em que se discutem as aberrações apocalípticas de certo pastor)


Fonte da imagem:
Fatos e Fotos da Caatinga



quinta-feira, abril 11, 2013

AVES HERMÉTICAS



Essas palavras apenas vozeiam,
distraídos bandos sintáticos,
por pura obediência
às leis do ritmo e da contigüidade.
Nada pretendem dizer além do vôo.
Não fazem metáfora, nem mistério.
Vozeiam, simplesmente.

Mas eu as persigo
como um gavião faminto
persegue a sua presa
para renovar a (minha) vida...

Inútil,
esse (meu) desesperado afã de compreensão:
Herméticos, (as coisas, os motes),
milhanos, num vórtice,
devoram-me...



Fonte da imagem:
Aves atacam predador


Sounds of Nature - Forest Piano:


quarta-feira, abril 10, 2013

A VÁRZEA DE JOAQUIM CARDOZO





Soneto somente
(Joaquim Cardozo)

Nasci na várzea do Capibaribe
De terra escura, de macio turvo,
De luz dourada no horizonte curvo
E onde, a água doce, o massapé proíbe


Sua presença para mim se exibe
No seu ar sereno que inda hoje absorvo,
E nas noites com negridão de corvo,
Antes que ao porto do céu arribe


A lua assim só tenho essa planície...
Pois tudo quanto fiz foi superfície
De inúteis coisas vãs, humanamente.


De glórias e de alturas e de universos
Não tenho o que dizer nestes meus versos:
- Nessa várzea nasci, nasci somente.




Perfil/Bibliografia
Poeta, engenheiro, Joaquim Maria Moreira Cardozo nasceu no Recife, a 26 de janeiro de 1897, filho de um modesto guarda-livros. Na juventude participou das noitadas boemias recifenses, com figuras como o poeta Ascenso Ferreira e outros. Em 1934, foi um dos primeiros engenheiros calculistas da estrada Rio-Petrópolis.
Em 1939, após um giro pela Europa, volta para o Recife; entra em atrito com o então interventor federal em Pernambuco, Agamenon Magalhães, e muda-se para o Rio de Janeiro, onde passa integrar o grupo formado pelos intelectuais Manuel Bandeiras, Pedro Nava, Augusto Meyer, Lúcio Costa e outros.
Durante muitos anos, viveu entre as duas cidades: Rio e Recife. Entrou na literatura por influência de um irmão, que era poeta parnasiano. Publicou, em 1914, charges no Diário de Pernambuco. Seu primeiro poema modernista foi publicado pela imprensa em 1934.
O primeiro livro ("Poemas") foi editado em 1947, quando o poeta completava 50 anos de idade. Depois, vieram os outros livros: "Pequena Antologia Pernambucana" (1948); "Prelúdio e Elegia de Uma Despedida" (1952); "Signo Estrelado" (1960); "O Coronel Macambira" (1963) ; "Trivium" (1964); "Coletânea de Teatro Moderno" (O Capataz de Salema, Antônio Conselheiro e Marechal Boi de Carros, 1965); "De uma Noite de Festa" (1971); "Poesias Completas" (1971); "Os Anjos e os Demônios de Deus" (1973); "O Interior da Matéria" (1976).
Como engenheiro, integrou a equipe de Oscar Niemeyer na construção de Brasília, tendo feito os cálculos das estruturas dos palácios do Planalto e Alvorada e do prédio co Congresso Nacional. Morreu no Recife, a 04 de novembro de 1978. Publicações póstumas: "Um Livro Aceso e Nove Canções Sombrias", Editora Civilização Brasileira/Fundarpe, 1981; "Poemas Selecionados" (1997, organizado por César Leal).
Alguns poemas

Fonte do texto.:
PE-AZ - Joaquim Cardozo


Fonte das imagens:
 Revista Au - Arquitetura
 Carlos Bayma

terça-feira, abril 09, 2013

VÁRZEA (do Rio Capibaribe)

Oficina Brennand














A argila aguarda uma gama de possíveis atos
Vasos aves flores cajus potes
Alimárias estranhas
Totens insólitos
Mil entes dúbios e esse brilho baço
Na voz das formas vis, vitrificadas.

Haja vista
Que essa chã de saibro é plástica
E emersa duma inexata massa aquática,
Quem haveria de saber
Que o barro-massapê
Tem a multiface hermética
E que da lama desse rio
Vazava uma poética?




A Francisco Brennand e aos artistas da Várzea do Capibaribe - Recife - PE


Um rio flui e tudo flui, com Llewellyn - The Secret Waterfall:

sexta-feira, abril 05, 2013

M'BOIÚNA (sete serpes linossígnicas)

Fauna e Flora
E. B. Brito



Desdobra-se em dobras, redobras,
por vértices e vórtices,
um ser de mil bocas
mil línguas
[in/tensa-cobra-mítica]

Quando acuada, estertora prosódias,
                                            [sucuri-fônica]

Debate-se em rimas, plurirrimas assimétricas
    [áspide-rítmica]  .................................................

Tenta escapar do cerco
             [serpe-sintática]

                               Enrosca-se sobre si
[jibóia-morfológica]

Estruge, ruge,
                                 [anaconda-simbólica]

                                 Engole a própria cauda
[m'boiúna verbofágica]


E reverbera em verbos
...semióticos guizos...

 [linossignos ]

        guizos...
                                             [linossignos]
                                                                                    guizos...
                                                                          [..................]
                                                      
                                                                 guizos...           
                                                                                                  
                                                    [...p o e s i a...]                     






Fonte da imagem:


sexta-feira, março 29, 2013

OITO FLUXOS DISSOLUTOS



(ou, Exercícios de Fonossemântica)


Ouvindo Debussy  - La Fille aux Cheveux de Lin




"De la musique avant toute chose..." 
 (" A música antes de mais nada...") 
 Paul Verlaine (simbolista francês)



APRESENTAÇÃO



Os 8 poemas da série que abaixo vos apresento têm a musicalidade por essência.
Mais que poemas, são objetos estéticos, fabricados sobre fonemas,
cujas faces ritmadas ressoam nas assonâncias, nas aliterações, elisões e... alusões.
Verdadeiros artefatos verbais, estruturas fonéticas
que sugerem, mas, não nomeiam os seres nem as coisas;
em vez disso, apenas roçam, poeticamente, a realidade.

Em verdade, nem os considero poemas,
mas, fluxos fonossemânticos, modulados aleatoriamente.
Melodias dissolutas, que transcendem a letra e cujo espírito sopra onde quer.

Essa série argumenta a possibilidade de extrair das palavras,
não o nexo da sua estrutura, mas a poesia arraigada em seus sons.
E a poesia não está presa à lógica do sentido, está na intuição, na fantasia, na imaginação...



Metapoema de Abertura - PEQUENOS NADAS

Rendados - Carla Schwab





















"A Poesia é feita de pequeninos nadas e
(...) cada palavra tem uma função precisa,
de caráter intelectivo ou puramente musical, e não
serve senão a palavra cujos fonemas fazem vibrar
cada parcela da frase por suas ressonâncias anteriores
e posteriores".    (MANUEL BANDEIRA).


.
.
.
Eu traço versos
como quem trança
                os nós du'a rede.

.
.
In/vento-os,
Pequenos nodos,
            pequenos nadas,
feitos de vozes
         com que desfio,
                    fio após fio,
em des(a)linho, esses retroses
de quase nada.
Não têm motivo,
           não têm sentido,
                 esses liames
esses barbantes de fino linho,
que só têm ritmo,
tecido e rima,
mas não têm nome que os defina.

Enlaço os versos como quem ata
cordéis ao vento. . . como um encanto. . .
(Fecha essa página, se até agora
Não tens motivo nenhum de espanto.)

A cada linha aqui tecida,
de mim se escorre,
e em mim se míngua
a tessitura dos véus da língua...

Pois nesses laços que agora vedes,
há uma parte de mim
que morre
e outra parte que (se) me amarra à (minha) vida.

(Eu faço versos como quem tece u'a estranha rede...)



Fonte da imagem:
http://carlaschwab.blogspot.com/2010/04/rendados-carla-schwab_11.html




Poema nº 1 - ALFENINS


Imagem: Luísa Carneiro






















Enfileirem-se uns flácidos fonemas,
formando feixes deles,
em fornada fluente
:
Frases em flocos,
fluídas, de rar(o)efeito.

Lufadas de ar/tifícios,
forjados em foles.

Hiatos,
feito fluxos pífaros,
de oxítonos flautins;

Fabriquem-se, assim,
sobre melífluos morfemas,
fonoestéticos enfeites,
[esses]
movediços semantemas
:
Suspiros,
sussurross,
rebuçadosss,
filhoses, algodoados
e ôcas formas afins,
* * * * * * * * * *
que se esfarelem na fala,
ao feitio de alfenins.



Fonte da imagem:
http://i.olhares.com/data/big/137/1370591.jpg



Poema nº2 - CLARAS EM NEVE




























"Devemos ser suaves, suaves, suaves uns com os outros, porque somos muito frágeis..."

............................................................................Petra Maré, in Abrigo de Ventos

Dissolve-se um fonema,
em excipiente átono,
quase inaudível fluxo, in abstrato,
claras em neve,
i-lógico hiato...
de ilusória elisão.

Leva-se a lenir, vogal aberta,
u'a  flatus vocis,
em leve vozear, ao rés do vento,
dulcíssima alusão...

Servir, translúcida,
em céu algodoado.




Eurico
em reengenharia de nuvens...rs



Fonte da imagem (e da epígrafe):

Algodão em flor.



Poema nº 3 - BALÕES DE NADA





Atentai hoje
na ars poetica da bolha breve
que escapa leve de um tubo fino
com que um menino sopra a ilusão
Balão brilhante soprado a esmo que nada afirma
além do brilho pois que em si mesmo a nada alude
diversamente das que de gude lidam em lúdica competição
Só brilham estes casulos ocos vazios nulos e entrementes desvãos desvios
vácuos inócuos comas hiatos bulbos de ar fruta gorada e vã lenição
mero à esquerda hora perdida tiques e lapsos sons tautológicos
versos autistas frases recurvas sem dicção
balões de nada coisa fadada à
d i s s o l u ç ã o.





Fonte da imagem:
Abrigo de Ventos




Poema nº 4 - FLORADA






















Não olvideis, no entanto,
desses nichos vocálicos, minúsculos,
que, a um canto, oclusos,
roem o instante...

Eis que eles brotam dos sais,
monossilábicos ais
e alçam, em inesperados tons,
suas asas, brevíssimas, bilabiais.
Pululam, palpáveis sons,
mantras zen, interjeições...

Olhai os insetos do céu...

E não olvideis desse mel,
mimético mel, volátil,
tão metonímico mel.

Volvei as vistas ao léu:

borboleteiam abelhas,
com favos novos, verbais,
zumbidos consonantais,
arbitrárias uruçus,
em aglutinantes colméias
melífluas onomatopéias,
in/significantes zunzuns.



Fonte da imagem:
https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiNlrlrpro9JGvn3USMdia_JZ7Eyv0h4gk1saWmJ0anFgGfpwa1Fff8xJuT5eMPGKMPuDq2U1jm4UqHK_D1B3gXPwR91WMrtZDUFTj0GfKAZkMUt9g4MaH9lIYOLUvX9df9eXIR4Q/s1600/abelhas-e-favos-f6b46.jpg


Poema nº 5 - JARRA DE LUZ




























Dum jarro jorram jáculos
de lázuli sem mácula.
Vernáculos.
Cristais azuis em jactos,
aquáticos,
de luz coagulada.

Finíssimos filetes,
tentáculos,
de caules florescentes,
quais báculos,
em que rebentam brotos,
re/natos e trans/lúcidos,
da bela e inculta flor
do Lácio.




Fonte da imagem:
http://br.olhares.com/flor_azul_foto1973596.html



Poema nº 6 - IMPROVISO À CLARINETA






sié
çarua
sié
çarua
fossimin-
nha

eumã
dava
eumã
davamo-
dularrr
co'notinhas
co'notinhasdissonantes
parumeuparumeuamormalhar

sié
çalua
sié
çalua
fossiminha
eumãdava
eumãdava
eh
lah
brilharrr
comluzinhasmiluzinhasdissonantes
pareleh
pareleh
fantespassar

serpentinasciciantes
silhuetasdecetim
rodopiammilinfantes
piruetasdeguri

obrincanterodopia
quatrocantosdeolinda
braçossoltosmãomolenga
passotortopernafina
cabriolaabailarina
melodiafescenina
clarinetasbombardinas
vaievémnamultidão

pã
rammramm
rammramm
ramram

rammram!
taaa-taritari-tatá!




Eurico,
em dias de brincantes...rsrsrs

Fonte da imagem:
http://coretojs.blogspot.com/2009_11_01_archive.html




Poema nº 7 - FLUSS


















S. Tiago 4-14



Esse instante, outrora espuma,
não-lugar, desterritório.
(Esse fruto de estar só...)

Coisa in fieri, esse instante...
Quase frol.
Nuance.
Fiapo de lã, de luce.
Névoa no ar,
esfuma-se.

Flui-se,
esse instante, frui-se.
Véu evanescente: Fluss.



fonte da img:

 rosácea












u’a (p)Rosa

*  * *medra
*  *  *do prado


outra brota (pétrea)
*   *   *do átrio

est’outra
medra da madre
*    *    *de pedra
(poliedro*de*esquadro)
*   *   *   *no adro
*   *   *   *o bruto fruto
*   *   *   *da (p)Rosa
*   *   *   *(b)rota
*   *   *   *de pé/
*   *   *   *dra.






Imagem Google

















domingo, março 17, 2013

DAS JORNADAS CARNAVALÍRICAS (ou, Batutas não morreu, moça!)

Orquestra de Batutas de São José


 Créditos da imagem:




Estava eu no encontro de blocos Eu Quero é Mais, naquele fatídico 16/02/2013, dia em que o nosso músico Luquinhas Lyra foi baleado covardemente, na frente do Estádio do Náutico, (hoje, faz 30 dias, ele já saiu do coma e está em franca recuperação)... 

Bem... mas o que quero mesmo registrar é algo muito constrangedor que, infelizmente, meus pobres ouvidos foram obrigados a ouvir, no trajeto dos blocos líricos. Estávamos na Prudente de Morais, uma das famosas ladeiras de Olinda, quando cruzamos com o afamado Bloco Batutas de São José, do inolvidável Maestro João Santiago, que, no início do século XX, compôs Sabe lá o que é isso, a mais gostosa marcha de blocos do nosso carnaval:

“...sem você, meu amor,
Não há carnaval...
Vamos cair no passo
E a vida gozar!”

Pois bem, eu, folião de carteirinha e fã do Batutas, fiz a tradicional saudação:

Não deixem morrer Batutas!  

E, logo em seguida, escuto uma bela e firme voz feminina gritar, bem atrás de mim:

Já morreu faz tempo!

Voltei os olhos, curioso, e vi uma bela pierrete, portando um belíssimo flabelo, à frente de um bando de outras pierretes, lindamente trajadas. Era flabelista, a moça de cuja boca de carmim eu ouvi aquela verdadeira blasfêmia contra o bloco Batutas de São José, deca-campeão dos carnavais na década de 1960. 

Ah, a década de 60...
Batutas, por essa época, dominava o carnaval, seguido pelos Banhistas do Pina, outro grande campeão e por outras belíssimas agremiações, que eram a alegria dos amantes dos blocos líricos, como eu.

Não,senhorita! Não morreu, o grande Batutas. Jamais morrerá!  
Ele está na nossa alma, no sangue dos pernambucanos e foliões de todas as partes. 

E é por isso que lutamos, nós compositores dos blocos anônimos, os que têm pouca mídia e, portanto, pouca ajuda da Prefeitura. Lutamos pela preservação dos blocos mais humildes, que já foram a fina flor desse carnaval lírico.
Dia desses, vi Pirilampos de Tejipió, que evoluía, humildemente, no Pólo da Várzea. Meu coração ficou apertado ao ver o sofrível aspecto daquele bloco afamado, que foi o xodó do grande Guilherme de Araújo, e que sempre fez bonito nos carnavais de outrora. Não é à toa que nos versos de um dos mais belos frevos de bloco de todos os tempos, cita-se Guilherme e o seu Pirilampos:

“Felinto, Pedro Salgado, Guilherme, Fenelon,
Cadê teus blocos famosos?
Bloco das Flores, Andaluzas, Pirilampos, Apois Fum
Dos carnavais saudosos?”

Pois é, moça, é por eles que lutamos bravamente, que resistimos contra os insensíveis gestores da coisa pública, com honrosas exceções, que nada sabem dos bastidores de luta, dos sacrifícios que se fazem para botar um bloco na rua. E aqui louvamos a resistência dessa nova geração, que gosta do lirismo desses blocos antigos. Por isso, repito:

Não,senhorita! Não morreu, o grande Batutas. Jamais morrerá!  

Para concluir, tenho uma auspiciosa notícia: 

Descobri, em andanças pelo meu querido bairro da Várzea, que os blocos sem mídia estão articulando encontros na periferia da cidade, verdadeiras jornadas carnavalescas, em que seus cordões de pastorinhas, suas orquestras dedilhadas em cordas e palhetas, seus seresteiros e poetas estarão empunhando o flabelo da resistência popular pela nossa cultura. Exultemos! Um grupo solidário de foliões está conspirando em prol da alegria! 

Ainda ontem, à sombra de um frondoso jambeiro varzeano, centenário como tudo naquele arrabalde, ouvi palavras alvissareiras de uma das flores do Capibaribe, (que, por hora, não direi o nome, mas quem é de bloco lírico, sabe bem de quem falo). Trouxe-me, aquela flor, palavras inteligentes e decididas, que alegraram e muito o meu coração carnavalesco. É que nós, os blocos enraizados nos subúrbios do Recife e cidades do entorno, a partir de junho, talvez antes, estaremos trocando visitas uns aos outros, em festivas caminhadas líricas, pelas ruas dos nossos bairros, subvertendo, com alegria, o descaso dos nossos gestores, e produzindo cultura pelos nossos próprios meios, mesmo sem mídia, sem subvenção, que isso nunca foi obstáculo para os verdadeiros foliões.

Avante, seresteiros, avante, pastorinhas! O verdadeiro carnaval lírico está de volta aos lugares de onde saiu: os subúrbios históricos do Recife.  
Salve a periferia, salve os blocos líricos, salve o movimento de cultura popular, que nunca morreu, nem nunca morrerá. 

Batutas tem um passado de lutas.
Salve Batutas, Batutas vai vencer!

Finalmente, e por sabermos que os blocos nasceram também do ciclo natalino, oriundos das jornadas dos ranchos e pastoris, que se estendiam do dia dos Reis até o carnaval (vide Prof.  Júlio Vila Nova) sugiro o nome de Jornadas Carnavalíricas, para esses encontros e caminhadas suburbanas dos nossos alegres bandos, que ora  anunciam essa tomada de atitude pelo lirismo do carnaval dos subúrbios.

Luiz Eurico de Melo Neto
(um registro para a história)