
Enterneço-me...
Esse é meu método fenomenológico de acercar-me à realidade.
Não busco saber o mundo, dom inacessível,
Contenta-me o afã da compreensão, e assim,
Intento aproximar-me de tudo e de mim,
pela ternura.
Pelo lirismo, eu diria, ingenuamente.
Esse é o portal de tudo.
Enterneço-me... e assim aprendo
a ver mais profundamente.
Exemplo disso são os colibris
que beijam flores em nosso quintal...
Eles decifram-me a minha mãe,
a enigmática guardiã de crotes e avencas...
Daqui, de dentro da ternura,
enfim, enxergo a rua
toda a rua, cinzenta e nua:
Não há mais verde na vizinhança.
Por isso a fauna miúda vem pra cá.
Lagartos, colibris, formigas.
(Ai, com que ternura tão antiga
minha mãe abriga
tudo isso aqui...)
E só agora,
nessa fenomenológica ternura, eu percebi.
Mãe, minha amiga!
Li teu enigma.
E esvoaço, enternecido.
Por um instante estou colibri...

