Uma Epígrafe



"...Quanto à poesia, parece condenada a dizer apenas aqueles resíduos de paisagem, de memória e de sonho que a indústria cultural ainda não conseguiu manipular para vender."...[Alfredo Bosi, in O Ser e o Tempo da Poesia, p. 133]

terça-feira, agosto 07, 2012

VÁRZEA (do Rio Capibaribe)

Oleiro















A argila aguarda uma gama de possíveis atos
Vasos aves flores cajus potes
Alimárias estranhas
Inúteis totens
Mil entes dúbios e esse brilho baço
Na voz das formas vis, vitrificadas.


Haja vista
Que essa chã de saibro é plástica
E emersa duma inexata massa aquática,
Quem haveria de saber
Que o barro-massapê
Tem a multiface hermética
E que da lama desse rio
Vazava uma poética?






Oficina Brennand














Aos artistas da Várzea do Capibaribe - Recife - PE


Um rio flui e tudo flui, com Llewellyn - The Secret Waterfall:

domingo, agosto 05, 2012

Lançamento do livro VÁRZEA, do Dr. Marcos Ferreira Sobrinho

capa do livro de crônica Várzea
A bela capa do livro VÁRZEA, de Marcos Ferreira
.
Em noite agradável e enluarada, deste sábado 04/08/2012, a comunidade varzeana celebrou o lançamento do livro de crônicas do Dr. Marcos Ferreira da Silva Sobrinho. Várias gerações estiveram presentes e a fila de assinaturas dava voltas no salão de festas do CAD. Sentíamos em cada jovem, em cada senhor, em cada senhora, um orgulho de ser varzeano, que é raro, muito raro, encontrarmos em outros bairros do Recife. Afinal, se somos considerados uma cidade das revoluções, o arrabalde  da Várzea do Capibaribe é pioneiro não só nas lutas libertárias do burgo recifense, mas na sua autonomia economica, na sua urbanização  para o oeste;  guardando, principalmente, em sua gente, talentosa, combativa e orgulhosa de suas origens, um   legado cultural,  imprescindível na formação da nossa identidade.

Parabéns, ao Dr. Marcos, que, apesar de sua vida assoberbada de dedicado ginecologista e obstetra, achou tempo para garimpar as preciosidades contidas em seu Várzea - Lembranças de um tempo que se foi, valioso repositório de reminiscências e de história, que ontem nos ofertou.

Contracapa do livro Várzea

sexta-feira, agosto 03, 2012

DEMARCAÇÃO DA POESIA Nº 1


Ao meu mestre e amigo Emanuel Bezerra de Brito


Meu canto é que nem um filete d’água
minando a pulso de um lajeiro.
É assim, arrastado, gutural,
canto monossilábico, melopéia pungente,
arrancada da pedra que sangra no reino de meu peito.

Canto esse meu canto agoniado, esse relincho, esse mugir,
essa infralinguagem,como a linguagem dos bichos
que tanjo em meu sertão profundo..
Vou cantando e tangendo esse gado invisível,
por entre espinharas sibilantes e seixos esbraseados.

Meu canto germina,
 feito um cardeiro em minha alma de abrolhos,
na solidão e no silêncio,
durante as léguas tiranas dessa caatinga interior.
Dessa terra rachada e sem húmus,
exsurge um léxico raquítico,
vocábulos mínimos
 que se alongam, tristes aboios, mugidos,
na minha garganta rouca e ressecada.

Com a morte em minhas lembranças
e a dor em minhas andanças,
canto uma agonia fechada, solitária,
universo parco de cabras e pedras,
quase sem palavras com que se cantar.


Eurico
in: Ser Tão Profundo/Mangue Interior


Fonte da imagem:

segunda-feira, julho 30, 2012

CHAPADA DO ARARIPE




Do alto da chapada do Araripe,
encho o peito e brado em alta voz
o nome das virtudes humanas
(como aconselham os adeptos da auto-sugestão)
E eu grito:
Perseverança.
Coragem.
Fé.

Nada mudou.
Nada.
Só ouço o ecoar das palavras...

Lembro do Exército da Salvação
com zabumbas, na feira do Exu,
a pregar a segunda vinda de N. S. Jesus Cristo.
E eu brado, ainda, a favor dos ventos:
O fim está próximo!

Ouvem-se apenas o eco das minhas incertezas...

Quando se é jovem e nietzscheano
aventa-se para o amor fati,
ou para uma amoral vontade de poder.
Os estudantes saltam pra morte
do prédio das Ciências Humanas da UFPE.
Deviam vir todos saltar cá da chapada.
A morte aqui tem mais poesia...

Eu, que tenho medo da morte em queda livre,
encolho-me em volta do meu umbigo,
retorno à posição fetal:
De onde me virá o perigo?
Onde me abrigarei do mal?

Absolutamente só,
em meio a essa imensa legião humana.
Ouço seus gritos por sortes,
por crenças,
com uma inocência quase lotérica.
Absolutamente só
me invade uma súbita desolação
uma descrença dos livros e das palavras.

Resta-me ainda São Paulo Apóstolo:
Sou Nada. (1 Cor. 13)

Isso eu sei que sou!
Meu Deus!
Vejam a imensidão dessa chapada!
E o eco imenso a responder, do fundo do canion:

Nada... nada... nada...





Fonte da imagem:
Sertão de Pernambuco

quarta-feira, julho 11, 2012

FLUSS (autorretraço)
















S. Tiago 4-14



Esse instante, outrora espuma,
não-lugar, desterritório.
(Esse fruto de estar só...)

Coisa in fieri, esse instante...
Quase frol.
Nuance.
Fiapo de lã, de luce.
Névoa no ar,
esfuma-se.

Flui-se,
esse instante, frui-se.
Véu evanescente: Fluss.










fonte da img:

terça-feira, junho 12, 2012

JARDINEIRO DO AR

















Na latência, efloresce o patente...
E o novo está guardado no antes.
Nesse instante.

Há flor na luz solar.
Já é flor o ato de florar.
Flor é a possibilidade de ser flor...

...quando chove sobre a terra,
os úberes se entreabrem.
Antevejo corolas encarnadas.

Efloresço.

Eu serei eu: flor-futura.
Já úmidas, as pét'las.
Saudade do amanhã...




Fonte da imagem:
 Raquel Bitencourt


domingo, junho 03, 2012

Pequenos Nadas


Rendados - Carla Schwab





















"A Poesia é feita de pequeninos nadas e
(...) cada palavra tem uma função precisa,
de caráter intelectivo ou puramente musical, e não
serve senão a palavra cujos fonemas fazem vibrar
cada parcela da frase por suas ressonâncias anteriores
e posteriores".    (MANUEL BANDEIRA).


.
.
.
Eu traço versos
como quem trança
                os nós du'a rede.
.
.
.
In/vento-os,
Pequenos nodos,
            pequenos nadas,
feitos de vozes
         com que desfio,
                    fio após fio,
em des(a)linho, esses retroses
de quase nada.
Não têm motivo,
           não têm sentido,
                 esses liames
esses barbantes de fino linho,
que só têm ritmo,
tecido e rima,
mas não têm nome que os defina.

Enlaço os versos como quem ata
cordéis ao vento. . . como um encanto. . .
(Fecha essa página, se até agora
Não tens motivo nenhum de espanto.)

A cada linha aqui tecida,
de mim se escorre,
e em mim se míngua
a tessitura dos véus da língua...

Pois nesses laços que agora vedes,
há uma parte de mim
que morre
e outra parte que (se) me amarra à (minha) vida.

(Eu faço versos como quem tece u'a estranha rede...)



Fonte da imagem:
http://carlaschwab.blogspot.com/2010/04/rendados-carla-schwab_11.html

Retome a teia, curtindo CLAUDE DEBUSSY - La Fille aux Cheveux de Lin

sexta-feira, maio 11, 2012

ATÉ UM DIA, POETA ROMERO AMORIM!


Romero Amorim recebe flores das mãos de Samantha
(Evento: Movimenta Várzea/2010)


Tributo a Romero Amorim
(frevo-ciranda)

Um beija-flor beija a flor, suavemente,
num flamboyant debruçado sobre o rio...
E as pastorinhas passam cantando, alegremente,
sob um céu de anil.

A linda pastorinha
dos lábios de carmim
canta um frevo-ciranda
para o poeta Romero Amorim.

Vai, linda flor,
e leva flores pro bom compositor.
Graças a ele o nosso bloco vai
brincar na Aurora dos Carnavais...




Compositor: Lula Eurico/2010
(todos os direitos doados ao Bloco Lírico Flores do Capibaribe)


(Reeditamos essa postagem, ainda estremecidos com a notícia
da partida do Poeta Romero Amorim.
A ele nossa gratidão, nossa saudade, nossa reverência...
Até um dia, Poeta da Aurora! 
Recife, 11/05/2012)

terça-feira, maio 08, 2012

CRISTALINOS (poema-escorço)

Imagem daqui

"A poesia: tão bom que me grudasse na córnea pra sempre."
                                  Tania Regina Contreiras



Alçar voo, com asas de ver:
Flamboyants, guris, abelhas...
(Sei que é parco o pão na mesa)
Mas se há crianças: beleza.

Ruflar pálpebras, ao sol:
(Ontem foi um dia duro.
Mas, foi ontem. Já passou.)
E essa brisa ajuda os olhos,
Revoando... são crianças.

Roçar nuvens com as pupilas,
Esses olhos, essas asas...
(Nada como estar em casa,
Onde há leveza... e crianças)

Não consigo perder a esperança.



Debussy - Children's Corner - Jimbo's Lullaby:



Mais sobre poema-escorço, aqui

Dedicado, mui fraternalmente, ao prof. Diógenes, amigo e irmão mais novo.

domingo, maio 06, 2012

HERESIAS Nº 3






Vencido está
quem de teu brilho sabe.
Tua força é madre
e em ti revive o orbe.
Trazes saltérios, flautas
e essa dança
num Reino governado por crianças:
És o Caminho
da vida em abundância.


***


Fonte da imagem: