Uma Epígrafe



"...Quanto à poesia, parece condenada a dizer apenas aqueles resíduos de paisagem, de memória e de sonho que a indústria cultural ainda não conseguiu manipular para vender."...[Alfredo Bosi, in O Ser e o Tempo da Poesia, p. 133]

segunda-feira, julho 30, 2012

CHAPADA DO ARARIPE




Do alto da chapada do Araripe,
encho o peito e brado em alta voz
o nome das virtudes humanas
(como aconselham os adeptos da auto-sugestão)
E eu grito:
Perseverança.
Coragem.
Fé.

Nada mudou.
Nada.
Só ouço o ecoar das palavras...

Lembro do Exército da Salvação
com zabumbas, na feira do Exu,
a pregar a segunda vinda de N. S. Jesus Cristo.
E eu brado, ainda, a favor dos ventos:
O fim está próximo!

Ouvem-se apenas o eco das minhas incertezas...

Quando se é jovem e nietzscheano
aventa-se para o amor fati,
ou para uma amoral vontade de poder.
Os estudantes saltam pra morte
do prédio das Ciências Humanas da UFPE.
Deviam vir todos saltar cá da chapada.
A morte aqui tem mais poesia...

Eu, que tenho medo da morte em queda livre,
encolho-me em volta do meu umbigo,
retorno à posição fetal:
De onde me virá o perigo?
Onde me abrigarei do mal?

Absolutamente só,
em meio a essa imensa legião humana.
Ouço seus gritos por sortes,
por crenças,
com uma inocência quase lotérica.
Absolutamente só
me invade uma súbita desolação
uma descrença dos livros e das palavras.

Resta-me ainda São Paulo Apóstolo:
Sou Nada. (1 Cor. 13)

Isso eu sei que sou!
Meu Deus!
Vejam a imensidão dessa chapada!
E o eco imenso a responder, do fundo do canion:

Nada... nada... nada...





Fonte da imagem:
Sertão de Pernambuco

quarta-feira, julho 11, 2012

FLUSS (autorretraço)
















S. Tiago 4-14



Esse instante, outrora espuma,
não-lugar, desterritório.
(Esse fruto de estar só...)

Coisa in fieri, esse instante...
Quase frol.
Nuance.
Fiapo de lã, de luce.
Névoa no ar,
esfuma-se.

Flui-se,
esse instante, frui-se.
Véu evanescente: Fluss.










fonte da img:

terça-feira, junho 12, 2012

JARDINEIRO DO AR

















Na latência, efloresce o patente...
E o novo está guardado no antes.
Nesse instante.

Há flor na luz solar.
Já é flor o ato de florar.
Flor é a possibilidade de ser flor...

...quando chove sobre a terra,
os úberes se entreabrem.
Antevejo corolas encarnadas.

Efloresço.

Eu serei eu: flor-futura.
Já úmidas, as pét'las.
Saudade do amanhã...




Fonte da imagem:
 Raquel Bitencourt


domingo, junho 03, 2012

Pequenos Nadas


Rendados - Carla Schwab





















"A Poesia é feita de pequeninos nadas e
(...) cada palavra tem uma função precisa,
de caráter intelectivo ou puramente musical, e não
serve senão a palavra cujos fonemas fazem vibrar
cada parcela da frase por suas ressonâncias anteriores
e posteriores".    (MANUEL BANDEIRA).


.
.
.
Eu traço versos
como quem trança
                os nós du'a rede.
.
.
.
In/vento-os,
Pequenos nodos,
            pequenos nadas,
feitos de vozes
         com que desfio,
                    fio após fio,
em des(a)linho, esses retroses
de quase nada.
Não têm motivo,
           não têm sentido,
                 esses liames
esses barbantes de fino linho,
que só têm ritmo,
tecido e rima,
mas não têm nome que os defina.

Enlaço os versos como quem ata
cordéis ao vento. . . como um encanto. . .
(Fecha essa página, se até agora
Não tens motivo nenhum de espanto.)

A cada linha aqui tecida,
de mim se escorre,
e em mim se míngua
a tessitura dos véus da língua...

Pois nesses laços que agora vedes,
há uma parte de mim
que morre
e outra parte que (se) me amarra à (minha) vida.

(Eu faço versos como quem tece u'a estranha rede...)



Fonte da imagem:
http://carlaschwab.blogspot.com/2010/04/rendados-carla-schwab_11.html

Retome a teia, curtindo CLAUDE DEBUSSY - La Fille aux Cheveux de Lin

sexta-feira, maio 11, 2012

ATÉ UM DIA, POETA ROMERO AMORIM!


Romero Amorim recebe flores das mãos de Samantha
(Evento: Movimenta Várzea/2010)


Tributo a Romero Amorim
(frevo-ciranda)

Um beija-flor beija a flor, suavemente,
num flamboyant debruçado sobre o rio...
E as pastorinhas passam cantando, alegremente,
sob um céu de anil.

A linda pastorinha
dos lábios de carmim
canta um frevo-ciranda
para o poeta Romero Amorim.

Vai, linda flor,
e leva flores pro bom compositor.
Graças a ele o nosso bloco vai
brincar na Aurora dos Carnavais...




Compositor: Lula Eurico/2010
(todos os direitos doados ao Bloco Lírico Flores do Capibaribe)


(Reeditamos essa postagem, ainda estremecidos com a notícia
da partida do Poeta Romero Amorim.
A ele nossa gratidão, nossa saudade, nossa reverência...
Até um dia, Poeta da Aurora! 
Recife, 11/05/2012)

terça-feira, maio 08, 2012

CRISTALINOS (poema-escorço)

Imagem daqui

"A poesia: tão bom que me grudasse na córnea pra sempre."
                                  Tania Regina Contreiras



Alçar voo, com asas de ver:
Flamboyants, guris, abelhas...
(Sei que é parco o pão na mesa)
Mas se há crianças: beleza.

Ruflar pálpebras, ao sol:
(Ontem foi um dia duro.
Mas, foi ontem. Já passou.)
E essa brisa ajuda os olhos,
Revoando... são crianças.

Roçar nuvens com as pupilas,
Esses olhos, essas asas...
(Nada como estar em casa,
Onde há leveza... e crianças)

Não consigo perder a esperança.



Debussy - Children's Corner - Jimbo's Lullaby:



Mais sobre poema-escorço, aqui

Dedicado, mui fraternalmente, ao prof. Diógenes, amigo e irmão mais novo.

domingo, maio 06, 2012

HERESIAS Nº 3






Vencido está
quem de teu brilho sabe.
Tua força é madre
e em ti revive o orbe.
Trazes saltérios, flautas
e essa dança
num Reino governado por crianças:
És o Caminho
da vida em abundância.


***


Fonte da imagem:

quarta-feira, abril 25, 2012

HERESIAS Nº 2




Avia-te, ó Bardo!

Estás na humilde trípode
e em ti se evocam as vozes femininas
dos arcanos celestes.

Não és mais teu.
E os orbitais
das cousas indizíveis
invadem-te as sinapses.


Avia-te!
E retoma o Caminho.






Fonte da imagem:

segunda-feira, abril 23, 2012

HERESIAS Nº 1



Uma infinidade de justapostas (in)certezas
formam em minhalma um instável mosaico.

Mil ritos sufocam-me
e a profusão de verdades litúrgicas engessa-me a emoção.

...Sonho a liberdade de uma Samaria proscrita...


Já não temos poços, nem cântaros;

A brisa sopra onde quer.
Beberei das nuvens que escorrem
das Tuas Mãos em concha.
Retomo as minhas pegadas nesse oculto Caminho do Interior.





Imagem recolhida do Google.

quarta-feira, abril 18, 2012

É PRECISO AMAR...

Intensidades e perplexidades.
Quem vai querer mudar o que deve ser mudado?



Quem quer mudar a si mesmo?