Uma Epígrafe



"...Quanto à poesia, parece condenada a dizer apenas aqueles resíduos de paisagem, de memória e de sonho que a indústria cultural ainda não conseguiu manipular para vender."...[Alfredo Bosi, in O Ser e o Tempo da Poesia, p. 133]

terça-feira, agosto 25, 2009

Canto 1º, Soneto XXVI


















XXVI



Qualquer seja a chuva desses campos
devemos esperar pelos estios;
e ao chegar os serões e os fiéis enganos
amar os sonhos que restarem frios

Porém se não surgir o que sonhamos
e os ninhos imortais forem vazios,
há de haver pelo menos por ali
os pássaros que nós idealizamos.

Feliz de quem com cânticos se esconde
e julga tê-los em seus próprios bicos,
e ao bico alheio em cânticos responde.

E vendo em torno as mais terríveis cenas,
possa mirar-se as asas depenadas
e contentar-se com as secretas penas.

Jorge de Lima

Fonte do texto:

Invenção de Orfeu, 1º Canto, p. 47



Fonte da imagem:

Deslimites do Ser (visitem esse blogue, vale a pena!)

terça-feira, agosto 18, 2009

Alcácer-quibir revisitada


















Uma monocromia armorial
dedicada a Dom Ariano Villar Suassuna



Vermelhidões no poente,
céu sangüíneo, incandescente.
Da porfia oiço o alarido:

Rezas,
.......rajadas,
...............rugidos.

sonho um sonho mal dormido:
de morte, em luta renhida,
foi Dom Sebastião malferido?

Feito de sonho é o que vejo:
estranhos carros de fogo
cruzam os céus sertanejos.
Ungem de luz a caatinga
Essas flamejantes bigas.
Vermelhidões no poente:
Seriam sarças ardentes?

Nos sertões os céus tão rubros:
sangue na chã de Canudos?

Ao longe oiço estampidos:
raios,
......trovões
............. e gemidos...

Vermelhidões no poente
rumores de gado e gente
clamor do sangue inocente:
hereges sangrando os crentes?

sonho um sonho mal dormido:
de morte,( ouço o rugido)
foi o Prinspe atingido?...

Vermelhidões no poente:
crepúsculo enceguecente,
E, em estranho disco de fogo,
vejo Dom Sebastião soerguido...

Eurico

Fonte do texto:
meu inédito, Ser/tão profundo - Mangue interior,



Fonte imagem:Batalha de Alcácer-quibir

segunda-feira, agosto 17, 2009

Canudos às avessas...




















Numa época de engajamento em política estudantil, e de literatura com propósitos ideológicos, escrevi o poema que abaixo transcrevo, e que foi baseado numa observação feita por Ariano Suassuna, na qual ele vaticinava que as grandes favelas urbanas estão sitiando as cidades brasileiras, quase num Canudos às avessas:

CIDADE SITIADA

"Cai o orvalho na face do escravo,
Cai o orvalho da face do algoz
Cresce, cresce seara vermelha
Cresce, cresce vingança feroz”
................(Castro Alves)

Sobre as colinas ao teu redor
O ódio cresce
E te espreitam as tuas vítimas,
Enquanto danças na orgia
Do selvagem capital
Te embriaga o vinhoto
O CO2
A fumaça.
Tocaiam os enjeitados: negros, mulheres, crianças...
― Tu danças e o tempo passa...
o tempo passa e tu danças...―

Breve, a cruenta vingança
Dos operários famintos,
Das putas mais sifilíticas,
Dos trombadinhas lanzudos
(descenderão de Canudos?)

Breve, ó mãe dos burgueses ricos,
Uma legião de nanicos
Vinda do alto-sertão
Fará a grande invasão:
Desce o Arraial dos Palmares
Que agora habita nos morros de tua periferia,
Desempregados e loucos (já escuto seus gritos roucos!),
Os quilombolas modernos,
Zumbis saídos dos mangues ― sem-terras vindos do inferno
Virão ceifar-te com sangue,
Armados até os dentes: enxadas e picaretas,
Peixeiras e canivetes
Foice e martelo...marrêtas.
Saquearão teus mercados, teus bancos, tuas mansões,
Farão trincheiras em teus templos, alucinados de fé
E enlouquecidos de fome derribarão teus quartéis.
..................................................
Um Condor gritou nas praças.
É tempo de ouvir sua voz:
Se calas a voz do povo...

―POETAS, GRITEM POR NÓS!




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Eurico
(poema-vaticínio de 1988,
1º Lugar em Concurso Literário da Faculdade de Filosofia do Recife)

Fonte do texto:
O meu, ainda inédito, livro Ser/tão profundo - Mangue interior.

Fonte da imagem:


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domingo, agosto 16, 2009

SER/TÃO PROFUNDO (reedição de poema)


A Euclydes da Cunha
Deve habitar em mim, inserta,
uma geografia euclydeana: sylva horrida.
Insolações recrestando capoeiras, dias imóveis,
cactos brasis, e a erosão eólia da planície;
Um sertão que me perpassa, paragem desolada,
pélago extinto e sem água...
Uma estrada poenta e causticante.
Caatingas estonadas e a secura extrema dos ares.


Não há lu(g)ar, pungente ou não, como esse de meu ser,
tão raro lume,
arquivado num olhar imaginário...
Alimária quase extinta, ruminando por monótono horizonte,
deambulo, vulto arcaico,
pelas dunas de um pérpetuo mar lunário...

Minh’alma roça a flora estiolada e as areias exsicadas do deserto.
(répteis, sutis, escondem-se nos desvãos das pedras...)
A cidade mais próxima fica a léguas de mim
e em vão procuro um juazeiro, em cuja sombra me proteja Deus
dessa flor única e intensamente rubra,
que cauteriza o céu com suas pét’las de (ultra)violeta incendiária.

Eu também saio de mim à mesma hora
a cumprir órbitas automáticas e iguais,
em meio à solidão sem língua ou nexo.
Caminho sem gibão e sem certeza
se é a vida essa vereda, solamente
um sertão n’alma nômade, silente,
retirada de sítios ancestrais.

Ereto na planura alvinitente
revelando a solitária flor,
Sou um mandacaru despido que resiste.

Ser tão profundo.
Endógeno sertão.

Essa impossibilidade de alçar vôo.
Casulo ôco e imponderável de mariposa natimorta.

Em qualquer parte de mim dardejam rádios espinescentes
e há a mesma aridez dos areais,
charcos ressecos, leitos de rios evaporados...
Léxicos de sequidão também euclydeanos.
Eu mesmo um ser tão só... verbo desidratado,
galhada sem folhas de planta esturricada,
(in)maginando um sertão que não se vê...
Eurico
Recife, 14.03.06,
Dia da Poesia)


Meu Cristo Gótico (homenagem a Euclydes da Cunha)













“Brotará como raiz da terra sedenta;
não há n’Ele bom parecer, nem formosura;
desprezado e o último dos homens;
varão de dores, experimentado em quebrantos”.
...................................................(Isaías, 53:2-3)




E se em vez de um fraco ser, senil e esclerótico,
no limiar entre lunático e neurótico,
fosse um Elias, a ressurgir nos trópicos?
Seria apenas isso que se diz: um beato sertanejo, um místico ?
ou um Dom Quixote do sertão, um épico?
Um infeliz Quasímodo matuto, cômico e simiesco?
Ou um Judas redivivo, em purgatório, escorraçado e dantesco?

Mas, quando o contemplava, estendido nessa foto euclydeana,
Lembrou-me um santo, macerado e só:

um Cristo gótico,
Que o Estado homicida trouxe a óbito,
mas que ressurgirá dentro do mito.
Está escrito.
De Dom Sebastião já oiço o grito...


***




(a foto que inspirou o poema foi feita in loco, por Euclydes da Cunha;

o cadáver é do beato Antonio Conselheiro)



Eurico

2008


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Para não perder a oportunidade de falar de amor fraternal,
nessa triste data em que, há exatos 100 anos, sepultamos o escritor Euclydes da Cunha, ele que sonhava com a fraternidade universal, através das idéias do Positivismo, leiamos um fragmento que colhi no google:



Amor, ordem, progresso



"(...)As duas palavras de nossa bandeira, ‘ordem’ e ‘progresso’, são de inspiração positivista. Mas, à semelhança do lema dos inconfidentes, ainda presente nas bandeiras de Minas Gerais e do Acre, não são uma citação fiel ao original.
Com efeito, Augusto Comte resumiu sua doutrina de modo diferente na primeira edição de seu Catecismo positivista: ‘O Amor por princípio, a Ordem por base e o Progresso por fim’. As três palavras, fundamentos de seu sistema filosófico, foram escritas com iniciais maiúsculas.
Mais tarde, o autor deu nova redação ao lema, que ficou assim: ‘O Amor por princípio, e a Ordem por base; o Progresso por fim’.

Hoje lembramos que a omissão do amor no lema inscrito na Bandeira Nacional é sintoma de desordem e atraso. Quem leu Os sertões, de Euclydes da Cunha, sabe que os republicanos não o excluíram apenas da bandeira. A violência segue vitoriosa. Em Canudos alcançou seu apogeu.(...)"




Fonte do texto:


Deonísio da Silva

copyright Jornal do Brasil, 2/08/04




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Pode ser algo de pouca monta, mas o Euclydes, assinava com "y", como se lê na imagem abaixo, e, creio, não se deve mudar o nome desse genial escritor:



Fonte da assinatura:
http://www.releituras.com/edacunha_bio.asp

sexta-feira, agosto 14, 2009

A Ponte (inquietações e cismas)




















Não te direi quem sou,
Pois eu não tenho certezas.
Não passo de uma ponte
Feita de cordoalhas invisíveis.

Estou assim, ponte,
Frágil e pênsil,
A balouçar sobre mim mesmo,
Perigos/a/mente, por sobre o nada que eu sou.
Estou lançado sobre o precipício
Entre o visível e o invisível.

E então me invento ponte,
Com essas cordas indizíveis,
E enlaço os pontos
Que me perpassam nesse instante.
Eu mesmo, o instante
Disso presente, isso volátil,
Em que agora cismo;
Tão breve instante,
Que é o m/eu abismo.



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Fonte da imagem:
http://escalaambiental.blogspot.com/


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quarta-feira, agosto 12, 2009

Caeiro: um Não-poeta (inquietações de convalescente)





























Encafifa-me o
Dauri Batistti, ao declarar-se não-poeta. E, durante a convalescença dessa "exérese em meu corpo físico", que mal me permite teclar, voltei-me à leitura dos mestres, a ver se entendia esse insólito e ambíguo ser, que faz poesia e não se admite poeta, e me deixa atônito, pelo fato de ser exatamente o que nega ser: um Poeta.
Essas inquietações sempre me levam a reler Fernando Pessoa, o Outro, esse belíssimo e saboroso ensaio de hermenêutica cultural, escrito em 1965, por G. M. Kujawski, que nos apresenta, muito orteguianamente, "o aprofundamento do nexo entre Pessoa e a essência da Poesia".
Dentre as coisas que diz Kujawski sobre os heterônimos pessoanos, algo sobre o Alberto Caeiro me chamou a atenção:

"(...) Caeiro reconquistou para Pessoa o contacto direto com as coisas, com a patência das coisas físicas e sensíveis (...)" p. 58.

Ah, como necessito desse abraço caloroso com as coisas, dessa estesia com a realidade tal como a encontro! Eu, que me julgo conceitualista demais em poesia, coisa que me faz mais pensador do que poeta, o que, de certo modo, turva a minha visão poética das coisas, descubro agora, relendo Caeiro, que sou mesmo um poeta míope, quase cego, cujo lirismo, excessivamente reflexivo, não passa de uma obssessão pelas idéias traduzidas em versos. Talvez seja isso o que distingue um Poeta de um Não -poeta. O poeta ocupa-se com as palavras, como se estivesse divorciado das coisas, enquanto o Não-poeta toca-as com as pupilas. O seu olhar as recolhe, como a peixes numa rede, e as põe, vivas, nos versos. Creio que agora compreendo melhor a afirmação dauriniana de não ser poeta. Dauri não nos apresenta palavras, mas coisas vivas, que latejam diante de quem as , digo, de quem as , o que, no fundo, vem a ser a mesma coisa, pois a poesia dauriniana é apenas a sua maneira de olhar as coisas. E quão poético é esse olhar!

Mas, como fazer poesia sem conceitos, sem idéias? pergunto-me, angustiado, por não saber olhar as coisas sem nelas pensar.
Responde-nos Caeiro, à página 60, da obra citada:

"a poesia faz-se com palavras, sim. Mas a poesia não são palavras. Também uma laranja faz-se com água, e não é água; é laranja.

Encontrei então, no
Jornal de Poesia, do amigo Soares Feitosa, essa pérola do Alberto Caeiro, que vale por mil explicações que eu, porventura, intentasse expressar, nesse, já tão longo, exórdio, em que busco alcançar o sentido do que vem a ser um Não-poeta:



A espantosa realidade das coisas (7-11-1915)


A espantosa realidade das coisas
É a minha descoberta de todos os dias.
Cada coisa é o que é,
E é difícil explicar a alguém quanto isso me alegra,
E quanto isso me basta.

Basta existir para se ser completo.

Tenho escrito bastantes poemas.
Hei-de escrever muitos mais, naturalmente.
Cada poema meu diz isto,
E todos os meus poemas são diferentes,
Porque cada coisa que há é uma maneira de dizer isto.

Às vezes ponho-me a olhar para uma pedra.
Não me ponho a pensar se ela sente.
Não me perco a chamar-lhe minha irmã.
Mas gosto dela por ela ser uma pedra,
Gosto dela porque ela não sente nada,
Gosto dela porque ela não tem parentesco nenhum comigo.

Outras vezes oiço passar o vento,
E acho que só para ouvir passar o vento vale a pena ter nascido.

Eu não sei o que é que os outros pensarão lendo isto;
Mas acho que isto deve estar bem porque o penso sem esforço,
Nem ideia de outras pessoas a ouvir-me pensar;
Porque o penso sem pensamentos,
Porque o digo como as minhas palavras o dizem.

Uma vez chamaram-me poeta materialista,
E eu admirei-me, porque não julgava
Que se me pudesse chamar qualquer coisa.
Eu nem sequer sou poeta: vejo.
Se o que escrevo tem valor, não sou eu que o tenho:
O valor está ali, nos meus versos.
Tudo isso é absolutamente independente da minha vontade.


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Fonte da imagem:

Fernando Pessoa



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