Uma Epígrafe



"...Quanto à poesia, parece condenada a dizer apenas aqueles resíduos de paisagem, de memória e de sonho que a indústria cultural ainda não conseguiu manipular para vender."...[Alfredo Bosi, in O Ser e o Tempo da Poesia, p. 133]

terça-feira, setembro 29, 2009

Cora Coralina: aula prática de amor fraterno























Conclusões de Aninha


Estavam ali parados. Marido e mulher.
Esperavam o carro. E foi que veio aquela da roça
tímida, humilde, sofrida.
Contou que o fogo, lá longe, tinha queimado seu rancho,
e tudo que tinha dentro.
Estava ali no comércio pedindo um auxílio para levantar
novo rancho e comprar suas pobrezinhas.


O homem ouviu. Abriu a carteira tirou uma cédula,
entregou sem palavra.
A mulher ouviu. Perguntou, indagou, especulou, aconselhou,
se comoveu e disse que Nossa Senhora havia de ajudar
E não abriu a bolsa.
Qual dos dois ajudou mais?


Donde se infere que o homem ajuda sem participar
e a mulher participa sem ajudar.
Da mesma forma aquela sentença:
"A quem te pedir um peixe, dá uma vara de pescar."
Pensando bem, não só a vara de pescar, também a linhada,
o anzol, a chumbada, a isca, apontar um poço piscoso
e ensinar a paciência do pescador.
Você faria isso, Leitor?
Antes que tudo isso se fizesse
o desvalido não morreria de fome?
Conclusão:
Na prática, a teoria é outra.

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Cora Coralina
(Ana Lins do Guimarães Peixoto Brêtas), 20/08/1889 — 10/04/1985, é a grande poetisa do Estado de Goiás. Em 1903 já escrevia poemas sobre seu cotidiano, tendo criado, juntamente com duas amigas, em 1908, o jornal de poemas femininos "A Rosa". Em 1910, seu primeiro conto, "Tragédia na Roça", é publicado no "Anuário Histórico e Geográfico do Estado de Goiás", já com o pseudônimo de Cora Coralina. Em 1911 conhece o advogado divorciado Cantídio Tolentino Brêtas, com quem foge. Vai para Jaboticabal (SP), onde nascem seus seis filhos: Paraguaçu, Enéias, Cantídio, Jacintha, Ísis e Vicência. Seu marido a proíbe de integrar-se à Semana de Arte Moderna, a convite de Monteiro Lobato, em 1922. Em 1928 muda-se para São Paulo (SP). Em 1934, torna-se vendedora de livros da editora José Olimpio que, em 1965, lança seu primeiro livro, "O Poema dos Becos de Goiás e Estórias Mais". Em 1976, é lançado "Meu Livro de Cordel", pela editora Cultura Goiana. Em 1980, Carlos Drummond de Andrade, como era de seu feitio, após ler alguns escritos da autora, manda-lhe uma carta elogiando seu trabalho, a qual, ao ser divulgada, desperta o interesse do público leitor e a faz ficar conhecida em todo o Brasil.

Sintam a admiração do poeta, manifestada em carta dirigida a Cora em 1983:

"Minha querida amiga Cora Coralina: Seu "Vintém de Cobre" é, para mim, moeda de ouro, e de um ouro que não sofre as oscilações do mercado. É poesia das mais diretas e comunicativas que já tenho lido e amado. Que riqueza de experiência humana, que sensibilidade especial e que lirismo identificado com as fontes da vida! Aninha hoje não nos pertence. É patrimônio de nós todos, que nascemos no Brasil e amamos a poesia ( ...)." Editado pela Universidade Federal de Goiás, em 1983, seu novo livro "Vintém de Cobre - Meias Confissões de Aninha", é muito bem recebido pela crítica e pelos amantes da poesia. Em 1984, torna-se a primeira mulher a receber o Prêmio Juca Pato, como intelectual do ano de 1983. Viveu 96 anos, teve seis filhos, quinze netos e 19 bisnetos, foi doceira e membro efetivo de diversas entidades culturais, tendo recebido o título de doutora "Honoris Causa" pela Universidade Federal de Goiás. No dia 10 de abril de 1985, falece em Goiânia. Seu corpo é velado na Igreja do Rosário, ao lado da Casa Velha da Ponte. "Estórias da Casa Velha da Ponte" é lançado pela Global Editora. Postumamente, foram lançados os livros infantis "Os Meninos Verdes", em 1986, e "A Moeda de Ouro que um Pato Comeu", em 1997, e "O Tesouro da Casa Velha da Ponte", em 1989.


Texto extraído do livro "Vintém de cobre - Meias confissões de Aninha", Global Editora — São Paulo, 2001, pág. 174.


Fonte:

http://www.releituras.com/coracoralina_menu.asp

Imagem:
Casa Brasil Itapoã

sábado, setembro 26, 2009

Braille (ou, São Tomé, das Letras-nº 2)
























I
Quem
Munido de compassos lassos,
E de indeterminadas réguas,
Aferirá a roda dos inumeráveis mundos,
Em sua teleológica órbita?
Quem medirá das estrelas os passos,
E as léguas
De luz?
Quem há de mensurar a Vida,
Isso invisível,
Que flui?

II
Hoje amanheço igual ao excremento,
Que flutua num mar sem lógica;
Produto escatológico do tempo,
Papel qualquer, que a ventania joga...
Isso que sou, pensa,
E busca o nexo nessa imensidão.
Mas só percebe esse lugar restrito,
Até onde alcança a minha mão.
Minha vista é curta,
Meus olhos baços,
E exploro o espaço com uma ótica de ilusão.
Minha fé é táctil.
Como apalpar as coisas com a Razão?
Como guardar as crenças e as certezas,
Crendo que há solo depois de tocar no chão?

III
Aproxima-te, Amigo, não Te ouço.
Chega mais perto, ofuscado, não Te vejo...
Fala à minh’alma,
A esses meus ouvidos moucos.
Isso. Bem perto do meu peito.
Mais um pouco.
Deixa que Te toque o flanco (e não estou louco!).
É que só alcanço Deus: verdade, estrada, vida,
Lendo no Braille das Tuas feridas.



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Fonte da imagem:
Século XXI

quarta-feira, setembro 23, 2009

Não se compram amigos no shopping!






















imagem google



Há momentos em que os amigos, inclusive os virtuais, a família, os vizinhos, todos ganham nova dimensão em nossas vidas. Hoje, invade-me uma especial ternura por todos os que me mandam emails, que me telefonam, que comentam no meu blogue. Não lhes mandei mensagem no dia 20 de julho, mas tudo tem a sua hora. Brindo a vida e a afeição fraterna de todos os meus amigos e amigas, postando esse diálogo delicioso, que abaixo transcrevo, de um livro em que uma criança eterna nos dá lições... eternas:

(Obs.: os que torcerem os narizes de adulto para esse livro hão de virar... cogumelos kkkkk)






















- Quem és tu? perguntou o principezinho. Tu és bem bonita...
- Sou uma raposa, disse a raposa
- Vem brincar comigo, propôs o principezinho. Estou tão triste...
- Eu não posso brincar contigo, disse a raposa. Não me cativaram ainda.
- Ah! desculpa, disse o principezinho.
Após uma reflexão, acrescentou:
- Que quer dizer "cativar"?
- Tu não és daqui, disse a raposa. Que procuras?
- Procuro os homens, disse o principezinho - Que quer dizer "cativar"?
- Os homens, disse a raposa, têm fuzis e caçam. É bem incômodo! Criam galinhas também. É a única coisa interessante que eles fazem
- Tu procuras galinhas?
- Não, disse o principezinho. Eu procuro amigos. Que quer dizer "cativar"?
- É uma coisa muito esquecida, disse a raposa. Significa "criar laços.
- Criar laços?
-Exatamente, disse a raposa. Tu não és ainda para mim senão um garoto inteiramente igual a cem mil outros garotos. E eu não tenho necessidade de ti. E também necessidade de mim. Não passo a teus olhos de uma raposa igual a cem mil outras raposas. Mas, se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro. Serás o único no mundo. E eu serei para ti única no mundo...
-Começo a compreender, disse o principezinho.
-Existe uma flor. . . eu creio que ela me cativou ...
-É possível, disse a raposa. Vê-se tanta coisa na Terra ...
- Oh! não foi na Terra, disse o principezinho.
A raposa pareceu intrigada:
- Num outro planeta?
- Sim.
- Há caçadores nesse planeta?
- Não.
- Que bom ! E galinhas?
- Também não.
- Nada é perfeito, suspirou a raposa.

Mas a raposa voltou à sua idéia.
- Minha vida é monótona. Eu caço as galinhas e os homens me caçam. Todas as galinhas se parecem e todos os homens se parecem também. E por isso eu me aborreço um pouco. Mas se tu me cativas, minha vida será como que cheia de sol. Conhecerei o barulho de teus passos que será diferente dos outros. Os outros passos me fazem fugir para debaixo da terra.
O teu me chamará para fora da toca, como se fosse música. E depois, olha longe, os campos de trigo?
Eu não como pão. O trigo para mim é inútil. Os campos de trigo não me dizem coisa alguma. E isso é triste Mas tu tens cabelos cor de ouro. Então será maravilhoso quando me tiveres cativado. O trigo, que é dourado, fará lembrar-me de ti. E eu amarei o barulho do vento no trigo ...
A raposa calou-se e considerou por muito tempo o príncipe:
- Por favor... cativa-me disse ela.
- Bem quisera, disse o principezinho, mas eu não tenho muito tempo. Tenho amigos a descobrir e muitas coisas a conhecer.
- A gente só conhece bem as coisas que cativou, disse a raposa. Os homens não têm mais tempo de conhecer coisa alguma. Compram tudo prontinho nas lojas. Mas não existem lojas de amigos, os homens não têm mais amigos, Se tu queres um cativa-me!
-Que é preciso fazer? perguntou o principezinho.
-É preciso ser paciente, respondeu a raposa. Tu te sentarás primeiro um pouco longe de mim, assim, na relva. Eu te olharei com o canto do olho e tu não dirás nada. A linguagem é uma fonte de mal-entendidos. Mas, cada dia, te sentarás mais perto ...
No dia seguinte o principezinho voltou.
- Teria sido melhor voltares à mesma hora, disse a raposa. Se tu vens, por exemplo, às quatro da tarde, desde as três eu começarei a ser feliz. Quanto mais a hora for chegando, mais eu me sentirei feliz. Às quatro horas, então, estarei inquieta e descobrirei o preço da felicidade! Mas se tu vens a qualquer momento, nunca há hora de preparar o coração ... É preciso ritos.
- Que é um rito? perguntou o principezinho.
- É uma coisa muito esquecida também, disse a raposa, É o que faz com que um dia seja diferente dos outros dias; uma hora, das outras horas. Os meus caçadores, por exemplo, possuem um rito. Dançam na quinta-feira com as moças da aldeia. A quinta feira então é o dia maravilhoso!



Saint-Exupèry

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Fonte do texto:
Meu olhar sobre o mundo e as coisas


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terça-feira, setembro 22, 2009

De barros e asas: MANOEL !



























fotopoema da blogueira Flor



RETRATO QUASE APAGADO EM QUE SE PODE VER PERFEITAMENTE NADA
................Manoel de Barros, in "O Guardador de Águas"


I

Não tenho bens de acontecimentos.
O que não sei fazer desconto nas palavras.
Entesouro frases. Por exemplo:
- Imagens são palavras que nos faltaram.
- Poesia é a ocupação da palavra pela Imagem.
- Poesia é a ocupação da Imagem pelo Ser.
Ai frases de pensar!
Pensar é uma pedreira. Estou sendo.
Me acho em petição de lata (frase encontrada no lixo)
Concluindo: há pessoas que se compõem de atos, ruídos, retratos.
Outras de palavras.
Poetas e tontos se compõem com palavras.

II
Todos os caminhos - nenhum caminho
Muitos caminhos - nenhum caminho
Nenhum caminho - a maldição dos poetas.

III
Chove torto no vão das árvores.
Chove nos pássaros e nas pedras.
O rio ficou de pé e me olha pelos vidros.
Alcanço com as mãos o cheiro dos telhados.
Crianças fugindo das águas
Se esconderam na casa.

Baratas passeiam nas formas de bolo...

A casa tem um dono em letras.

Agora ele está pensando -

no silêncio Iíquido
com que as águas escurecem as pedras...

Um tordo avisou que é março.

IV
Alfama é uma palavra escura e de olhos baixos.
Ela pode ser o germe de uma apagada existência.
Só trolhas e andarilhos poderão achá-la.
Palavras têm espessuras várias: vou-lhes ao nu, ao
fóssil, ao ouro que trazem da boca do chão.
Andei nas pedras negras de Alfama.
Errante e preso por uma fonte recôndita.
Sob aqueles sobrados sujos vi os arcanos com flor!

V
Escrever nem uma coisa Nem outra -
A fim de dizer todas
Ou, pelo menos, nenhumas.
Assim,
Ao poeta faz bem
Desexplicar -
Tanto quanto escurecer acende os vaga-lumes.

VI
No que o homem se torne coisal,
corrompem-se nele os veios comuns do entendimento.
Um subtexto se aloja.
Instala-se uma agramaticalidade quase insana,
que empoema o sentido das palavras.
Aflora uma linguagem de defloramentos, um inauguramento de falas
Coisa tão velha como andar a pé
Esses vareios do dizer.

VII
O sentido normal das palavras não faz bem ao poema.
Há que se dar um gosto incasto aos termos.
Haver com eles um relacionamento voluptuoso.
Talvez corrompê-los até a quimera.
Escurecer as relações entre os termos em vez de aclará-los.
Não existir mais rei nem regências.
Uma certa luxúria com a liberdade convém.

VII
Nas Metamorfoses, em 240 fábulas,
Ovídio mostra seres humanos transformados
em pedras vegetais bichos coisas
Um novo estágio seria que os entes já transformados
falassem um dialeto coisal, larval,
pedral, etc.
Nasceria uma linguagem madruguenta, adâmica, edênica, inaugural

- Que os poetas aprenderiam -
desde que voltassem às crianças que foram
às rãs que foram
às pedras que foram.
Para voltar à infância, os poetas precisariam também de reaprender a errar
a língua.
Mas esse é um convite à ignorância? A enfiar o idioma nos mosquitos?
Seria uma demência peregrina.

IX
Eu sou o medo da lucidez
Choveu na palavra onde eu estava.
Eu via a natureza como quem a veste.
Eu me fechava com espumas.
Formigas vesúvias dormiam por baixo de trampas.
Peguei umas idéias com as mãos - como a peixes.
Nem era muito que eu me arrumasse por versos.
Aquele arame do horizonte
Que separava o morro do céu estava rubro.
Um rengo estacionou entre duas frases.
Uma descor
Quase uma ilação do branco.
Tinha um palor atormentado a hora.
O pato dejetava liquidamente ali.


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Esta postagem eu dedico ao poeta
Diógenes Afonso, grávido de poesia!

Fonte do texto:
Jornal de Poesia

Fonte da imagem:
Interlúdio em flor

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MANOEL DE BARROS, poeta mato-grossense, nascido para a vida em 1916 e parido para a poesia em 1937, com a concepção do livro - "Poemas concebidos sem pecado". Passou a ser mais conhecido a partir do ano de 1998, quando ganhou o prêmio Cecília Meireles, de Literatura/Poesia, com o "Livro sobre Nada".

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quinta-feira, setembro 17, 2009

Quadros Verdes
















Quadros Verdes

Michel Quoist


E a escola é moderna.
O diretor, muito ufano, vai-me apontando todas as
comodidades. De todas as coisas a mais bela,
Senhor, é o quadro verde. Os sábios
estudaram longamente, fizeram experiências.
Agora já sabemos que a cor verde é a cor
ideal, não cansa a vista, pacifica, relaxa os
nervos.

Pensei, então, Senhor, que não
tinhas esperado tanto tempo para pintar de
verde as campinas e o arvoredo. Tuas salas
de aula funcionaram muito bem e para não
nos cansar aperfeiçoaste uma porção de
matizes para Teus prados modernos. Assim
os “achados” dos homens consistem em
descobrir o que pensaste desde toda a
Eternidade.


Obrigado, Senhor, por seres o
bom pai de família que deixa a seus filhinhos
a alegria de descobrirem eles próprios os
tesouros de Tua inteligência e Teu amor.

Mas livra-nos de pensar que fomos
nós que os inventamos sozinhos.



Fonte do txt.:
JESUS, RICARDO, ROBERTO, Português Interpretação,
São Paulo: Companhia Editora Nacional, 2º vol., 5ª Ed., 1971, p. 24.
Obs.: um de meus livros de Língua Portuguesa, do curso ginasial, que ainda guardo com carinho.)




Fonte da img.:
www.marceloclemente.com/Olinda.jpg



(MICHEL QUOIST nasceu em Havre (França) em 1921 e faleceu em 1997. Foi ordenado sacerdote em 1947. Era doutor em Ciências Sociais pelo Instituto Católico de Paris. Escreveu inúmeras obras, traduzidas em várias línguas e regularmente reeditadas, das quais algumas ultrapassam um milhão de exemplares).


terça-feira, setembro 15, 2009

No Taiti (Ou, no bolso do casaco da vovó)






















Sim,
Eu fugiria disso tudo aqui,
Agora mesmo, de manhã...
Fugiria qual Gauguin
Pro Taiti.

Ou me esconderia, faz-de-conta,
num daqueles grandes bolsos de minha avózinha
Lugar paradisíaco, em que ela guardava seus biscoitos
Ali, me abrigaria dos ventos de agosto,
E, à tardinha,
Ouviria Chopin, numa valsinha

Um grande bolso?
Ou uma bolsa?
Ah, imensa uma bolsa d’água!
Talvez fosse melhor boiar
numa lagoa azul primacial
E adormecer com ternura, no útero de Deus.

Hoje eu largaria tudo isso
Todos esses detestáveis compromissos
Pra ficar bem distante daqui
Ficar um instante
Sem mim.
Fugiria, ainda essa manhã,
Fazendo a mesma rota do Gauguin
E iria,
Ah, se eu iria..
Me embrenhar em um lugar chamado Taiti.


Imagem:
Paisagem Taitiana

sexta-feira, setembro 11, 2009

Flor d'água (flagrante pós-moderno)




















Há muito tempo, os cientistas
inventaram o pavimento
e há poucos meses, os urbanistas
asfaltaram a minha rua.
Há poucos dias, os ufanistas
fizeram uma festa ao calçamento,
uma grandiosa festa inaugural.

Um belo dia, um desses dias quentes de verão,
o Sol evaporou o mar
e o vento trouxe as águas
em nuvens carregadas, sobre o meu lugar.
Choveu a cântaros.
Choveu, choveu, choveu.
E, quando enfim veio a estiada,
a água ficou, dias a fio, empoçada,
bem rente ao meio fio, junto à calçada.
O tempo e a poeira
se uniram, num concerto
e fizeram da poça, um lamaçal, pútrido e fétido,
desses que chamam
de esgoto a céu aberto.
A fedentina ficou insuportável.
Deveras nauseabundo aquele odor.

Mas, em certa manhã, do mês de março
abri a janelinha do terraço,
e, estarrecido, vi uma flor, uma airosa flor,
medrando assim tão bela,
uma flor naquele charco.

Compreendi então minha tolice
ao criticar tão sábios urbanistas,
sem lhes compreender os bons propósitos.
Por ser poeta e cheio de sandices,
nunca iria imaginar
que os doutores
queriam apenas demonstrar
a força que há no Sol, no ar,
na fotossíntese,
isso que traz misteriosamente, à tona
a vida submersa que há na lama.

Alguém me poderia retrucar:
mas, a cidade assim pavimentada
não dá vazão à força da enxurrada.
inunda tudo, os carros bóiam...

Pobres mortais, não entendem a ciência!
Devem ser poetas, como eu,
que sonham com um tempo das estradas poeirentas,
em que a água se infiltrava pelo solo,
formando esses tais lençóis freáticos.
Para que servem rios subterrâneos,
aquíferos imensos, em covas nunca vistas?
Somos uns néscios, tolos, saudosistas;
nada entendemos de asfalto sobre as pistas.
Ah, não fosse aquele sábio cientista
que, aliado ao inteligente urbanista,
criou o alagamento em minha rua,
jamais teria eu aqui tão bela vista
de tão grande valor, que nada paga:
a bela flor, soberba e airosa,
a raríssima flor da poça d'água.

Fonte da imagem:http://garatujando.blogs.sapo.pt/arquivo/Flor%20no%20cascalho.jpg



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quarta-feira, setembro 09, 2009

Tocata e fuga (à vida que passa)






















imagem google



Trago por dentro a força do toró
que arroja esse vento nordeste
Sinto no peito os rasgos, os riscos
que no céu fazem os coriscos...

Estou a ribombar no solo agreste,
na desapiedada percussão dos pingos
despedaçando telhas e sapés
Rasgando zincos...

Estou tempestade bruta
E abrupta;
Violento aguaceiro
que mergulha em meu mundar no mundo,
Sinfonia aórgica
Melodia dodecafônica, sem opus do humano;
arrostando isso que passa, e eu com ela.

Estou lutando sob a chuvarada,
nessa agreste des/harmonia,
em que as partes e o todo
se engastam e se desgastam,antagônicas:
Luta sinfônica,
largos compassos, descompassos
desconexos adágios;
golpes no ar, de maestro ou de ágil
pugilista.

No entanto, soa um gongo secular,
e a minha chuva faz silêncio,
e a força cessa, devagar.
Profundo e aquático silêncio...
Pausa.
Dorida pausa.
E, nesse momento,
caem-me, silentes,
as gotas, vindas de um céu cinzento;
com a música grave de garoa calma,
a deslizar pelos declives d’alma,
qual melancólica canção depois da enchente...
Cessa a enxurrada,
mas, a escorrer das calhas invisíveis
de u'a moenda centenária,
Ouço esvair-se líquida essa ária.
Eis minha fuga, pela linha d'água...




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domingo, setembro 06, 2009

Poema da Relatividade Geral





















De que adianta eu ser eu
Em relação a mim mesmo?
Quero ser eu pras pessoas
- um referencial externo-
Quero ser eu nas pessoas
Relatividade geral.

Quero evolver na poesia
Einsteiniana poesia-moderna
Fra/terna
Quadridimensional.

Não sou espaço
Nem tempo
Espaço e tempo eu invento
No meu ser intemporal

Quantos fótons emitia
No espaço das entrelinhas
Um Castro Alves astral?

Também quantuns de energia
Saem de mim, melodia
Ondulatória, indefinida, orbital
E a mim me espalham nas ruas
Na plenitude dos outros...
Inteiro o ser que não sei

De que adianta eu ser eu,
Com meus sentidos falíveis
A perceber ilusões?
Eu não vou mais ao cinema –
nem ontem, nem já, nem quando.
Eu vou ser eu nas pessoas
Doar-me toda poesia, acelerar-me na luz.
Este é o segredo do Sol!
Eurico
17junho1989

Poema apresentado em Seminário sobre Castro Alves
Local: Faculdade de Filosofia do Recife
Disciplina: Introdução aos Estudos Literários
Titular: Profa. Inês Fornari
Equipe: Aldenice, Celina, Eurico, Marcus, Monica e Umbelino























Para ver os créditos dos sítios de origem, clique nas imagens.

sábado, setembro 05, 2009

Mas, o que é mesmo um Meme? rsrsrs



















Foi a Andreia, do blogue Devaneios do Cotidiano, quem me enviou esse Meme. Lembro que há muito tempo atrás, tempo em que ainda não havia a internet, e em que os meninos brincavam de carrinhos e as meninas de boneca; elas, as meninas, mais sapecas e maduras que os marmanjos, inventavam um tal de "questionário". Era uma espécie de levantamento das preferências dos amigos e amigas, com intenções "ingênuas" e não muito explícitas, cujas respostas quase sempre induziam aos namoricos de então.
Bem, certamente nada parecido com esse Meme que agora respondo. Mas, o prazer em responder foi o mesmo. Então, porque cada pequenina coisa que ando fazendo nesse momento da vida tem um sabor especial e intenso, quero agradecer à "companheira" Andreia, pela oportunidade que me deu com esse Meme. Mas, o que é mesmo Meme? rsrsrs





1- Tem algum (ou mais de um) blogue que te ajudou a blogar quando iniciou (dicas, receptividade, incentivos)?

Sim. Agradeço ao Cor Vadia, atual Pichações, do mestre Luís de la Mancha. Esse blogueiro , no ano de 2006, mandava-me emails, insistentemente. Não sei como me achou, mas, eu nem ligava. Excluia e pronto. Um dia resolvi ler aquilo. E foi a grande surpresa da minha vida! O blogger me dava uma ferramenta em que eu poderia publicar meus textos, imagens, etc. Criei logo o Eu-lírico, para publicar poemas e hoje tenho três blogues. Ah, tive tb uma ajuda da Euza Noronha, grande incentivadora do grupo de blogueiros no qual me inseri!

2- Qual foi sua fonte inspiradora?

Primeiro a idéia, a coisa que me motivava era a oportunidade de divulgar minha obra. Agora o que me inspira é poder interagir com outras pessoas, de lugares distintos e distantes.

3-Blogar é muito gratificante quando?

Quando blogar significa compartilhar arte, idéias, com um senso elevado de respeito ao outro e de fraternidade.

4- Quanto tempo você dedica ao seu blog? Em que horário você gosta de blogar?

Pela manhã, logo cedo, fazer postagens. E, à noite, quando chego do trabalho, ler e publicar comentários, visitar blogues e comentar, sempre que possível. Creio que dedico umas 2 horas dia nisso. Um prazer e um vício!

5- O mundo da blogosfera seria melhor "se":

Se o mundo real fosse fraterno, solidário, a blogosfera seria melhor. A rede é o espelho da vida real. Mas tive sorte de só lidar com gente fina, educada e generosa. Os que não são, eu deleto, lá na publicação dos comentários.

6- Seu coração blogueiro não se engana quando (referente a outro blogue e blogueiro):

Tenho tido sorte com todos os que visitei até hoje. Só não encontro gente da minha faixa etária. Parece que a galera de meu tempo não gosta de blogar.


Esse meme, eu repassarei aos amigos do Terra Brasilis, do Café com Bobagem, Viver é Afinar o Instrumento, bem... são tantos amigos...

Fonte das perguntas:
Devaneios do Cotidiano

quarta-feira, setembro 02, 2009

Scriptorium (ou PNL à Schopenhauer)




















Agora estou duplo:
Quem eu era antes, está em epoquê,
Posto que não suportava as dores da vida.
Esse outro eu, que ora está no comando,
nem parece mais comigo.
Nunca fui tão apo(r)ético.
Os versos me saem feito notas de escritório.
Ponho-me excessivamente adulto.
Pareço mais um programador neurolingüistico
a controlar essa impertinente imaginação das dores futuras.

Administrador de mim.
Ando a administrar cada segundo
da vida biológica,
com microscópios nesses olhos, embora pressurosos.

Executivo de mim mesmo.
Planejo a vida biográfica
como quem grafa coordenadas de dois eixos:

Um deles é a abscissa do tempo...
Tudo agora é pra ontem.
Estou urgente!

O outro é a fuga schopenhaueriana da dor.
Essa dor que, graças aos céus,
está se restringindo a um improvável amanhã...




Fonte da imagem:
Scriptorium
Foto - Mikel Arrizabalaga

terça-feira, setembro 01, 2009

Gato que brincas na rua...
















Gato que brincas na rua
Como se fosse na cama,
Invejo a sorte que é tua
Porque nem sorte se chama.

Bom servo das leis fatais
Que regem pedras e gentes,
Que tens instintos gerais
E sentes só o que sentes.

És feliz porque és assim,
Todo o nada que és é teu.
Eu vejo-me e estou sem mim,
Conheço-me e não sou eu.

Fernando Pessoa
1931



Img do gato na rua:
http://gato.misura.org/fotos/gato-janela-royaloak.jpg