Uma Epígrafe



"...Quanto à poesia, parece condenada a dizer apenas aqueles resíduos de paisagem, de memória e de sonho que a indústria cultural ainda não conseguiu manipular para vender."...[Alfredo Bosi, in O Ser e o Tempo da Poesia, p. 133]

domingo, julho 31, 2011

CÁLIX



De pé sobre as águas
Ergo até a fronte, em brasa,
A Palavra.
Seu hálito me invade
E acende a porta, a estreita porta,
Vazada sobre a noite dos tempos.
Mesmo quando sobrevoa-me em círculos
A ave do ocaso:
Nada dizer.
Nenhum pensar.
Nada ser.
Chorar sobre a cidade agônica
E olhar-me de fora das muralhas.
Tenho um centro ou dilato-me centrífugo?
Todos os ninhos estremecem vazios.
Estou sem mim.
Mas há címbalos.



Luiz Eurico de Melo Neto

Poema também publicado, anos atrás,  em http://www.blocosonline.com.br/
por gentileza da amiga Leila Míccolis - Maricá-RJ
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Imagem:
Solidão

Comentário deste poema em
Um Cronist'Amador


Ouçam, baixinho e reverentemente, Cálice -Chico e Milton:

quinta-feira, julho 28, 2011

VÁRZEA (do Rio Capibaribe)

Oleiro


 













A argila aguarda uma gama de possíveis atos
Vasos aves flores cajus potes
Alimárias estranhas
Inúteis totens
Mil entes dúbios e esse brilho baço
Na voz das formas vis, vitrificadas.


Haja vista
Que essa chã de saibro é plástica
E emersa duma inexata massa aquática,
Quem haveria de saber
Que o barro-massapê
Tem a multiface hermética
E que da lama desse rio
Vazava uma poética?






Oficina Brennand














Aos artistas da Várzea do Capibaribe - Recife - PE


Um rio flui e tudo flui, com Llewellyn - The Secret Waterfall:

terça-feira, julho 26, 2011

TAXONOMIA (excerto de um antigo manuscrito)


























(...) Em certa ordenação das alusões,
os seres abstratos surgem como:

I -  evanescentes;

II -  amalgamados,

III -  costurados pelo avesso;

IV -  descritos entre aspas;

V -  fabulosos;

VI -  plenos de liberdade;

VII - beatíficos e átonos;

VIII -  que se agitam à flor d’água;

IX -  imponderáveis;

X - passíveis de arqueologia do nexo;

XI -  os que esperam ser inventados;

XII -  E os que nos fazem tropeçar sob as marquises.(...)


















Fontes das imagens
http://mw2.google.com/mw-panoramio/photos/medium/6435580.jpg
http://blog.oficioeditorial.com.br/2009/10/31/entre-o-colunismo-literario-e-a-critica/


Para levitação: Vangelis & Jon Anderson -  Mystik - Gregorian - Medieval (Album)

segunda-feira, julho 25, 2011

TANTÃS (uma celebração)



Dionisos é negro e dança em transe,
Vertiginosa dança com seus mitos.
Escuto o som distante:

Tum dee dee dum!

Maracatumbam tambores:
Tum dee dee dum, dee dee dum!
Vozes líquidas vazam dos casebres
onde se dança à transmutação.

Abro a janela,
instante numinoso,
júbilo de concelebração:

Tum dee dee dum a um Pã universal!

Sem guante a africana gesta e um falo
fecunda intensamente a natureza.
Regaço, cosmos, mãe, força telúrica:
Deus é um útero,
um dentro, um aconchego.

E solto Dionisos dança negro,
abandonado à ondulação da vida,
vertiginosa dança com seus ritos:

Tum dee dee dum
com alegria cósmica,
voz de tambores, noite suburbana.
Sambarrebatamento nos barracos
e percutidos gritos ao Infinito!



***

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Nota do editor: (em meados de 2009)

O motivo dessa reedição do poema Tantãs
é a total falta de espaço na mente para poetar.
Ando com a cabeça, o corpo e os membros
todos dedicados a pensar o projeto do
Lá estou eu a produzir um roteiro para um curta,
uma cartilha com a história do maracatu para as crianças,
um álbum iconográfico/documentado sobre as origens grupo,
uma grife afro para gerar renda extra,
e já planejando o carnaval 2010.
E tudo isso é a primeira vez que faço na vida.
Entenderam porque não tenho postado?
rsrsrs


Eurico


Poema publicado originalmente
no zine Eu-lírico n.º 4, Ano 1995,
em Edição comemorativa dos 300 anos de Zumbi


Fonte da imagem:
http://sol.sapo.pt/Storage/ng1012228.jpg

Resenha do processo criativo deste poema:
UM CRONIST'AMADOR
pelo poeta Carlinhos do Amparo

Em tempo:
e corrigindo um lapso da primeira publicação,
o poema é dedicado ao poeta e político senegalês,
Leopold Sedar Senghor (1906-2001)

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No BG: Afrociberdelia - Côco Dub, Chico Science & Nação Zumbi

                             


                   

domingo, julho 24, 2011

TODOS OS SENTIDOS

Estranha coisa, a poesia do que nos é familiar.



Fonte da imagem:
escolhas que podemos fazer



Bom domingo,
em todos os sentidos,
com a franco-argelina Amel Brahim-Djelloul,
en/cantando a ária Cantilena ( das Bachianas, nº 5, do Villa-Lobos).

sábado, julho 23, 2011

TERCEIRO OLHO ( ainda, Os Sentidos: o Sentido)



Hubble
imagem recolhida do Google


Ver não é apenas compilar
pontos desconexos, pixels,
varreduras de imagens por segundo.
Ninguém vê apenas com os olhos.
Esses mesmos olhos com que se está
à mesa da cozinha a cortar cebolas
e a chorar lágrimas sem nexo.
Ver vai além do apenas ver.
Interpreta-se assim que se olha,
se é cebola ou emoção,
o que arde nos olhos.
E o conceito já vem atado à coisa que se vê.
Por isso, acautelai-vos com o visual.

(Bom seria fechar os olhos por minutos
ou passar os dias longe dos televisores.
Há muito o que se ver na própria tela mental.)

Imaginem:
A Poesia é um imenso nascedouro de imagens.
Hubble às avessas.
Ôlho pra dentro.
Muito dentro,
em regiões abissais.


Dentro de mim,
o riso distraído e indene
de uma criança revolvendo a Terra.
A bola colorida e um pátio: o espaço.
Um poço com roldana.
Um olho que me olha no centro imemorial da noite.
A hera.
As eras.
Estrelas, lumes, vagalumes.
Lá no centro de mim,
sou um buraco negro e aquático,
galáxia aprazível.
Esse colo estelar, ubérrimo,
irresistível.

(Voluteio, centrípeto,
pra dentro de Deus?)

Eis que a Poesia alberga esse invisível
fulcro numinoso

:

Mãe!
Sou eu, filho...




Imagem Google aqui

Renasçam, entre o sagrado e o profano, ouvindo Debussy:
(a melodia é longa, mas é tão bela, que merece ser ouvida até a última nota)



Eurico
Reedição de poema para a Série:
Os sentidos (O Sentido)



SÉRIE: OS SENTIDOS (O SENTIDO) Nº 5






















KINO-GLAZ ÁRIDO - movie lírico (poema nº 5)
 
a Dziga Vertov



Pra beber água?
Imita o gado.
É coisa simples:
Basta colar a boca na beira do barreiro
E sorver de vez o líquido quente, assim;
Com os dentes prender
os grãos de areia e
deixar descer pela goela a água tépida
a decantar-se em argila na traquéia.

Se como ratos?
Lagartixas?
Gafanhotos, feito São João Batista?

Por esse sol que me alumia, já comi, sim,
faz tempo...
e, sem ser profeta..

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E essa máquina que filma minha neta,
Assim franzina
(sai, menina!)
brincando nessa terra ressecada,
(sai, Dolores!)
zanzando ainda, comigo pelo mundo, Deus é pai!
Grave um recado pros homens que governam essa terra...
Ah, nojentos!
Insetos no solado da alpercata!
Diga a eles que de fome se morre,
Mas que de fome se mata!

QUE AS GENTES NÃO TÊM SANGUE DE BARATA!














Fontes das imagens:

Fatos e Fotos da Caatinga








Música p/ BG: Recuerdos de la Alhambra (Tárrega) - Andres Segovia



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sexta-feira, julho 22, 2011

SÉRIE: OS SENTIDOS (O SENTIDO) Nº 4


























CANÇÃO DE TUDO (poema nº 4)





Há uma melodia em tudo o que se move.
Uma música browniana,
eu diria,

que há mesmo um timbre subreptício
no fluxo do ser das coisas, ab initio.
Uma música no carreiro das formigas e das galáxias.
Uma música de tudo...


Desde o movimento imenso, o belo Sete-estrêlo ,
até o humilde arroio, em seu áspero leito.


Esse silêncio.


a débil vibração das asas de uma vespa.
e uma oitava acima, o luminoso som da aurora boreal,
Os entretons da voz sonora
das carambolas
que ora penduleiam
entre as galhas
que farfalham

que espalham uma melodia


Os sons.
A impressão dos sons...
esse ranger de dentes
um interno trote,
um galope, o coração..


A voz presa na glote,
o fagote,
a úvula, a uva e o euritmo da chuva.


O cravo temperado
o som das mangas verdes 
em diáfanos vestidos (não vedes?)
Gravetos percutidos pelos pés.
Mil setas que sibilam.
E o pipilar das aves, dentro e fora.


A música do agora 
brilhante e bela música
de uma eterna estação
Ecoa consoante
desde antes,
muito antes,
na música desse instante.











Fonte das imagens:
http://ini.topotesia.net/node/1079


Mangas na safra.






Nota do blogueiro:

(canção a ser musicada ao violão)






Os sons das coisas: (chuva sobre piano)

SÉRIE: OS SENTIDOS (O SENTIDO) Nº 3

DINAMARCA



http://turismo.culturamix.com/blog/wp-content/uploads/2010/06/28.jpg













OS DELFINS DINAMARQUESES (poema nº 3)



Compulsando
a gens portucalense
aqui aportada há cinco séc'los,
gente de armas e brasão:
Os Albuquerque,
Cavalcanti,
Maranhão,
reforço a minha crença
no criacionismo (sem ironia)
e na genealogia
desde Adão...
Não existe assertiva mais exata.
Como crer que gente tão ilustre foi primata?


Não.
Eles descendem dos galegos,
dos batavos, dos ostrogodos,
visigodos, romanos, gregos.
Diz-que foram mesmo (em outras vidas)
oráculos, sibilas, celtas e druídas.
Nunca houve uma estirpe mais sensata.
Como crer que essa boa gente foi primata?


Heróis do panteão,
Santos do hagiológio,
Deuses do Olimpo,
É o que foram.
Diz-nos a história.
Homero,
Cícero,
Camões,
os vates cantam as suas glórias.
e os exaltam.
Não há uma certeza mais exata.
Como crer que essa gente foi primata?


Discordo mesmo da corrente pessimista,
que chega a postulados desse porte:


O homem é um decadente.
Um ser-para-a-morte.



Como afirmar isso, minha gente?
Basta ver em ação seus descendentes:
Os vikings, os mongóis. O huno, Átila.
Seres serenos e gentis...
Por que primatas?


Criatura de Deus é o Homo Sapiens.
Um ser que ama a vida e nunca a morte.


No entanto,
há exceções de toda sorte
que encontrareis no mundo, em toda parte.
Mas, pasmem:
Até na civilizada Dinamarca,
há seres vis,
que não se deve mesmo comparar com o bom primata.


Existe por aí uma fera infra-humana
Um ser desnaturado, besta insana
que descende de Caim, vindo de Adão,
(uma exceção àquela regra tão exata)
que, além de um ser-para-a-morte, é


UM SER-QUE-MATA!!!
















http://naodaparaficarcalado.blogspot.com/2009/09/matanca-de-golfinhos-em-ritual-de.html


















http://petroglifotribal.blogspot.com/2009/10/dinamarca-matanca-anual-dos-golfinhos.html

 Para aliviar os sentidos: Gregorian Chants - Kyrie eleison, de Mozart.

quinta-feira, julho 21, 2011

SÉRIE: OS SENTIDOS (O SENTIDO) Nº 2




















DELÍRIO EM AZUL (poema nº 2)


Quando Ela nos alcança, cadavérica e terrível,
De nada adiantam as especulações ontológicas,
A teleologia
ou
a incognoscível redução fenomenológica;


Nada nos salva,
nem mesmo a transubstanciação eucarística.


Ela chega destruindo toda ciência,
toda consciência.
Ela ressoa no cerne mesmo
daquilo que os saciados chamam alma.


Aos poucos Ela invade o núcleo das células,
que se vão devorando umas às outras,
fugindo da inanição.
As sístoles e as diástoles se atropelam.
A Razão fraqueja.


E o Ser começa a delirar na cor azul.


Porém, quando Ela nos alcança,
o sentido profundo da vida se revela,
em imperiosa e urgente concretude,
pois Ela não falseia a realidade.
Ela é a coisa mais pura e verdadeira:


A fome, quando chega, não ilude.








 Fonte da imagem: FOME EM ÁFRICA




Para carpir, (ou penitenciar-se, se preferes): Lacrimosa, de Mozart

quarta-feira, julho 20, 2011

SÉRIE: OS SENTIDOS (O SENTIDO) - Nº 1





















Dobrada à René Descartes (poema nº 1)


Um boi fugiu.

Guardo a lembrança de eu-menino,
o tom aflito

dos mugidos (uivos, gritos?)

Dá-me um simpatético arrepio.


Um boi fugiu

dos seus algozes:
A fila, o banho, o abate, o choque.
Um boi fugiu.


Mais tarde,
distraídos (e atrozes),
digeríamos o fato.
Os fatos.








Fonte da imagem:
Abate com Pistola Pneumática



Leia também:
O BOI, em Planeta Lua










Que tal ouvir Karajan, em Tuba Mirum, de Mozart? Dá um arrepio!

terça-feira, julho 19, 2011

ODE TRIVIAL









Talheres, s.d.

84 talheres de metais diversos e 2 caixas de papelão Hércules contendo 7 colheres cada uma; madeira, papelão, plástico, pregos, fita de tecido e fórmica
137 x 47 x 9,5 cm
Museu Bispo do Rosario (Rio de Janeiro, RJ)














As coisas.
Nuas
em sua crua mesmidade.


As coisas.
Rasas
vazam dos olhos
vozes ab-surdas
coisas miúdas
feixes de chistes
pendulares
cachos de coisas
falhas de estanho
estranhos kits


Esses retalhos
de atos falhos
de coisas ôcas
e outras poucas
coisas em pencas
vãs e diretas
retas, ovais
as coisas tôscas
gastas, iguais


As coisas.
Mudas
em elas mesmas
puras, desnudas
e nada mais.













Canecas, s.d.

32 canecas de alumínio, madeira, papelão e fios de arame
110 x 48 x 10 cm
Museu Bispo do Rosario (Rio de Janeiro, RJ)











Fonte das imagens:
MUSEU BISPO DO ROSÁRIO

sábado, julho 16, 2011

UMA LOA (para o Mestre Diógenes Afonso de Oliveira)











Aprecio certos vocábulos arcaicos, os quais, embora egressos de um léxico avoengo e desusado, continuam preservados pelo linguajar do povo.
Loar é um deles.
O verbo Loar ainda guarda os dois sentidos: tanto o da ação de louvar, fazer discurso laudatório; quanto o de intróito ao drama, prólogo, apresentação do espetáculo; como era costume, segundo Aurélio Buarque de Holanda, no teatro ibérico dos séculos XVI e XVII.
O povo nordestino, mui sábio, também costuma usar a loa, rimada e, quase sempre, metrificada, antes de engolir uma boa dose de cachaça. Antes de tomar a lapada, louva-se e introduz-se, em seguida, a bebida goela abaixo.
Esse é o meu intuito, e tão somente esse, ao apresentar, neste zine-blog literário, os poemas desse Mestre: introduzir os textos, antes da fruição da leitura. Louvação e introdução é o que querem ser essas palavras de pórtico. Loar. Loor. Loa.

Não sei se é propriamente uma fruição, o sentimento que nos traz a leitura dos textos abaixo, pois o Mestre Diógenes é dono de uma potência criadora próxima da dos pugilistas. Sua força poética quase nos nocauteia. As imagens acachapantes da sua agonia nos falam, também, da nossa agonia. Seus versos caosagonicos tratam de uma angústia que me faz lembrar, em sua essência, a de um outro Mestre, o grande basco Dom Miguel de Unamuno, cuja obra, A Agonia do Cristianismo, percorremos dia desses.
Assim como o Varão de Bilbao, também se esforça, Dom Diógenes Afonso, por apresentar-se ao leitor, não apenas como Poeta ou Autor, e sim, como um homem de carne e osso, com o flanco nu, adentrando a arena:

“o homem de carne e osso, aquele que nasce, sofre e morre, - sobretudo o que morre - aquele que come e bebe e joga e dorme e pensa e quer; o homem a quem vemos e ouvimos, o irmão, o verdadeiro irmão”.
( Unamuno)

Fala-nos o homem Diógenes que se problematiza, que se faz a questão de si mesmo (mihi quaestio factus sum, como em Santo Agostinho). Sua obra poética é, ela mesma, reduto e registro inominável de sua problematicidade. Como neste insólito e belo


INEQUAÇÕES:



Sou matemático de cabeça para baixo:
as inequações, marcas de minha impotência;
os números, teimosia de infinitude,
postergando o meu capturar definitivo.

Sou matemático de uma agônica geometria:
as linhas, tortas por um contorno inacabado;
as esferas, derretidas na frouxidão do tempo
(talvez, doidamente, mais lânguidas que os relógios-tempo de Dali);
os trapézios, trapalhadas trôpegas
de um discurso falido.


*********************************************************************

No entanto, radicam-se no homem todas as realidades, e ao se impor como a questão de si mesmo, encontrará, irremediavelmente, o outro que não ele.
Dom Diógenes, como Unamuno, é um homem de seu tempo, que busca salvar a sua circunstância e com ela salvar-se a si mesmo. Ao chorar, num poema, as agruras de seu recém-nascido filho Victor, (hoje, um victorioso e saudável rapagão), chorava também as dores da alteridade, do próximo, do humano:




PRA QUE NÃO CHORES

(poesia pra Victor)

Porque a miséria, Victor,
tem o semblante da
morte
em vida que desponta
cadavérica e ameaçadora
como carvalho dês
aponta
no cerne da noite.

Porque a miséria, Victor,
faz disparar em
retirada
os sonhos que
por um,
por mil,
por milhões,
por infinitos... vãos desejos
se pretendem
sonhar!

Porque a miséria, Victor,
faz o seio do homem
inflar
de sangue-latino, latindo
como cão danado
uivo-desespero explodindo
inerte no ódio!


******************************************************************************
Não escapará de si mesmo, tampouco do Deus em que acredita. Sua crença se apresenta sob certa tensão, certo embate interior com um cristianismo que professa crítica e crísticamente, quase dizia, unamunianamente. Bom exemplo disso é esse soco final, digo, poema final, que considero ser a obra prima de Dom Diógenes Afonso de Oliveira:
***


CAOSAGONIA: um acorde com ninguém.


Meu cansaço esfacela-se sem nome
E eu esbravejo matilhas ofegantes, espumando
Pela Caça Fugidia que desliza espectral
Dos ombros inefáveis de Deus.

Meu cansaço esfacela-se sem nome
E eu estremeço legiões de demônios, temendo
Pelo Tudo Distante que emerge seminal
Dos ombros inomináveis de Deus.

Meu cansaço esfacela-se sem nome
E eu... Que esbravejo por essa Caça,
Que estremeço por este Tudo,
Que enlouqueço por este Lugar-Nenhum,
Busco desbravar o labiríntico
Dessas sendas sem nomes:
Golpes golfando impotência
Diante dos ombros absurdos de Deus .


.......................................................(Diafonso).

Como arremate, trago esse poema, de um homem que se confessa demasiadamente humano:


Ícaro (A vertigem)


Eis o homem:
Ícaro de asas amputadas
De alma pútrida...
Áptero... pávido...
Insano... sem dó... dor só!


Eis o homem!
Acordado sem acordes
Ccom os quais dançar
(dançarino do nada: dor só)


Eis o homem!
Acordado sem cor
Ccom a qual se pintar
(dândi do nada: dor só)


Eis o homem!
Acordado sem palavras,
Sem verbo,
Sem vida
Com a qual apodrecer
em seu túmulo caiado de trevas
(divindade do nada: dor só!)


Eis o homem:
Dançarino... nada!
Dândi... nada!
Divindade... nada!


**************************

Leia mais em

SPIRITUS


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Eurico, julho/2011
homenagem, pelo aniversário do Poeta.


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sexta-feira, julho 15, 2011

CONFESSIO SPONTANEA (Dauri Batisti)

























Na crista da (terceira) onda histórica, radical, renovadora, e até mesmo, perturbadora, está a poética com que abaixo vos inquietarei.
Não há mesmo mais tempo para a poética dos saraus, das serenatas à lua e outros afins. Embora, creio eu, tudo isso deve estar contido numa poesia que instaure a voz do seu tempo.
Que diga das angústias, com arte;
Que fale de nossa fragmentada existência
e de nossa virtual desesperança, com lirismo reflexivo;
Que, até mesmo, possa revisitar o discurso agostiniano,
ou de outro pensador, também angustiado,
expondo nossos descaminhos em públicas confissões.

Mas é vital que esse Poeta, esteja, (como estava um Fernando Pessoa, em sua época), no centro de convergência das germinações e daqueles impulsos que promovem o destino de uma cultura.
Imprescindível, também, que diga tudo na linguagem desse nosso tempo:
na apresentação calidoscópica das imagens;
nos versos em síncopes, de ritmo quase à Hermeto Paschoal;
fazendo ainda, pessoanamente, a crítica das próprias condições da consciência, do exercício mesmo da inteligência, no mais intenso esforço de lucidez de uma geração.

Essa poética que vos apresento, em nossa língua-mátria mais pura, é difícil de encaixilhar-se num rótulo.
Nem pós-moderna, nem neobarroca, nem mesmo, neomoderna.
Nada disso!
Melhor dizer: radical, universal e clássica, como a crítica define uma poética, quando atemporal.
Esse poética é brasileira, lusófona, e seu poeta se chama
Dauri Batisti. Leiam-na:




, confesso, ainda, digo, deitei-me.
É. Deitei-me. Tu também hás de confessar-te?
andas confuso em seus ares.
Subterrei-me. Submeti-me ao solo,
à morte, em posturas deitadas. Reneguei
minha ressurrecta e leve corporeidade erecta.

, discriminei também.
Sim, achei-me em condição de separar cabrito de ovelha.
Discriminei minhas mãos, uma para a prosa,
outra para os versos. Esquizofrenizei
a língua. Ah, por isso confesso aos pedaços.

, desprezei os pequenos, arrependo-me,
os invisíveis, os bytes. Hoje estou
com o coração megabytizado.
Emprazeiro-me quando me ponho on,
antes eu delirava ficando na minha, off.

, desprezei também a mim mesmo
quando me ensurdeci à missão de subverter
e celestiei-me em oníricas fugas.
Hoje quero sobrelevar a sola dos meus sapatos
e sentir o densidade dos meus ossos
enquanto miro as pectas janelas de Salvador Dali.


Dauri Batisti

da série de poemas
CONFESSIO SPONTANEA

(Insisto: leiam toda a série!)

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Mais de Dauri, o Batisti, nos sítios
Essa PalavraLados Multiplicados e Deserto Povoado de Tribos, onde o poeta elabora as "séries" que apontam para a contemporaneidade da poesia e antecipam a forma e o conteúdo do que de belo pode estar se enformando/informando nessa era virtual.

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Nota do Blogueiro:
reedição de poema, com o mesmo espanto da primeira leitura!




Fonte da img:

http://aspalavras.blog.terra.com.br/files/2009/08/salvador_dali.jpg

terça-feira, julho 12, 2011

ROLIMÃS (rondó do eterno-retorno)


























Há frestas no mundar-do-mundo,
por onde flui a flor
das formas inefáveis
:
A luz de um jorro d’água
despenca contra o cântaro;
e o ontem se expande, ôntico.


Um galo na aurora, introjetado,
essa presença e um fluxo,
um quase-estado.


O tempo,
rangendo as dobradiças no equinócio;
o eixo desgastado,
do carro de mneme, em rolimãs.


Manhãs,
cama de molas, mãe,
fuga da escola e a bola,
retumbando no zinco dos portões.


Há ecos luminosos ...
Há mesmo luz na voz
do antigo chafariz;
Arcos reflexos, folhas de flandres.
Latas vazias esperam;
em quântico, o universo se expande.


O vento nas anáguas,
réstias do Sol na água,
Há luz!
Há luz nas coisas compossíveis!


Aldravas, velhas casas,
alfinetes em almofadas,
ferrolhos que se abrigam;
As mangas nos quintais
Alpendres, cercas vivas.
Nesse impalpável mundo, a chuva cai.


Uma antiga voz de jorro em latas d’água,
o chafariz
deslizam rolimãs ladeira abaixo,
ladeira acima,
Olinda.
A chuva no telheiro
dum pardieiro.
A Bica do Rosário.
O Bispo do Rosário.
Tempo feliz.
Ecos distantes...
a mesma voz de jorro d’água
do mesmo chafariz;
raios do mesmo Sol, em enfileiradas latas de folha de flandres.
Um mesmo e antigo Antes,
recentemente introjetado, ,
e um tempo,
rangendo nos seus eixos desgastados,
num trilho da memória.
Em rolimãs...



(poema em fluxo de consciência, inspirado na obra de Arthur Bispo do Rosário)



 
Fonte da imagem:
Bica do Rosário - Olinda - PE (in Senhora História)

domingo, julho 10, 2011

TUBAL CAIM (artesania ancestral)





 
I
Acordo cedo
e acendo a forja.
Sopro-lhe vida,
a plenos pulmões.
Espanco a peça
na qual trabalho,
com marteladas
(nietzcheanas?)
numa bigorna.
Minha obra, arranco
da impura gusa,
p/arte abstrusa,
que, esbraseada,
quer ser forjada.
Por isso luto,
tarefa insana,
(opus alchimicum?)
contra a matéria
bruta, que em brasa,
cresta minh’alma,
na lavra lenta
das raras peças.
Eis o motivo
da obra escassa.

II
Como eu invejo o artesão da palha,
Fácil manejo, nas mãos, na mente.
Dedos velozes dançam nas tramas,
trançando em ramas o todo e a p/arte.

Também invejo o cantador de motes,
aquele da poesia num repente,
que embola versos agalopados,
deixando boquiabertos os feirantes.

E os cordelistas, pluviosos vates,
gosto de vê-los, nas rimas tantas!
Fazem chover versos aos milhares.
Canções de gesta, como enxurradas
que invadem ruas, feito as enchentes.

Ai...se fosse assim meu árduo ofício...


III
Lavoro às chamas, queimando em febre,
tisnada a pele, olhos ardentes.
Lavro a escória do ferro gusa,
com essa pa/lav(r)a quase vulcânica,
Logos brasil,
Verbum incandescente,
Léxico de hermética metalurgia.

Eis minha sina, eis o meu fado,
(e com que enfado vos digo isso):
fundir a gema, pétrea e absconsa,
(e o Transcendente está nessa Idéia),
entre o crisol e a crisopéia.



IV
E então desperto
o mistério disso:

Acordo cedo,
bem de manhã,
e acendo a forja
d’alma louçã.
Lutar com as pedras,
Luta mais vã...



Eurico
metapoema sem data



Gênesis IV, 20-22

20 E Ada deu à luz a Jabal; este foi o pai dos que habitam em tendas e possuem gado.
21 O nome do seu irmão era Jubal; este foi o pai de todos os que tocam harpa e flauta.
22 A Zila também nasceu um filho, Tubal-Caim,
fabricante
de todo instrumento cortante de cobre e de ferro; e a irmã de Tubal-Caim foi Naama.


Poema dedicado aos poetas itabiranos, Euza e Drummond
***

LIRISMO E LIBERTAÇÃO (reflexão dominical)




















Mas o que é mesmo lirismo?
Lirismo é uma maneira de ver e acercar-se das coisas, da realidade. Lirismo é pois, perspectiva, interpretação, ambas fundadas na emoção. Mas numa emoção vital, consciente da radical importância da vida na Terra. Vida dos homens, dos animais, das plantas. Vida.
Fundado nessa perspectiva, o lirismo  já é, em si, uma atitude política diante do mundo.
Portanto, o lirismo não é apolítico. Pode e quer o lirismo interferir nos rumos da pólis. Esse lirismo sonha atuar na sociedade, propondo um salto civilizatório. Um movimento pela qualidade da vida humana, dentro de uma visão ecossocialista, pacifista e libertária. Mas nossa política não é a dos grandes líderes messiânicos, nem a política partidária, (essa em que os fins justificam os meios), e sim, a política do cotidiano, feita por anônimos, que querem fundar uma sociedade da gentileza e da cortesia, tanto nas pequenas quanto nas grandes cousas.
Mas, como propor uma política da ternura, em um mundo em que parece imperar a indiferença, o desamor? Parece frágil, essa postura. Mas não é. Resiliente, talvez, frágil, jamais. Essa busca do lirismo e da ternura, diante de um mundo que fraqueja ante a lei da força, do poder pelo poder e da violência gratuita, é, sim, a atitude dos fortes, dos que ousam resistir e sonhar.
Quem se ocupa da musicalidade e da harmonia das cores, das palavras e dos sons, se incumbe também de ocupar um espaço (político) para a poesia, para o poético, para a beleza.
Esse lirismo interfere na pólis, ou seja, faz política, ocupando-se do belo, do bom e do bem, com a inocência e a ingenuidade da criança... nietzscheana. E isso não é utopia. É necessidade vital. A preservação da vida na Terra carece de uma tomada de atitude em defesa desse salto civilizatório. Essa atitude é radicalmente lírica e política.
Não existe, pois, um lirismo comedido. Todo lirismo já é, em si, libertação.

Eurico
10/07/2011

FONTE DA IMAGEM:
http://semeadoresdeestrelas.blogspot.com/2011/05/curando-com-o-reino-animal-como-nos.html

sábado, julho 09, 2011

DUAS VERSÕES D'A CRISTALEIRA










Para Manuel, Victorine e Claude Debussy,
que sobreviveram entre porcelanas...
(in memorian)












A Cristaleira
(1ª versão)

Na aresta
da sala
de estar
estava a cristaleira
A um tempo quieta e aflita
Equilibrando em prateleiras vítreas
finíssimos cristais...

Por trás
De olhos cristalinos
Trago o t(r)emor astigmático,
A tentação dos estilhaços
E a sensação de (ha)ver um gato

( O que traz um gato a este tema?)

Um sobressalto:
O espanto, o grito!
Um gato.

Cacos de vidro.

Súbito, um gato!
Pênsil, pingente, pendular
Feito o lustre no teto
Da sala, a aresta
estala
pela lente dos meus óculos,
Um salto ( ou a ilusão de um salto )

O sobressalto:
A cristaleira sob o gato.

O impacto,
Trinca-se-me o fotocromático, ante os meus olhos fitos, mil pedaços
Ou a ilusão dos estilhaços...



Eurico, 13.12.2000.


A Cristaleira
(2ª versão)

Na aresta
da sala
de estar
estava a cristaleira
A um tempo, quieta e aflita,
Equilibrando, em prateleiras vítreas,
finíssimos cristais...


Por trás
Dos olhos cristalinos
Trato,
retrato,
um remoto
t(r)emor astigmático,
a tentação dos estilhaços
e a sensação de (ha)ver um gato
(O que traz um gato a este tema?)


Um sobressalto:
O espanto, o grito.
Um gato.


Biscouits de vidro.
Bijuterias.
Súbito, um gato!
De porcelana,
pênsil no teto,
lustre pingente.
Na aresta
da sala de estar,
a cristaleira
estala inteira
à lente dos meus óculos.
No impacto:
trinca-se-me o fotocromático,
ante os meus olhos fitos, mil pedaços.


Um salto ( ou a ilusão de um salto )


O sobressalto:
A cristaleira sob o gato.


Ou a ilusão nos estilhaços...

Eurico, 13.12.2000

Ouçam o cristalino piano do Arabesque nº 1, do eterno menino Achile-Claude Debussy:


Nota:
Às vezes, no processo criativo, dá-se a angústia da escolha.
Deixo, pois, as duas versões, para apreciação do Mestre Diógenes,
conhecedor da Língua e da fragilidade dos cristais...
após conversa sobre nosso estranho ofício, essa brincadeira linguística:
aliterativa, sinestésica, metonímica,

e sei lá mais o quê.


Obs.: para o Prof. Diógenes,
e para meus dois ou três leitores fiéis. rsrsrs


Abs fraternos.
Eurico - 17/09/06

ALFENINS (doçaria sinestésica)

Imagem: Luísa Carneiro






















Enfileirem-se uns flácidos fonemas,
formando feixes deles,
em fornada fluente
:
Frases em flocos,
fluídas, de rar(o)efeito.

Lufadas de ar/tifícios,
forjados em foles.

Hiatos,
feito fluxos pífaros,
de oxítonos flautins;

Fabriquem-se, assim,
sobre melífluos morfemas,
fonoestéticos enfeites,
[esses]
movediços semantemas
:
Suspiros,
sussurross,
rebuçadosss,
filhoses, algodoados
e ôcas formas afins,
* * * * * * * * * *
que se esfarelem na fala,
ao feitio de alfenins.



Fonte da imagem:
http://i.olhares.com/data/big/137/1370591.jpg

Releia Alfenins,  ao fluxo da Sonata para Flauta, Viola e Harpa (Debussy)

segunda-feira, julho 04, 2011

PEQUENOS NADAS

Rendados - Carla Schwab





















"A Poesia é feita de pequeninos nadas e
(...) cada palavra tem uma função precisa,
de caráter intelectivo ou puramente musical, e não
serve senão a palavra cujos fonemas fazem vibrar
cada parcela da frase por suas ressonâncias anteriores
e posteriores".    (MANUEL BANDEIRA).


.
.
.
Eu traço versos
como quem trança
                os nós du'a rede.
.
.
.
In/vento-os,
Pequenos nodos,
            pequenos nadas,
feitos de vozes
         com que desfio,
                    fio após fio,
em des(a)linho, esses retroses
de quase nada.
Não têm motivo,
           não têm sentido,
                 esses liames
esses barbantes de fino linho,
que só têm ritmo,
tecido e rima,
mas não têm nome que os defina.

Enlaço os versos como quem ata
cordéis ao vento. . . como um encanto. . .
(Fecha essa página, se até agora
Não tens motivo nenhum de espanto.)

A cada linha aqui tecida,
de mim se escorre,
e em mim se míngua
a tessitura dos véus da língua...

Pois nesses laços que agora vedes,
há uma parte de mim
que morre
e outra parte que (se) me amarra à (minha) vida.

(Eu faço versos como quem tece u'a estranha rede...)



Fonte da imagem:
http://carlaschwab.blogspot.com/2010/04/rendados-carla-schwab_11.html

Retome a teia, curtindo CLAUDE DEBUSSY - La Fille aux Cheveux de Lin